Marta

por Alexandra Santos 0

Um dia, de manhã, sem ninguém prever, Marta acordou ao lado de um corpo inerte e frio. O seu marido, de 58 anos, nunca mais despertou.

        Continuando a ser a mulher forte que sempre tinha sido, simplesmente ligou para o hospital, para as suas filhas e para a funerária. Chorar? Não tinha tempo para isso! Enquanto esperava, trocou a roupa do marido (uma vida a trabalhar como enfermeira deu-lhe técnica suficiente para ser capaz de o fazer sozinha), aspirou a casa e limpou o pó (não podia deixar que alguém pensasse que ela era uma desarrumada).

         No funeral, os familiares e os amigos cumprimentavam-na, davam-lhe os pêsames, mas comentavam o estranho facto de ela nunca ter vertido uma lágrima. Uns diziam que ela ainda estava em choque, outros referiam que ela tinha muitas razões para o desejar morto e outros comentavam ainda que os resultados da autópsia tinham sido inconclusivos, levantando dúvidas acerca da sua suposta morte natural.

         As duas filhas do casal abraçavam a mãe e choravam. Apesar de adultas, notava-se que gostavam muito do pai e que sofriam bastante com o sucedido. A mãe, de rosto impenetrável, sem verter uma lágrima, apenas as amparava. Chorar? Não tinha tempo para isso!

         Durante os meses que se seguiram, Marta manteve-se sempre muito ocupada. Vivia agora só, numa grande casa, mas tinha planos e preparava-se para os concretizar. Chorar? Não tinha tempo para isso!

         Quando passava pelos seus vizinhos, perguntavam-lhe sempre: «Como está, Dona Marta?». E ela sempre respondia, com um rosto impenetrável: «Muito bem, obrigada!». Chorar? Não tinha tempo para isso!

         Um dia, num centro comercial, Marta encontrou-se por acaso com uma amiga de infância, com quem já não falava havia mais de trinta anos. Aquele rosto familiar, já envelhecido pelos anos, era apaziguador e Marta abraçou-a como que a abraçar a felicidade perdida dos anos de inocência. E quando ela lhe perguntou como estava, Marta finalmente chorou… já tinha tempo para isso!

Alexandra Santos

Alexandra Santos nasceu em 1980, em S.Romão do Coronado, concelho da Trofa, onde ainda reside. Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade do Minho em 2003, tendo trabalhado sempre, a partir daí, na área da educação. Devido ao gosto pela escrita, tornou-se igualmente escritora, sendo a autora do livro de poesia Palavras Sussurradas.

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