Coisas que eu não percebo sobre a obra dos parques. Alguém me explica?

por João Mendes 0

Queria começar este pequeno texto por dizer que fui, desde o primeiro minuto, um acérrimo defensor da obra dos parques Nossa Senhora das Dores e Dr. Lima Carneiro (doravante “obra dos parques”). Entendia (e entendo) que os parques precisavam de uma intervenção profunda que os libertasse do rótulo (real) de atoleiro de toxicodependentes, que os tornasse mais funcionais (coisa que, por inúmeros motivos, não eram) e, acima de tudo, que os tornassem um local aprazível para frequentar. Não consigo conceber um parque aprazível onde as únicas coisas que existem e que realmente funcionam sejam uma capela e o tráfico de droga.

Durante a campanha autárquica que, ao contrário do que o calendário oficial previa, começou no início de 2013 e não apenas em Setembro, a questão ficou marcada pelo denunciado aproveitamento político protagonizado por diversos e conhecidos partidários da direita trofense, com a JSD de S. Martinho de Bougado à cabeça (ou como uma espécie de “testa-de-ferro”, nunca cheguei a perceber bem…), fundamentalmente através da disseminação de um discurso marcado por um misto de populismo e manipulação de sentimentos de pertença, tentando passar uma ideia de que esta obra iria causar danos profundos na cultura e na história da Trofa. O que era anedótico tornou-se patético quando se introduziu a variável “ambientalista”: ver tantos sociais-democratas que nunca abriram a boca ou levantaram um dedo quando o executivo liderado por Bernardino Vasconcelos licenciou outros “atentados” ambientais no nosso concelho, mais não foi do que uma prova objectiva das reais intenções desta secção pop-up d’ “Os Verdes” trofenses. Claro que, como qualquer pop-up, alguém carregou no X e a janelinha irritante desapareceu. Fica o momento de humor para a posteridade.

Contudo, este tipo de manipulações não só não trazem nada de novo como são facilmente perceptíveis e desmontáveis, basta um olhar mais atento sobre as mesmas (no caso da JSD S. Martinho de Bougado nem foi precisa grande atenção, foi demasiadamente denunciada e muito “programa da manhã style”). Para além disso, a sua relevância é extremamente reduzida pelo que proponho um olhar sobre 3 outras variáveis que ou estão por explicar ou, mais complicado ainda, estão por perceber.

Logo para começar, a primeira pergunta que, acredito, ainda “assalta” tantos trofenses: o quinto melhor orçamento a uma empresa em situação de pré-insolvência?Porquê o quinto melhor orçamento? Trata-se da melhor oferta em termos globais? O que a distingue das outras que justifique o gasto extra? E a empresa Europa Ar-Lindo? Porquê assinar um contrato com uma empresa numa situação frágil? São aspectos difíceis de perceber…

Foi sempre tudo muito estranho. E faz muito pouco sentido. Entregar uma obra desta dimensão e importância a uma empresa em situação de pré-falência é um risco para todos os trofenses e uma irresponsabilidade para quem a negoceia com tal entidade. Claro que, como vem sendo habitual, os trofenses nunca foram devidamente esclarecidos. A obra avança, o poder até já mudou de mãos e nós continuamos a saber o mesmo. Depois do autarca acusado de lançar concursos de obras já feitas, só nos faltava mesmo uma autarca que entrega obras a empresas falidas.

Outra questão que me deixou algumas dúvidas foi a recente visita da PJ, do SEF e da Inspecção Geral das Finanças ao local da obra. Tanto quanto sei (e corrijam-me se estiver errado), a PJ não anda propriamente a inspeccionar obras pelo país fora. Não é bem essa a função deles. Se lá foi é porque teve um motivo. Qual terá sido? Ok, pode ser um procedimento normal no caso do SEF e da IGF. Mas a PJ? Alguém nos explica o que se passou por favor? Claro que não. Os media reportam, os responsáveis remetem-se ao silêncio.

Finalmente, a parte que realmente me intriga em todo este projecto: a necessidade de construir um parque de estacionamento subterrâneo. Aqui as perguntas nunca mais acabam! Foi feito algum estudo sobre a necessidade do mesmo? Terá esta valência utilização que a justifique ou será mais um parque de estacionamento fantasma? Qual foi o agravamento no preço final da obra? A sua construção implicou o abate de quantas mais árvores? Que preços serão praticados?

Eu, que não percebo nada de  parques de estacionamento, tenho a ideia de que se trata de uma estrutura da qual simplesmente não precisamos. Não estou a ver os trofenses a pagar para estacionar o carro neste novo parque, principalmente em tempo de crise profunda.Mas consigo imaginar algumas pequenas ruas adjacentes ao futuro parque e à Rua Conde São Bento completamente entupidas de carros estacionados a fazer lembrar a ausência de regras de trânsito que acontece durante algumas festividades locais. Afinal de contas, as obras já começaram, o estacionamento improvisado que existia na parte de baixo do parque já não existe e quem por ali trabalha tem conseguido estacionar o carro. Longe vão os tempos do “No Parque Não“…

Existem muitas coisas que me transcendem quando o assunto é a obra dos parques. Algumas provavelmente nunca serão convenientemente explicadas. Mas parece-me uma obrigação moral que os partidos que usaram e abusaram da questão como arma política sejam céleres em fazer uso da sua posição actual para explicarem os contornos desta obra a todos os trofenses. É prioritário que o novo executivo, que tanto falou em transparência e verdade esclareça, o mais rapidamente possível, todos os cidadãos do concelho.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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