Daniel, o vampiro

por José Calheiros 0

Lembro-me perfeitamente desse final de tarde em que o Daniel, convictamente, nos transmite, a mim e ao António, que faz parte de uma lista candidata à freguesia onde reside.

Prático como sempre, o António pergunta:

- Vais delapidar o erário público?!

- Não! – responde prontamente o Daniel, prosseguindo: – Tenho um projecto para o bem da comunidade!

A sinceridade expressa nas palavras no Daniel, causou-nos surpresa… parecia um menino grande que ainda acredita no “Pai Natal”!

- Não te dou muito tempo para seres corrompido pelo lamaçal que é o meio político. – alerta o António, fino como um rato, que aos oito anos já sabia que o “Pai Natal” que lhe entrava pela casa, era o Tio Fernando, disfarçado.

Na primeira reunião do Partido a que pertence, Daniel vai preparado com propostas para serem discutidas, mas os restantes membros passam o tempo a praticar os vários tipos de “cumprimentos” que terão que ser aplicados durante a campanha: O beijinho às crianças, o abraço acompanhado de vários beijos a peixeiras e floristas, a palmadinha nas costas aos idosos, o chapadão no braço dos jovens adultos (porque cria uma empatia natural),… e o cumprimento firme acompanhado de um sorriso piedoso à pessoa de cadeira de rodas, que sempre aparece.

Urge tratar com urgência os assuntos da campanha e nova reunião é marcada para o dia seguinte.

Novamente, crente e desfasado da realidade, como a Miss Universo que pede paz para o mundo, Daniel aparece com o mesmo dossier do dia anterior, empolgado para a discussão de temas úteis à comunidade, mas desta vez, os restantes membros do partido passam o tempo a praticar expressões de naturalidade quando o imprevisto acontece, como na última campanha, quando o candidato ao receber um beijinho de uma idosa, fica com a dentadura pendurada na orelha. Nesta situação é prudente o candidato recolocar a dentadura na boca da idosa, chamar-lhe de “querida” e controlar a expressão de nojo!

Várias reuniões depois, e naquela mais importante em que são distribuídos a todos os elementos pertencentes à lista os horários das missas, Daniel insiste em apresentar a sua proposta. Foi uma desilusão para o aparelho partidário, que esperava que Daniel apresentasse nomes para colar os cartazes e em vez disso, o “político honestozinho”, propõe a criação de um condomínio público, para se cuidar dos espaços exteriores das casa dos habitantes da freguesia, tornando-a num local agradável para viver.

No dia seguinte, a notícia desta proposta correu a freguesia e despertou o apetite dos lobbys dos Hortos, que se apressaram a ir à casa do Daniel, tentá-lo com negociatas em troca de um jardim luxuriante mais manutenção. Firme como uma virgem que quer casar imaculada, Daniel insistia no raio da honestidade!

Certo dia numa acção de rua, quando uma senhora bastante idosa lhe pergunta se, caso seja eleito, vai fazer milagres, Daniel com toda a educação, reponde:

- Não minha senhora! Os milagres acabaram com Jesus e os apóstolos. E eu não sou apóstolo e muito menos Jesus!

A resposta sincera de Daniel deixou todo o aparelho partidário irritado. O Partido tinha perdido mais um voto, porque, Daniel, mais uma vez não respondeu o que o eleitor queria ouvir!

Sem alternativa, membros do Partido metem o Daniel num colete de forças e levam-no a uma clínica privada, onde lhe fazem uma hemodiálise política. Tiram-lhe o sangue bom e metem-lhe sangue corrupto. A transfusão foi feita a tempo! Daniel deixou de ter princípios e convicções e a sua lista venceu!

Daniel tem agora um jardim luxuriante e até o quintal do dependente do RSI, tem plantas exóticas…e assim a Junta de freguesia caiu na bancarrota, enchendo a “pança” dos Hortos.


Quem tinha razão era o António!

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