Quer um jornal, senhor presidente? Pague-o do seu bolso!

por João Mendes 0

Na última Assembleia Municipal, durante a qual se zangaram comadres, se pediram cabeças e se viram dirigentes e vassalos da cúpula do regime a fazer hilariantes figuras tristes, houve algo que me chamou verdadeiramente a atenção. Algo que já tinha sido noticiado há meses, neste mesmo jornal, e que naquela noite foi oficializado por Sérgio Humberto: o autarca quer um jornal directamente controlado por si.

Não há nada de verdadeiramente surpreendente nesta história. Falamos do mesmo Sérgio Humberto cuja estratégia para vencer as eleições de 2013 passou pela criação de um pasquim chamado Correio da Trofa, que mais não era do que a voz do dono, operado e controlado por subalternos do dono, que contratou um ou outro lambedor de sola de sapato para insultar e difamar quem incomodava o dono e que, como qualquer animal de estimação, sentava, dava a pata, rebolava e se fazia de morto, sempre que algum tema não agradasse ao dono.

Não admira, portanto, que após a sua eleição tenham fluído dezenas de milhares de euros dos cofres da câmara para os então proprietários do Correio da Trofa, um dos quais voltaria anos depois para prestar serviços durante o Be Live, ou para a designer do Correio da Trofa, que também prestou serviços durante um flop de 60 mil euros chamado Cinetrofa, Cinetrofa esse que também para lá tinha uns amigos de uns amigos.

Não admira, também, que só a coligação e os seus principais protagonistas existissem para o pasquim moribundo. A quantidade de encomendas e fretes era tal, que dava a sensação que a publicidade camarária naquele hino à irregularidade e à violação da lei não chegava para a encomenda.

Podia continuar por linhas e linhas, mas vou poupar os caríssimos leitores a escritas que já tive oportunidade de trazer para este espaço no passado. Hoje, importa perceber o que se irá passar no futuro, após o anúncio do presidente da CM da Trofa. Importa perceber como é que um jornal dirigido por políticos em funções pode ser minimamente independente, livre e imparcial. Importa perceber que fatia dos nossos impostos o irá financiar e quem serão os seus colaboradores. Terá o novo jornal do regime os mesmos cronistas que o Correio da Trofa, quase todos (todos?) militantes do PSD e do CDS? Terá o novo jornal do regime a “jornalista” recrutada à JSD, que em tempos trabalhou para o Correio da Trofa? E o director do jornal, será que também vai exercer funções de assessoria junto do PSD de Santo Tirso, como em tempos acontecia com o pasquim defunto? Iremos assistir ao mesmo número de entrevistas a tudo quanto mexe em torno da cúpula do regime, com os restantes partidos a serem pura e simplesmente ignorados, como se não existissem? As associações e/ou entidades perseguidas por este executivo, serão também perseguidas por este novo jornal? Haverá neste jornal espaço para editoriais anónimos, notícias anónimas e crónicas escritas por manipuladoras profissionais, sem ética, moral ou vergonha na cara, escondidas por trás da fotografia e nome de um peão descartável e analfabeto? Não sei o que aí vem, mas suspeito que não será particularmente surpreendente.

Construir um jornal de raiz, totalmente controlado pelo poder político, ainda que sustentado pelo nosso dinheiro, é uma manobra que, estou certo, encherá os espíritos mais totalitários de uma imensa ternura. Mas compreende-se, o desespero dos seus criadores. O pasquim de campanha, outrora peça-chave da máquina de propaganda, foi exposto, ridicularizado e lá teve que cair. As cheerleaders começaram a perder o pio, porque até uma cheerleader percebe quando o cheiro não dá para disfarçar. Resta o quê? Estalines de pacotilha e de rabo preso, aos guinchinhos em bicos de pés? Pequenos boys irrelevantes, incapazes de suportar o peso do tacho que trazem ao pescoço? Bem precisam de um balão de oxigénio. Convinha era pagarem por ele, ao invés de imputar a factura aos trofenses. Só para variar.

Imagem via The Conscious Reporter

(originalmente publicado na edição nº 677 do jornal O Notícias da Trofa, de 4 de Outubro de 2018)

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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