Mais um escândalo autárquico de corrupção e tráfico de influência com cinco detidos: chegarão estilhaços à Trofa?

por João Mendes 0

Rebentou ontem um novo escândalo, de contornos público-privados, que levou às detenções do presidente do Turismo do Porto e do Norte de Portugal (TPNP) e antigo deputado do PSD, Melchior Moreira, Isabel Ferreira de Castro, diretora do Departamento Operacional do TPNP, Gabriela Escobar Gomes, responsável pelo Núcleo de Gestão de Recursos Financeiros e Jurídicos do TPNP, e ainda os empresários Maria Manuela Couto, esposa do autarca tirsense Joaquim Couto, e José Simões Agostinho, um empresário com ligações recentes ao nosso concelho.

Em causa estão ajustes directos alegadamente lesivos para o Estado, relacionados com o projecto das lojas interactivas do turismo, que surgiram nos últimos anos um pouco por todo o norte do país, como é o caso da Trofa. A imprensa portuguesa refere suspeitas de corrupção, tráfico de influências e participação económica em negócio. A Polícia Judiciária avança que a investigação permitiu determinar “a existência de um esquema generalizado, mediante a atuação concertada de quadros dirigentes, de viciação fraudulenta de procedimentos concursais e de ajuste direto com o desiderato de favorecer primacialmente grupos de empresas”. E Melchior Moreira, segundo a investigação citada pelos órgãos de comunicação social, terá recebido contrapartidas para funcionar como uma espécie de intermediário.

No epicentro do caso, para além das empresas de Maria Manuela Couto, que não parecem ter qualquer ligação ao nosso concelho, estão as empresas Tomi World e Media 360, do empresário José Simões Agostinho. Apenas com o projecto das lojas interactivas do turismo, o conjunto das duas empresas terá conseguido mais de 3 milhões de euros em ajustes directos. 75 mil euros vieram da Trofa. Refiro-me aos seguintes contratos, por ajuste directo, que executivo camarário trofense celebrou com a empresa Tomi World (1) e Media 360 (2):

Reparem bem, quão polivalentes são os serviços prestados por este universo de empresas, agora alegadamente caídas em desgraça (pelo menos a julgar pela informação que nos chega da PJ, da imprensa e pelo facto de estar o seu proprietário detido): forneceram equipamento interactivo, concebem a imagem de marca da loja e ainda produzem conteúdos para a nossa loja do turismo. É muita interactividade.

Para quem tanto falava nos advogados de Lisboa, não deixa de ser curioso que seja a assinatura do próprio Sérgio Humberto que sela dois dos três contratos (o segundo não foi, nem tem legalmente que ser publicado na plataforma Base), um com uma empresa de Viseu, outro com uma empresa de Portimão. Tivemos que ir à outra ponta do país para conseguir alguém que nos criasse a imagem de marca e conteúdos para a loja interactiva do turismo. Curiosamente, o dono dessa empresa é o mesmo que nos vendeu equipamento a partir de uma outra sua empresa, desta feita sediada em Viseu. Percebe-se. Toda a gente sabe que aqui no Norte é impossível encontrar tais serviços.

O caso, esse, seguirá agora o seu curso normal nos tribunais. Talvez chegue à Trofa, talvez não chegue. Talvez haja algo de estranho nestes ajustes directos – não seria a primeira vez – talvez não haja. Talvez a escolha do executivo camarário por estas empresas de Viseu e do Algarve tenha sido tomada por força de influência de terceiros, sem consultar propostas alternativas mais vantajosas para os cofres públicos, talvez tudo não passe de uma simples coincidência. A ver vamos, como terminará mais este episódio de ajustes directos, esse clássico cá da terra. Já a adjudicações feitas às empresas debaixo da mira da justiça portuguesa, essas, ninguém nos tira. Resta-nos saber se os estilhaços chegam cá. 

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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