O regresso da política dos comes e bebes

por João Mendes 0

Com a campanha eleitoral a todo o gás, eis-nos chegados àquela fase em que a bifana e o copo de vinho são quem mais ordena. Tanto quanto é do meu conhecimento, a coligação PSD/CDS-PP tomou a dianteira e fez já dois comícios em que a atracção principal não é um político ou um projecto, mas uma bifana e um copo de vinho à borlix. Tão típico, tão básico. Tão fraquinho. Será que PS e PCP lhe seguirão as pisadas?

Em 2013, estava este blogue a dar os seus primeiros passos, escrevi dois textos sobre aquilo que considero ser a política dos comes e bebes. Política nenhuma. Um mero estratagema medíocre que os políticos convencionais, aqueles que arrastaram este país para o lodo da dívida e da inércia, inventaram para comprar alguns votos. Sim, há quem se venda por muito pouco. Há quem seja apanhado pelos gangues da bandeira nestes eventos e, surpreendido de copo na mão, se deixe embarcar numa viagem pela mais básica lavagem cerebral. Podem ser apenas mentiras, de pouco importa, porque o político convencional está absolutamente convencido de que nunca será confrontado com elas. No limite, na raríssima eventualidade de o ser, limitar-se-á a negar tudo, porque a probabilidade de ser um profissional da aldrabice é elevada.

Fazer política a sério, política que realmente sirva o superior interesse de informar e/ou propor continuidade ou alternativas à população, não deveria, na minha opinião, assentar nestes pressupostos de seduzir o eleitor desinteressado com comes, bebes, canetas, chapéus, concertos de música pimba ou, relembrando um velho e famoso corrupto, electrodomésticos. Esta é a política da mediocridade. A política de quem não é movido por um projecto sólido, mas pela simples ambição de mandar, de controlar recursos para os colocar ao serviço dos seus, de se sentir importante, poderoso, impune. Não admira que tantos se comportem depois como pequenos tiranetes, arrogantes e prepotentes, convencidos de que estão acima dos comuns mortais, pisando quem entendem, cuspindo nas liberdades fundamentais, protegidas pela tal Constituição da República Portuguesa que estes zeros democráticos tanto gostariam de abater.

As bifanas, porém, são como os chapéus do Vasco Santana. Como os políticos descartáveis, que ascendem por entre as dezenas de milhares de euros investidos pela casa-mãe de Lisboa para garantir o seu controle sobre mais um concelho a Norte, com o alto patrocínio dos nossos impostos e de uns quantos ajustes directos suspeitos e opacos, com facturas falsas e fraude fiscal à mistura, como o escândalo PSD Porto/WeBrand veio provar. E, claro, agora como há quatro anos atrás, o terreno é inclinado e favorece os suspeitos do costume. E o resultado tende a ser o mesmo. A “feta” continua a ser “féta”.

Programas eleitorais é que nem vê-los, apesar de estarmos a menos de um mês das eleições. Há balões e gelados, chapéus e lixo variado, milhares de euros torrados em cartazes vazios de conteúdo, mas plenos de propaganda, e, quem sabe, um ou outro camião para entupir o trânsito em hora de ponta. Propostas concretas, esclarecimentos e debates é que não, são uma chatice e trazem consigo o risco de se enterrarem os engravatados. Mas não se preocupem, a partir de 2 de Outubro já não há brindes, porcos no espeto e cerveja à borla para ninguém. Foi só mesmo para tentar comprar o seu voto.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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