De quem é a Trofa? Exercícios para a compreensão da identidade condenada ao felácio político

por Pedro Amaro Santos 0

Hoje as redes sociais acordaram em alvoroço pela novidade: está no ar mais uma página pseudo-cívica trofense. O nome é simples e confirma o motivo a que vem. O propósito também está particularmente claro pelos comentários que acompanha. Perante algum apoio generalizado nas publicações que, para já, tem, todos podemos, também, fazer algumas apostas em quem serão os autores da mesma.

A internet tem destas coisas que a auto-moderam. É tão fácil criar panfletismo anónimo - o boletinistmo, neste caso - que, só poderia ser da mesma forma fácil, perceber quem o produz, quem o distribui, quem o apoia e, sobretudo, o que todos ganham com isso.

Apesar de recente, a página anónima está bem lançada para se constituir como claque acéfala da Câmara Municipal da Trofa. A máxima de apoio está bem implícita mas, se fosse apenas isso, não me faria escrever, sequer. É mais do que apoio. É uma espécie de fanatismo anónimo que, em bom rigor e saber estar, espero que até ao poder político cause alguma confusão. Estamos no mesmo nível da crítica tasqueira para a qual já tínhamos algum trabalho público, mas agora no nível felácio político que deveria causar estranheza e fazer comichão à democracia.

Bem sei que a ideia desde pseudo patriotismo cria alguma simpatia. É aquela velha máxima que facilita o galope do poder instalado: “vamos lá apoiar”. É aquele truque de espetarem a palavra “verdade” a meio de qualquer frase mesmo que se refiram a um pseudo meio informador que não faz mais do que partilhas a partir da página da CMT - não há sequer chance para não dizer verdade. É a lembrança fácil e constante ao tempo dos “joaninhos”. É a falácia de que o futuro só passa por aqui neste presente e que antes nunca o houve. Caminhávamos para um buraco negro espaço temporal, imaginem.

Como em tantos outros temas impulsionados pela falta de noção colectiva, até seria interessante fazermos um simples exercício de reflexão: partilhava aqui o link para a dita página, cada leitor esquecia o refrão do hino, corria para o centro do feudo e detinha-se uns momentos no catulo à procura da resposta para a questão filosófica-histórica-geográfica-antropológica-sociológica-política do último quarto de século: “afinal, de quem é a Trofa?”

A diferentes conclusões seriam sujeitas ao confronto do debate científico, organizaríamos um congresso e publicaríamos as suas actas. Ainda assim, não chegaríamos a conclusão que satisfizesse o comum cidadão que pacatamente solicita o respeito pelos seus direitos. Pela afinidade de quem tantas vezes se vê obrigado a escrever “trofa” na sua morada e por pagar a catrafada de impostos que, pelas siglas sonantes, quase se tornam mais simpáticos (IMIs, IPIs e PIPIs) o comum cidadão ficaria indignado com a conclusão de que, apesar de tudo, a Trofa não é sua. Não, a Trofa não é do comum cidadão e, apesar de pouco relevante, o surgimento desta espécie de página de facebook vem confirmar militância por essa ideia.

Perante estas conclusões, os comuns cidadãos que perderam tempo a correrem para o catulo mereceriam a oportunidade de ripostarem: então a Trofa é de quem?

Por muito confusão que faça aos criadores e aos seguidores da dita página e a outros tantos que se escondem que nem jacarés nas margens do Parque das Azenhas esperando o seu ciclo, a Trofa é nossa. A Trofa é dos trofenses. A Trofa é de quem cá vive, de quem cá trabalha e até de quem cá todos os dias passa. É. Lamento. A Trofa é dos cidadãos de Alvarelhos, dos de Guidões, dos de São Mamede e São Romão do Coronado, dos de Covelas e dos do Muro. A Trofa, para vossa sorte ou azar e para nossa tristeza ou alegria, vai muito para além das freguesia do dito centro. Mesmo a essas, convém lembrar que isto se estende bem para lá do Catulo, da Estação Nova, do Parque das Azenhas, do Souto de  Bairros e do Mc Donalds.


Autores da página de facebook “A Trofa não é tua”, façam um favor à história deste concelho condenado à ignorância de gestos como o vosso: mudem, pelo menos, o nome.

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