Trofa continua sem metro, mas se muito quisermos, ele virá

por Autor Convidado 0

(texto da autoria do professor Manuel Silva)

A linha de Guimarães entre a Trofa e o Porto foi desativada em fevereiro de 2002 para dar lugar ao Metro de Superfície. Embora não o tenham reivindicado, os trofenses acreditaram que a mudança valia a pena. O Estudo de Impacto Ambiental relativo à duplicação da linha do Metro, posto à discussão pública e aprovado nesse mesmo ano, falava de um transporte mais rápido e mais confortável com a viagem entre a Trofa e a Trindade a ser encurtada em 20 minutos.

Entretanto Vieira de Carvalho, Presidente da Câmara da Maia, falou mais alto e a linha foi desviada do canal existente, através de uma variante, até ao centro da sua cidade, ficando-se pelo ISMAI.

Sem hipóteses de reaver o comboio, a Trofa havia sido enganada. O interesse de alguns autarcas, apenas preocupados com os seus municípios, fez acrescentar novos trajetos aos iniciais, esgotando as verbas que eram para a Trofa, cuja linha integrava a 1.ª fase.

Ao longo de quase duas décadas, políticos e ministros de diferentes cores partidárias, tendo ou não feito promessas, jamais quiseram honrar a dívida,que sendo do Estado para com a Trofa, tinham a obrigação pagar.

Recentemente, a Assembleia da República recomendou ao governo, por unanimidade, o prolongamento da Linha Verde até à Trofa, calendarizando o início das obras para o ano de 2018. Nenhuma força política, nenhum deputado votou contra essa Resolução.Parecia que finalmente à Trofa iria ser feita justiça. Pela primeira vez, por unanimidade, a casa da democracia, perante a qual os executivos respondem, dava um sinal claro de que finalmente o Estado iria assumir o compromisso assumido aquando da supressão do comboio.

Puro engano. Usando o seu peso político, sobretudo preocupados com os seus territórios, alguns autarcas da Área Metropolitana do Porto logo levantaram a voz, exigindo para si as verbas que eram da Trofa. E mexendo os cordelinhos, em absoluta falta de solidariedade para com os trofenses, conseguiram o que queriam.

Mais uma vez, a Trofa ficou para trás. Desta vez, a responsabilidade foi de um Ministro do atual governo, governo este apoiado na Assembleia da República pelos partidos de esquerda.

A decisão do Senhor Ministro do Ambiente de avançar com linhas no Porto e em Gaia, deixando cair a da Trofa, por mais explicações técnicas que nos sejam dadas, é politicamente injusta e eticamente inaceitável. Viola os compromissos reiteradamente assumidos, destrata a Assembleia da República, destrói a confiança entre os eleitos e os eleitores, corrói os fundamentos da própria democracia.

Na política como na vida, raramente as coisas acontecem por acaso. É certo que, às vezes, quantas vezes, apesar dos nossos esforços, as decisões não vão ao encontro do esperado. Mas se fizermos a nossa parte, com convicção e energia, nenhuma responsabilidade nos pode ser assacada. E pode acontecer, e às vezes acontece, uma janela de oportunidade. Se tivermos trabalhado arduamente, enfrentando ventos e marés, lutando contra velhos do Restelo, é provável que consigamos levar a água ao nosso moinho. Foi assim que a Trofa passou a concelho.

Se hoje não tivemos uma decisão a favor da Trofa por parte de quem de direito, no sentido de ligar o Metro do ISMAI ao Centro da Trofa, se a Trofa foi mais uma vez injustiçada e até humilhada, também foi porque não fizemos o que devíamos ter feito. Sem liderança e sem mobilização, sem os competentes estudos e as necessárias diligências no sentido de obtermos as indispensáveis solidariedades, de que é que estávamos à espera?

Triunfou a lei do mais forte. Ao contrário do que aconteceu na História em que Golias perdeu para David, mais uma vez Gaia e Porto derrotaram a Trofa. Faltou-nos o querer, o acreditar e sobretudo a preparação e mobilização para a causa que nos daria a funda com faríamos das fraquezas forças.

E se mais uma vez a nossa causa foi preterida, nada impede, antes pelo contrário que continuemos a luta, que procuremos justiça. Razões não faltam. Nada está definitivamente perdido. Mobilizemo-nos. Lancemos pontes, na Trofa e fora dela. Os ministros mudam-se, os ministros passam. Atrás de tempos, tempos vêm. E um dia, se muito quisermos, o metro chegará à Trofa.

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