A “caixa” veio à Trofa… Podemos pensar diferente?

por César Alves 0

Depois de uma pausa bastante alargada na minha participação neste blogue, chegou a altura de voltar a escrever e não parar, pelo menos, não durante tanto tempo.

                Como as más-línguas gostam de referir, deixei de ser morador da cidade da Trofa a tempo inteiro, por questões académicas, mas continuo atento e, sobretudo, continuo a querer deixar a minha marca na realidade do nosso concelho.

                Sendo assim, foi com enorme prazer que recebi o convite das Escolas de Alvarelhos, São Romão do Coronado e Secundária da Trofa para ministrar aos alunos a minha palestra “Onde está a caixa?”, em contexto da promoção do meu livro “Nevoeiro”.

                Uma das maiores curiosidades que se levantam com esta apresentação é o nome. Na verdade, a explicação é muito simples. Como o próprio título da peça do Notícias da Trofa, sobre a sessão na Escola Secundária da Trofa, indica, o meu objetivo é incentivar os jovens a pensarem de forma diferente. O trabalho do … e a Trofa é minha sempre se pautou pelo estimular das mentes trofenses, pelo incentivar das questões que ninguém coloca. E o meu trabalho nas escolas acaba por se encaixar nessa filosofia.

                E a verdade é que o sucesso tem sido considerável, na minha tentativa de colocar os jovens a questionar e a questionarem-se. As escolas da Trofa, não foram exceção. E isto, por si só, dá-me e dá-nos alguma esperança para o futuro.

                Nos cerca de 50 minutos que falo, passo por vários tópicos, todos interligados. Reflito, por exemplo, sobre o facto de a minha geração (finais do anos 90) pautar-se por querer tudo no imediato. Chamei-nos a “geração da gratificação instantânea”. Não sabemos esperar, ter paciência, construir algo baseado em bases sustentáveis. E isto, se pensarmos bem, pode criar pessoas que, no futuro, corram por atalhos para conseguirem o que querem. Caro leitor, percebe a atualidade da questão?

                Além disto, falamos de aparências e de ser extremamente comum, hoje em dia, tentamos ser pessoas que não somos para agradar a quem nos rodeia, ou para conseguir seja o que for. Uma situação não só grave por isto, mas também porque muitas vezes os jovens acabam por desviar-se do seu caminho, daquilo que são, baseados em conselhos de pessoas que acreditam saber o melhor para os jovens. Mas não sabem. Porque tenhamos nós qualquer idade que seja, apenas nós podemos saber o que nos faz feliz, o que sentimos que nos realiza. E muitas vezes miúdos, jovens alunos, são olhados de lado ou repreendidos porque querem uma carreira que não se enquadra naquela mão cheia de profissões que, diz a sociedade, “têm futuro”. É altura de deixar, de uma vez por todas, a ideia de que temos de escolher uma carreira para vida e, sobretudo, é tempo de deixar e incentivar os jovens a sonhar!

                Por falar em sonhos, será talvez a ideia transversal a todo o discurso. Discuto com os jovens a diferença entre sonhos verdadeiros e sonhos falsos, com os verdadeiros a serem aqueles que nos apaixonam pelo percurso. Aqueles que, por mais dificuldades que nos apresentem, nos fazem gostar deles a cada passo.

                Finalmente, a caixa. A caixa são os limites que nos são colocados desde pequenos. Não podemos ser assim, não podemos ir por ali, não podemos fazer ou querer isto e aquilo. Eu proponho questionar estes limites. E, a partir do momento em que os questionamos, eles deixam de existir. A caixa deixa de existir. Daí que eu pergunte “onde está a caixa?”.

                Nas três escolas da Trofa que visitei, a receção foi muito boa. Desde os alunos mais novos nas escolas de Alvarelhos e São Romão do Coronado, até ao ensino secundário na Escola Secundária da Trofa e, inclusive os professores, todos acharam que, realmente, há um fundo de verdade no que digo. Atenção, caro leitor. Não me tome por um pretensioso orador, vendedor de banha da cobra. Apenas ousei questionar, um dia, o que me rodeava. A partir daí, tudo foi diferente.

                Cresci na Trofa, desde pequeno, e foi na Trofa que conheci e privei com as pessoas que me inspiraram a ser quem sou e a pensar da forma como penso. Diga eu o que disser, tenho sempre de reconhecer que, na nossa cidade, uma conjugação muito especial de fatores permitiu que eu construísse esta personalidade, que hoje me permite tentar inspirar os outros. E foi bom ver que, na Trofa, há grandes pensadores.

                Os alunos contribuíram para sessões dinâmicas, sempre com opiniões construtivas e que acrescentaram ao discurso, de alguma forma. Os professores foram muito disponíveis, quer ao cederem as aulas, quer até eles próprios a colocarem questões pertinentes. Não tenho a menor dúvida que estas iniciativas são importantes, que os alunos conheçam realidades diferentes, pessoas diferentes e que eliminem a ideia de que “só os outros…” é que conseguem. Não. Também eles próprios conseguem, se nisso acreditarem.

                Um agradecimento muito especial às professoras Mónica Loureiro, Ana Isabel Serdoura e Madalena Azevedo, pelo convite e por proporcionarem esta visita, que de muito orgulho me encheu.

                Em jeito de conclusão, e sentindo eu na pele, muitas vezes, a crítica ou o olhar desviado de pessoas que acreditam que estou, de alguma forma, a corromper a juventude, enganem-se. O meu único objetivo é tirar os jovens da caverna de Platão e fazê-los perceber que há mundo para além do que conhecem. Mas não só aos jovens, a todos os que quiserem ouvir. Porque basta questionar uma vez, para que se questionem duas ou três.

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