As eleições, os partidos e os cidadãos

por José Maria Moreira da Silva 0

O poder local é considerado, muito justamente, o poder de proximidade, pois é a «primeira porta» que o cidadão vai bater, quando tem um problema para ser resolvido pelo poder político. É no próximo dia 1 de outubro do corrente ano, que os portugueses vão pela décima-segunda vez, desde a implantação da democracia em 1974, exercer o seu direito de voto em eleições autárquicas e escolher os seus representantes no poder local (câmara municipal, assembleia municipal, junta de freguesia, assembleia de freguesia).

Nas eleições deste ano vão estar em disputa a eleição de 308 presidentes de câmaras municipais, os seus vereadores e respetivas assembleias municipais, assim como as 3.092 assembleias de freguesia, das quais sairão os presidentes de junta de freguesia e restantes elementos do executivo.

Prevê-se que nestas eleições, as candidaturas vão ter mais 70% de cidadãos independentes, pois vão passar de 88 candidaturas denominadas de independentes, em 2013, para mais de 150 este ano. São várias as motivações que movem estes cidadãos que se apresentam às eleições: independência pura (sem qualquer filiação partidária); dissidentes de partidos, mas com ambição política (camuflados de independentes); “camaleónicos”, que estrategicamente se abrigam atrás duma falsa independência (autênticas “marionetas” partidárias).

Obviamente que esta explosão de candidaturas de cidadãos vai baralhar as contas dos dois maiores partidos, que têm como objetivo principal a “contabilidade” das autarquias conquistadas, para conseguirem a presidência da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) e da Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE). É expectável que a realização desta “contabilidade” tenha um grau de dificuldade muito grande, pois algumas candidaturas de cidadãos independentes, que poderão vencer as eleições, fogem ao controlo partidário.

Nas últimas eleições autárquicas, as listas de cidadãos denominadas de independentes conseguiram conquistar a presidência de 13 autarquias municipais, embora muitos desses candidatos tinham uma base partidária. Nas eleições deste ano, o “ataque” ao monopólio dos partidos vai ser ainda maior, o que é grave para os principais partidos, pois vão continuar a perder autarquias para as listas de cidadãos independentes (puros, camuflados ou “camaleónicos”).

 A reflexão sociológica sobre esta temática, do aparecimento de listas de cidadãos independentes, aponta para os seguintes fatores: dificuldade na constituição de listas partidárias (necessidade de apoiar listas independentes); escolha ou má escolha dos diretórios dos partidos (por razões de puro clientelismo e não por meritocracia); divórcio entre eleitos e eleitores (cada vez mais acentuado); nível da classe política (cada vez mais frágil); falta de transparência e uma incapacidade dos partidos políticos se abrirem à sociedade (estão blindados a novos saberes que imanam da sociedade civil); necessidade da comunidade se unir à volta de objetivos comuns e não por objetivos centrais de um partido político (cidadania cada vez mais arreigada).

Felizmente, alguns cidadãos que se vão apresentar em listas independentes nas próximas eleições autárquicas, também lutam a favor da regeneração da democracia, contra a partidocracia que sequestrou a nossa vida política.

Para todos os cidadãos arrojados e bem-intencionados, que se vão candidatar para cumprir a nobre missão de servir a comunidade, um enorme bem-haja!

Imagem via Rádio Ourique

(originalmente publicado na edição de 1 de Junho de 2017 do jornal O Notícias da Trofa)

José Maria Moreira da Silva

A liberdade é muito mais que uma simples escolha; ela alimenta os sonhos dos que não têm medo ou preguiça de sonhar. É a possibilidade de usar a razão, em concordância com o nosso pensamento.

Quero aproveitar este espaço de liberdade, para ser livremente livre naquilo que penso e escrevo, sem qualquer tipo de medos ou amarras.

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