Um péssimo cartão de visita

por Silvéria Miranda 0

Já muito se falou sobre o Metro na Trofa em conversas de café, meios de comunicação social e até mesmo neste espaço. Esse tema é uma espécie de não assunto com o qual muitos de nós já se conformaram, eu inclusive. São promessas esquecidas, desculpas esfarrapadas e uma esperança que tende a desfalecer. Do que nem sempre se fala é das pessoas que dependem diretamente da rede de transportes públicos, que na Trofa é bem medíocre, seja ela referente ao Metro, ao autocarro ou ao comboio (de resto, o único que se safa e apenas para uma parte da população trofense).

Há dias, soube do caso do Miguel (nome fictício), habitante do Muro, na casa dos 20 anos, à procura de emprego. Por razões que não aprofundei porque não são da minha conta, o Miguel simplesmente não dispõe de automóvel. Em conversa, o Miguel desabafou que depende dos poucos autocarros que passam na sua zona para se deslocar e que, por isso, está muito condicionado. Estando dependente destes fantasmagóricos meios, o Miguel não pode concorrer a tantos empregos quanto deveria, sai de casa muito menos do que gostaria, e uma coisa tem levado à outra.

O Miguel pode ser caso único – o que eu duvido –, mas a verdade é que temos aqui um jovem cuja zona de residência parece ser um empecilho (será um defeito morar-se no Muro?). Se não tem trabalho, o Miguel não tem dinheiro para tirar a carta de condução. Sem carta de condução e sem dinheiro, o Miguel não tem carro. Sem carro, o Miguel depende de meia dúzia de autocarros circunscritos a uma parte do dia. Sem grandes meios de transporte, o Miguel não pode simplesmente ter certos empregos, porque não teria como voltar para casa a partir de certas horas (por exemplo). Estão a ver aonde quero chegar?

O que quero com isto dizer é que hoje é o jovem Miguel sem emprego nem vida social. Amanhã é a dona Idalina, idosa e com os filhos no estrangeiro, que se vê aflita para chegar ao Hospital da Trofa (qual é o autocarro para o Hospital da Trofa, mesmo?). E quando dermos por ela, os murenses e outros trofenses (os que parecem colocados em segundo plano porque são uma minoria e representam uma pequena parte dos votos) estão praticamente isolados.

Se eu acho que devemos continuar a lutar pelo Metro? Acho, embora me pareça uma causa perdida e juro-vos que gostaria de estar enganada. Mas acho sobretudo que devemos parar de simplesmente esperar por ele e pôr mãos à obra. O problema está no Muro, mas não só. O problema está em circular cá dentro e dou por mim a constatar que eu própria desconheço várias zonas do meu próprio concelho porque nunca nada me levou até elas (não só os transportes públicos, mas também). Podem pegar nisto como medida eleitoralista em tempo de campanha eleitoral, como queiram. Mas peguem naquilo a que chamaram programa eleitoral e cumpram pelo menos uma das coisas que lá vinha, que envolvia precisamente a criação (ah, esperem… tentativa) de criar uma rede municipal de transportes.

É vergonhoso que um concelho jovem tenha um tão mau cartão de visita como este. Lembrem-se: os transportes públicos não são só o meio de transporte dos pobres. São o meio de transporte dos turistas quando cá vêm, dos moradores dos concelhos vizinhos quando vão à Fisitrofa, são aquilo que qualquer um de vocês pode ter que usar quando o confortável automóvel vos avariar. No dia em que alguém “importante” tiver mesmo de os usar aí sim, talvez a consciência desperte. Ate lá, vai esperando, Miguel…

 

Cartoon de Mark Andersen

Silvéria Miranda

Sempre tive como velha máxima que os factos são sagrados e as opiniões livres. Foi com essa premissa que criámos este espaço e é por ela que me rejo em cada palavra que aqui escrevo. Sem qualquer interesse que não o de ajudar a construir uma Trofa melhor, mais justa e apelativa, digo orgulhosamente que sou tanto da Trofa como a Trofa é minha!

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