Lucidez

por José Calheiros 0

A par do “Equilíbrio”, a “Lucidez” é uma das características que mais aprecio, não por tê-las, mas por verificar nos outros a falta delas.
E lembro-me desta observância, quando ainda com oito anos, estava na sala da casa de uma prima, bem mais velha, que tinha sido mãe. A recente mãe, a minha mãe, a mãe delas (a minha tia e a minha avó) e mais três tias velhotas, também mães, apesar de uma ser solteirona (foi uma escandaleira na altura) olhavam para o recém-nascido, comentando a parecença daquele novo Ser com familiares que iam até à quarta geração quando alguém disse que a curvatura da testa do miúdo era igual à do trisavô Joaquim. Com oito anos e o pensamento absorvido na pista de comboios que ia pedir á minha mãe no fim da visita, num rasgo de lucidez que ainda não tinha existido naquela sala, digo:

- O bebé não se parece com nada…só com outros bebés!

Esta minha observação adulta, apesar de criança, mereceu um olhar de repúdio acriançado por parte dos mais velhos como se eu lhes tivesse tirado da mão uma fatia de bolo de chocolate! No fim da visita, além da fama de malcriado que adquiri, a minha mãe não me deu a pista de comboios.
Aprendida a lição, nova oportunidade surgiria dois anos depois quando outra prima foi mãe, e de visita ao novo rebento superei o devaneio de uma das tias velhotas (a que foi mãe solteira…foi uma escandaleira na altura) e num rasgo de “cegueira” propositada lanço o comentário que me fez sentir adulto:

- O bebé é parecido com o tetra avô mas o nariz é da avó materna.
(na realidade, para mim, não se parecia com nada, apenas com outro bebé)

Os adultos olharam para mim com aprovação e aquela frase foi como a iniciação na vida adulta, que se revelaria de jogos acriançados, tendo enterrado a lucidez de criança, logo ali.
Aos dez anos já não “namorava” a pista de comboios, mas sim uma pista de carros, que me foi oferecida após a visita.

A lição estava definitivamente aprendida e, em jovem adulto, para ser bem aceite, deixei de ter opinião própria e especializei-me no conforto do manual do “politicamente correcto”, ensinado em algumas “Universidades de Verão” de algumas trupes políticas, tendo recebido o diploma de “Jóia de rapaz”, curiosamente pela facilidade com que chamava “porco fascista”, “porco capitalista” e “xenófobo de m...” às pessoas que não achassem o “bebé” parecido com quem “nós” achassemos que fosse!

Mas no fundo, no fundo, para mim, sem o dizer a ninguém, um bebé só é parecido com outros bebés, tenham cor ou tamanhos diferentes e, neste momento, a coisa mais parecida que tenho com essa virtude, “A lucidez”, é um cão chamado Lúcio.

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