Orquesta Urbana - Uma Visão Interna ou A ironia da contradição

por Francisco Sousa Barros 0

O enorme prazer de fazer parte desta Orquestra Urbana é difícil colocar em palavras... A emoção, do entusiasmado momento em palco, é partilhada por todos, num positivo brio pelo Maestro que, qual matemático, mantém intransigentemente o prazer pela música e uma instigadora alegria, numa cumplicidade total com cada um dos elementos e momentos. Somos todos, na Orquestra, um bocadinho do André NO, e o resultado desta extravagante equação é música, da boa, em estado puro.

A forma que algumas pessoas me abordaram, no final desta e da anterior actuação da Orquestra Urbana, é revelador de um genuíno sentimento, difícil de ficar indiferente, e que me torna mais Trofense, pois a comoção ou excitação ou que lhe quiserem chamar, desses interlocutores, é verdadeira, pura e seria. Estou longe de ser um artista ou coisa que lhe valha, ainda menos músico, mas nos últimos anos pisei de diferentes formas diversos palcos. Tive alguns momentos que considero únicos, aconteceram reconhecimentos que guardo carinhosamente para toda a vida e que não vou aqui agora relatar, em pormenor, contudo tenho de passar umas ideias... Algumas vezes acontece de me abordarem, por esta ou por aquela razão, selfies que tanto me incomodam, quem te queira conhecer melhor, até aquela pessoa que aguarda por ti apenas para te cumprimentar, ou acabar num rooftop a passar música a beber Stolichnaya gelada com sumo de laranja natural, e podia ficar aqui mais um bocado mas a ideia já está passada... A adrenalina, e a satisfação desses momentos, é única e pode até ser prejudicial para um dia-a-dia composto maioritariamente pela enfadonha normalidade... Afinal esses efémeros momentos não passam disso mesmo... Efémeros e ilusórios momentos que no quadro geral daquilo que é a vida pouco acabam por importar, e pior, vivo-os normal e maioritariamente, sozinho. Certa vez, depois de uma noite que correu perto da perfeição, em que a tal adrenalina corria intensamente nas veias, fui comer qualquer coisa a uma pastelaria que servia pequenos-almoços antes da missa de domingo, entro na pastelaria ainda em modo actuação, t-shirt rasgada, gorro, o trolley com o material, óculos escuros (a esconder os olhos pintados) e cigarro na boca. Nesse dia, nesse momento, nessa pastelaria, percebi que nenhuma daquelas pessoas fazia a mínima ideia de quem era ou o que tinha acabado de fazer, percebi também que mais do que outra coisa qualquer alguns pareciam era estar com pena de mim, certamente o meu aspecto aludia a um qualquer sem-abrigo que tinha acabado de acordar, outros desdenhavam olhares de censura. Percebi então que aquilo que momentos antes tinha acontecido era a ilusão e esta era a grande realidade, que dali a nada estava de volta a casa, para pegar na Bia e na Susana para ir com elas e com os cães até a praia, percebi que me tinha de desligar, para sempre, desse tipo de emoções relativas e momentâneas.

Mas nada se compara ao que acontece no final de uma actuação da Orquestra Urbana, e as emoções relativas e momentâneas estavam ali presentes em todo o seu fulgor, dos abraços anónimos às lagrimas nos olhos, passando pelo "você arrepiou-me", até ao "tenho de o cumprimentar". Respondo sempre que se deve ao André No e penso sempre, apenas para comigo, "foda-se, que caralho, tive ali meia-dúzia de minutos" e não lido muito bem, fico sem saber o que dizer as pessoas para além de Obrigado e que tudo se deve, repetindo, ao André No. Há ainda outra pessoa que merece créditos por aquela meia dúzia de minutos dentro da actuação da Orquestra Urbana, que é o co-autor do texto, o herético e desnaturado João Mendes. A estória desse texto, que até já está publicado nesta casa, um dia dará um post.

Concluindo; nas duas vezes que passei meia-dúzia de minutos em palco com a Orquestra Urbana não dormi na noite seguinte à actuação, fiquei de boca seca o tempo todo, não comi, e passados uns dias aqui estou eu a escrever de um só jorro sobre isso e como tudo isto é para mim tão pessoal... A ironia da contradição é que é num blogue que o faço.

Sentir na pele o Sentimento e Fervor Trofense, sentir na pele que sou a Voz de Outros, sentir que aquelas palavras tanto representam e simbolizam. Humildemente, escrevo que não tinha essa percepção ou consciência... Isto talvez por "eu não ser da Trofa", mas não tenham desconfiança, aquelas palavras que recebo, as lágrimas, os abraços, tornam-me o coração Trofense, e se alguma vez mais actuar com a Orquestra Urbana, quando digo "Sou sua pertença", isso se deve, cada vez mais, aos Trofenses de Alma.

Imagem de capa: Inês Torcato

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