Rotundas sem personalidade

por Silvéria Miranda 0

Como provavelmente já vos aconteceu a alguns de vocês quando, em conversa com pessoas de outras localidades, dizem “sou da Trofa”, ouço sempre uma (e às vezes mais que uma) das seguintes observações:

a) “Ah, aquilo é só trânsito!”;

b) “Essa é aquela terra cheia de buracos, não é?”

c) “Ui, perco sempre a conta às vossas rotundas”.

Já muito se falou, aqui e noutros espaços, sobre o trânsito que nos atormenta todos os dias (e sobre a falta de alternativas nesta questão) e sobre a problemática dos buracos (o que está ligeiramente melhor ultimamente), mas nem sempre falamos da questão das rotundas… e é disso que falaremos hoje!

Depois das piadas que li e a ouvi há umas semanas, quando um T gigante começou a ser colocado na rotunda do Catulo, decidi esperar pela conclusão da dita empreitada antes de formular uma opinião sobre ele. Agora que está a funcionar, digo-vos que, pessoalmente, não gosto nada. Não só porque o dito T mal se vê em circunstâncias ditas normais (entenda-se, quando não estamos a usar um drone ou qualquer outro meio que permita sobrevoá-lo), mas também porque aquela “coisa” (desculpem, não sei o termo técnico) que deita uma espécie de fumo (é água, eu sei) é inestética e motivo de chacota. Poderão dizer-me que é uma questão de gosto. E é. Mas não consigo gostar e fingir que sim só para agradar à malta.

Porém, mais que debater o gosto ou falta dele – e até porque, embora o ache despropositado, não quero ofender o autor de tal objeto –, quero falar-vos daquela que considero ser uma quase total falta de personalidade das nossas rotundas. Leram bem, personalidade. Eu passo a explicar: tirando casos pontuais de algumas rotundas trofenses que mantém a sua imagem há alguns anos (como a de homenagem aos Bombeiros ou a de homenagem aos Ex-Combatentes do Ultramar da Trofa, para mencionar casos mais conhecidos), algumas das nossas rotundas ou não têm uma imagem definida, ou estão constantemente a mudá-la. E este é o caso da rotunda do Catulo. Sei que há imposições relativamente a esta rotunda – e o tal T é um desses casos –, mas, a meu ver, tínhamos ficado com aquela versão simples e eficaz que representava uma linha do comboio. Mais do que naves espaciais que deitam fumo, precisamos de fazer escolhas coerentes e que nos representem (a nós, trofenses, e à nossa história).

E nem se trata de grandes investimentos. Trata-se de vontade e de criatividade. Goste-se ou não, e já que temos tantas rotundas (a minha preferida é a inclinada, ao pé do Cenfim!), há que fazer delas espaços com personalidade, que digam algo de nós, e que isso seja tão bem pensado que seja para manter. Sem ideias megalómanas. Às vezes, menos é mais.

Foto: Manuel Veloso@Clicks do Veloso

Silvéria Miranda

Sempre tive como velha máxima que os factos são sagrados e as opiniões livres. Foi com essa premissa que criámos este espaço e é por ela que me rejo em cada palavra que aqui escrevo. Sem qualquer interesse que não o de ajudar a construir uma Trofa melhor, mais justa e apelativa, digo orgulhosamente que sou tanto da Trofa como a Trofa é minha!

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