Democracia de café

por Pedro Amaro Santos 0

O Café da Estação, em São Cristóvão do Muro terá nascido há quase cem anos. O negócio pertencia ao pai do senhor que hoje regista todas as apostas e lotarias. Antes disso, a casa já funcionaria enquanto mercearia. Depois, em 1976, o Senhor Mário Bertino, regressado do Ultramar, pegou no negócio pai e transformou no espaço ensolarado que hoje vemos da estrada nacional 14 - Rua José Moura Coutinho. Aquele café é bancada e palco de quase um século da história da Freguesia do Muro e do Concelho da Trofa.

Além do café tirado com gosto da máquina bem afinada - como gostam de gabar - e da correria de apostas e lotarias, é um espaço de encontro é de debate político. Desde novo que sempre vi aquele café como grémio onde entre o xadrez se debatia a política local e nacional. Cedo me ensinaram que quando queríamos perceber e tomar posições, devíamos prestar atenção aos cafés, verdadeiras assembleias populares de democracia participativa.

Quando começaram as lutas pelo metro, foi lá que pintei faixas e sonhei revoluções. O café serviu de pano de fundo a toda a manifestação popular no primeiro boicote. Foi lá que pela mão do vice-presidente da Câmara Municipal da Trofa se constituíram as mesas das urnas que ficaram vazias dois dias depois. Sempre que se aproximava um desses momentos a Dona Dolores mobilizava toda gente, enchia autocarros, fazia campanhas e hábeis jogadas políticas. Dizia-me: “Pedro, agita a malta. Precisamos disso”.

Sempre que posso, tomo lá café pela qualidade deste e pela estima que ganhei à Dona Dolores deste que sou amigo do filho. Cheguei e, enquanto o marido atendia as últimas apostas do dia, ela acorreu para me perguntar se queria café. Antes que pudesse pagar, perguntou-me como ia a política. Era uma pergunta retórica pelo que ela suspirou: “uma desilusão”. Mal tinha consentido e já me estava a precaver que: “enquanto eu tiver voz ninguém me cala. Posso não conseguir nesta vida mas não os deixar sossegados”. Sem resposta possível, perguntei pela família e agradeci a qualidade daquele café. Rematou com o pedido em troca do café: “nunca desistas”.

Saí para o largo da estação, parei perplexo em frente à estação abandonada e fotografei mais uma vez aquelas paredes cobertas de poemas. Fico sempre orgulhoso daquela história. Lembrei-me de todas as pessoas que, como a Dona Dolores me pediram o mesma em troca da sua simpatia. Lembrei-me até do pedido do que me pediu o Papa: sai do sofá. Lembrei-me das vezes em que ouço “eles só roubam” ou “mais um tacho para os amigos”, das vezes em que desabafam “sempre para os mesmos” ou “fazem o que querem”. Em oposição, lembrei-me também de todas as pessoas que me tentam convencer de que está tudo bem. Lembrei-me das vezes em que ouvi “só critícas”. Lembrei-me da destruição de património histórico, lembrei-me das assembleias em regime autoritário e lembrei-me da compra de órgãos de comunicação com gordos ajustes directos. Lembrei-me deste e dos outros executivos. Lembrei-me que as promessas mudam e as obras são feitas mas a falta de respeito e de compreensão que ultrapasse cores partidárias continua a dividir-nos e a catalogar-nos. Lembrei-me do ódio, mas também me lembrei de pessoas que o combatem todos os dias.

Para ser justo com todas as pessoas tive de parar e concluir com a sabedoria da Dona Dolores e repetir para mim: “enquanto eu tiver voz ninguém me cala. Posso não conseguir nesta vida mas não os deixar sossegados”. Eu vou resistir.

Não sou o único. Nos acasos da vida, todos encontramos cidadãos cheios de ideias e de vontade de contribuírem para esta construção de um mundo melhor. Quantas pessoas pedem apenas um mundo melhor para os seus filhos? Somos mais do que imaginamos.  Em São Cristóvão do Muro ou noutro qualquer canto do mundo, como é o caso, não posso deixar de acreditar.


A democracia dá muito trabalho. A liberdade é para se conquistar todos os dias em cada gesto. Quando desistirmos disto, apagamos da nossa história os cafés da estação e todas as pessoas que lutaram e sonharam este país, este concelho e esta freguesia.

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