Tem a certeza que quer deixar outros decidir por si?

por João Mendes 0

Durante séculos, o nosso país foi governado de forma autoritária e violenta, primeiro por reis, depois por um regime fascista que, tal como a monarquia, não reconhecia a vontade popular. Em meados da década de 70, a 25 de Abril de 1974, o povo soltou-se das amarras e, graças à bravura das Forças Armadas e da resistência anti-fascista, instaurou-se um regime democrático, com os defeitos e virtudes que tal acarreta, e ao povo, até então ostracizado, foi dada a possibilidade de escolher os seus líderes, no Estado central como nas suas freguesias.

É legítimo afirmar que, desde então, a democracia foi tomada de assalto por interesses que nada interessam à maioria, e que a teia que circunda os grandes partidos do centro deu origem a um terreno eleitoral desnivelado, permitindo que os mesmos se perpetuem no poder, em círculos viciosos que capturaram o financiamento público, o que permite que candidaturas endinheiradas, ainda que vazias de ideias e manchadas pela corrupção e pelo tráfico de influências, triunfem sobre candidaturas honestas e transparentes, facilmente encandeadas pelos holofotes do show-off eleitoral e atordoadas pelo cheiro intenso a porco no espeto. Do outro lado do espectro do dinheiro e do poder, estão candidaturas que, independentemente do seu valor, mal têm dinheiro para mandar erguer um cartaz. O sistema eleitoral nada tem de justo ou equilibrado. É uma manifestação objectiva do império da lei do mais forte, que deve, no meu entender, ser combatida.

Ainda assim, pelo menos para aqueles que, como eu, acreditam na democracia participativa e representativa, a abstenção não é nem pode ser uma opção. Não só porque apenas beneficia os mais fortes, inclinando ainda mais o tal terreno eleitoral desnivelado, mas porque se trata de um direito que custou vidas e séculos de luta por uma sociedade mais igualitária e menos dependente dos caprichos e do autoritarismo do poder absoluto. O voto é a arma democrática de que dispomos para nos fazermos ouvir. Se o descartamos de ânimo leve, será que queremos mesmo viver em democracia? Quereremos os outros a decidir por nós?

Nas Autárquicas de 2013, 33,03% dos trofenses escritos nos cadernos eleitorais optaram por não votar. Quer isto dizer que um terço dos eleitores do concelho permitiram que os outros dois decidissem por eles. E, diga-se de passagem, a massa abstencionista trofense, em bloco, teria o poder de eleger a candidatura que bem entendesse, senão vejamos: dos 33.444 inscritos em 2013, 11.047 trofenses, não votaram. Paralelamente, a coligação PSD/CDS-PP venceu o escrutínio com 10.092 votos, tendo o Partido Socialista ficado atrás por escassos 800 votos (9.292). Parece-me muito claro, o poder que detêm os abstencionistas.

Amanhã, seremos todos chamados a escolher. Votaremos numa equipa para liderar o executivo, nos representantes que se sentarão na Assembleia Municipal e nas pessoas que conduzirão os destinos da nossa freguesia. Ou ficaremos em casa, ou noutro sítio qualquer, e deixaremos que decidam por nós. E, a julgar pelos resultados de 2009, em que a abstenção andou na casa dos 27,2% (votaram mais 1398 trofenses, apesar do número de inscritos (32685) ser menor), corremos o sério risco de que chegue o dia em que só os militantes e simpatizantes dos partidos votarão, o que equivalerá a sermos comandados pelo partido mais forte, seja ele qual for. Seremos meros espectadores, mais ainda do que já somos agora. Valerá a pena abdicar de um direito tão valioso pelos 10 minutos que gastamos a deslocarmo-nos até às urnas para depositar o nosso voto? Será a democracia tão irrelevante para tanta gente?

Amanhã, tirarei 10 minutos do meu tempo para me deslocar até à Escola Professor Napoleão Sousa Marques, e colocarei os meus votos na urna. Independentemente do resultado dos candidatos que entendo serem os melhores para ocupar as funções autárquicas, cumprirei o meu dever de cidadão e de lá sairei com um sorriso nos lábios, por saber que fiz a coisa certa: não deixei que escolhessem por mim. E não me venham com a velha lenga-lenga de que os políticos são todos iguais, que felizmente não faltam bons exemplos por esse país fora, bem como no nosso concelho. As urnas estarão abertas durante várias horas, as filas não costumam ser particularmente demoradas e o sol promete brilhar, a convidar ao passeio dominical. Não arranje desculpas, caro leitor. Nem deixe que decidam por si. Vote!

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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