As (alegadas) despesas de Joana

por João Mendes 0

Vários órgãos de comunicação social revelaram recentemente uma série de dados curiosos (chamemos-lhes assim), presentes num despacho de acusação do Ministério Público que visa a ex-presidente da CM da Trofa, Joana Lima, acusada dos crimes de peculato, abuso de poder e violação das normas orçamentais, crimes que terão sido cometidos durante o seu mandato à frente dos destinos da autarquia trofense. Ao que tudo indica, a deputada e autarca derrotada no final primeiro mandato por um estreante em eleições locais, para sempre na memória dos trofenses pelo estranho caso da obra do parque e pelo polémico aceleramento da inauguração eleitoralista do Parque das Azenhas, voltará a enfrentar a justiça. Como será que lhe corre desta vez?

Segundo a reportagem de 4 de Abril da TVI24, o Ministério Público acusa Joana Lima de utilizar indevidamente o cartão de crédito da empresa pública Trofapark, à qual presidia, para despesas relacionadas com a sua actividade de autarca, num total de 4.176€, e de ter recebido indevidamente ajudas de custo de despesas pagas com o cartão de crédito da autarquia. Segundo a TVI24, que cita uma investigação do Observador, de um total de 2.273€ que Joana Lima usou para despesas ao serviço do município, terá pedido o reembolso de 1.511€. Alguns destes gastos dizem respeito a almoços nos melhores restaurantes de Lisboa, a noites passadas em alguns dos melhores hotéis da capital, e, bizarria das bizarrias, a uma conta de 122€ no Mélia de Braga, a poucos quilómetros do concelho que dirigia. Se isto não é despesismo, não sei o que será.

O Observador, ao qual Joana Lima declarou estar “de consciência tranquila”, cita o despacho do MP para acrescentar que a agora deputada “preencheu ou mandou preencher os respectivos boletins de itinerário”, de forma a ser ressarcida de despesas que, no fundo, não teve. Um emaranhado de despesismo e de ajudas de custo indevidas que leva o MP a concluir que, entre estadias a peso de ouro no Marriot, em Lisboa, e repastos dignos de um magnata da capital no Aviz, a deputada Joana Lima terá lesado o Estado em 5.687€.

Tais despesas, vindas de alguém que geria um município absolutamente enterrado em dívidas, são, por si só, uma vergonha e uma falta de respeito por todos os contribuintes trofenses. Não se trata de uma quantia astronómica, ou tampouco chega perto dos mais de 20 mil euros que o actual executivo entregou ao jornal que criou em 2014, mas não é isso que torna o caso menos grave. Porque o mais grave, a na minha opinião, agora como há três anos e meio atrás, não são os mais de 5 mil euros gastos em mordomias perfeitamente dispensáveis, que deveriam corar de vergonha um responsável eleito que se diz de esquerda. O problema é a atitude em si. Porque o despesismo é sempre imoral e vergonhoso, principalmente quando o pagador é uma entidade pública em situação de aflição financeira, que tem como consequência o pagamento de impostos violentíssimos.

Não é a primeira vez que Joana Lima se vê metida em trabalhos com a justiça. E, tal como quem a antecedeu, é bem provável que as acusações em causa acabem por cair e que este episódio passe por entre os pingos da chuva. Mas ilustra bem a classe política que temos, com aquela intrigante tendência de viver acima das suas possibilidades, à custa de um povo que paga a factura da vida larga que a elite vai levando por Lisboa, como o recente caso das viagens dos deputados insulares, entre tantos outros, veio comprovar. Mas, lá está, como diz, e bem, a sabedoria popular, cada um tem aquilo que merece. E nós, caros leitores, não temos mais do que a classe política que merecemos. Porque, no final do dia, somos alegremente enganados com papas e bolos. Ontem, hoje e amanhã.

Foto: Jornal de Notícias

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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