Sobre o desfecho das eleições autárquicas na Trofa

por João Mendes 0

Em contraciclo com a pesada derrota sofrida pelo PSD a nível nacional, de resto o pior resultado de sempre, a coligação Unidos pela Trofa consegue um resultado esmagador, reduzindo a candidatura do PS a pó em todas as freguesias, com excepção do Muro, onde derrotou o movimento independente SIM, com a ajuda do seu antigo líder, Carlos Martins, e do Coronado, onde apesar do crescimento da coligação, o PS consegue manter o seu (único) bastião.

A vitória da coligação Unidos pela Trofa estende-se ainda à Assembleia Municipal, cuja candidatura cresce a um nível inferior ao registado pela equipa executiva de Sérgio Humberto, que subtraí um vereador aos socialistas. Não obstante, em ambos os órgãos, como em todas as freguesias, a coligação vê aumentar significativamente o número de votos.

Quem também vê aumentar o número de votos, ainda que de forma mais modesta, é o PCP-PEV, que reforça a sua votação em todas as frentes, com a excepção da freguesia de Alvarelhos e Guidões, conseguindo desta forma renovar o mandato de Paulo Queirós na Assembleia Municipal.

Já o PS sofre uma derrota devastadora, partilhando o recorde com o PSD nacional, algo que me merece três comentários. O primeiro dos quais tem a ver com a estratégia bem-sucedida de colar Amadeu Dias a Joana Lima, como se o facto de serem familiares (tal como Isabel Cruz (PSD) e Paulo Queirós (PCP) o são) fosse relevante, ou como se o candidato socialista, que se apresentou com uma lista renovada, tivesse algum tipo de responsabilidade na governação socialista de 2009-2013. Um golpe baixo que deu resultados. O segundo comentário, e digo-o com sincera tristeza, é que, pelos vistos, frontalidade, idoneidade, propostas e ideias concretas não têm grande relevância para milhares de eleitores trofenses, que deram ao candidato socialista uma votação pior que a atribuída a Joana Lima há quatro anos, apesar de tudo o que aconteceu em 2013, fica a sensação de que, com Joana Lima no lugar de Amadeu Dias, a disputa poderia ter sido mais equilibrada. Finalmente, e neste caso fico positivamente surpreendido, faltou a Amadeu Dias criar o seu Correio da Trofa, com um editorial anónimo destinado a denegrir Sérgio Humberto durante os sete meses que antecederam as eleições, mais uns panfletos anónimos com igual propósito, que curiosamente saíram de circulação desde que a coligação Unidos pela Trofa foi eleita em 2013.

Nota negativa para a abstenção, que cresce quase dois pontos percentuais, confirmando uma tendência crescente de desacreditação do sistema político local, que se lamenta. Dos 33.539 trofenses inscritos nos cadernos eleitorais, 11.707 preferiram deixar os restantes decidir por si. Significa isto que aproximadamente 35% da população votante ficou de fora do processo eleitoral, valor que de resto é inferior ao registado a nível nacional (45%). Significa isto também que a coligação consegue ser eleita por apenas 39% dos eleitores trofenses, ao passo que o PS não convence sequer 21%.

Termino, recuando até ao último parágrafo de um texto com o mesmo título, escrito há quatro:

Hoje começa um novo tempo no concelho da Trofa. Um tempo com novas caras que terão muito que trabalhar para afastar o espectro da dívida e dos jobs for the boys que marcaram de forma negativa o anterior executivo social-democrata. Sérgio Humberto está alertado para os erros que não pode cometer e terá com certeza tirado as suas elações dos erros cometidos pelo executivo cessante (e pelo anterior) e do preço que os mesmos representam. A menos que queiram que o seu projecto caia por terra dentro de 4 anos. É também fundamental que os responsáveis do PSD e do CDS-PP da Trofa percebam que existe um programa eleitoral que estará a partir de hoje sob escrutínio público e que, na era das redes sociais, será acompanhado com rigor. Qualquer tentativa de enganar o eleitor é hoje uma tarefa extremamente difícil e poderá trazer repercussões significativas. Em breve saberemos de que massa é feito este novo executivo. Que façam um bom trabalho.

Lamento, caro leitor que nos acompanha desde 2013, tê-lo induzido em erro. Afinal, os jobs for the boys continuaram. Afinal, foi possível repetir alguns erros do passado sem que tal gerasse grandes consequências para o regime vigente. Afinal, o programa eleitoral é mesmo irrelevante para uma quantidade significativa de cidadãos trofenses, que se estão nas tintas para o seu cumprimento, revelando que o mesmo não passa de um mero formalismo. Afinal, é possível enganar os eleitores sem que nada de particularmente grave aconteça àqueles que aldrabam. Pode o executivo Sérgio Humberto continuar a violar direitos constitucionais, usar recursos públicos em benefício próprio, financiar instrumentos de propaganda disfarçados de imprensa, mentir aos eleitores, insultar e perseguir quem não concorda com ele. A maioria dos eleitores trofenses, os que nele votaram, bem como os que se abstiveram, validaram, com o seu voto ou com o seu alheamento, todos esses abusos. Mas há que respeitar a vontade democrática de todos eles. Eu respeito, mas tal não me impedirá de continuar a denunciar os abusos e atropelos democráticos que venham a ser cometidos pelo regime vigente. Talvez esteja é na hora de recorrer a outros mecanismos. A ver vamos, o que os próximos meses nos reservam.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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