Super Potências

por José Calheiros 0

No mundo animal existe sempre o mais forte. Este será substituído por outro, ainda mais forte, que um dia, também, perderá o poder, acontecendo, por vezes, ser substituído por um conjunto de seres mais fracos, que se unem parar o destronar, e quando o inimigo comum desaparece, lutam entre si e o menos fraco fica com o poder...

Entre os Homens, a primeira grande potência foram os Egípcios, seguidos pelos Assírios, substituídos pelos Medo-Persas, depois a Babilónia,.. e actualmente é a aliança Anglo-americana.

No mundo, as grandes questões podem explicar-se na nossa vida micro, quando ainda temos um tamanho mini. Nós, pelo menos eu, prefiro que o mais forte seja aquele mais parecido comigo. Por mais que racionalizemos, somos emocionais, e naturalmente procuramos o nosso “espelho”.

 

- Ó gordo!

Naquela altura, na 1ª classe, não gostava que me chamassem aquele “nome”, mas era-o. Miguel, magricela, achava que perante a minha formosura, ser pele e osso era uma mais valia. Achava-se poderoso sem o ser e eu fiquei poderoso sem o querer, quando num outro dia repetiu o “nome” – Ó gordo - e eu, sem querer, tropeço e caio em cima dele. Sentiu o poder do meu peso, mas durante a maior parte da primária mantive-me neutro, enquanto o Miguel, nos recreios, guerreava com outros do calibre (peso) dele.

Naturalmente, ao fim de algum tempo, os mais fracos que o Miguel, com quem ele naturalmente “gadulhava”, levando a melhor, pediam-me protecção, mas como não me sentia polícia da Primária chegava-me ser respeitado, enquanto gordo, fruto do tropeção em cima do Miguel.

Ao fim de pouco tempo, todos se conheciam e sabiam com quem se metiam.

Como o homem tem a memória curta e o Miguel não escapava a esta característica humana, apesar da sua tenra idade, na terceira classe esqueceu-se do meu peso em cima dele e chamou “pote” ao Agostinho, um miúdo novo na escola, vindo de Barroselas, com os pais, para a Trofa. Agostinho, habituado, desde os três anos, a ir ver com os pais os jogos do Distrital de Viana do Castelo, sempre que o Sport Club Barroselas jogava em casa, espeta com um torrão de terra na cara do Miguel.

Sempre achei estranho, aqueles que chamavam “nomes” a algum menino, sabendo que iam “levar no focinho”! E o Miguel voltou a “levar”.

Eu e o Agostinho, que aproveitava qualquer deslize de qualquer menino para pregar uns “milhos”, começamos a ser vistos como os pólos do poder. Eu, fruto de um tropeção, sem querer, em cima do Miguel e o Agostinho, com nervos à flor da pele, que reagia sempre que se metiam com ele.

Os fracotes que viviam na minha rua, quando em apuros vinham ter comigo, os que viviam no mesmo bloco do prédio para onde os pais do Agostinho se mudaram, iam ter com ele. Nunca chegámos a vias de facto, com a noção de que ambos perderíamos.

Sabendo que o Agostinho se corrompia há algum tempo, eu mantive-me neutro até à quarta classe, altura em que o Miguel ofereceu-me “chiclas” para o proteger de um colega novo, baixote e gordo, de flatulência endiabrada, que sempre que o apanhava desprotegido, sentado na sanita da casa de banho, largava um poderoso “ataque nuclear” e trancava a porta.

Eu, com um discurso de protecção dos inocentes, quando o que me interessava eram as “chiclas” do Miguel, passei a perseguir o baixote gordo de penteado estranho, que fugindo e à distância me ameaçava – Olha que eu prego-te um “pu” na cara!

Nesta idade, os poderes e bulhas, não superavam a  amizade e a vontade que tínhamos de jogar à bola todos juntos. Só o baixote gordo se manteve sempre à distância!

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