O ciclo vicioso do boato

por João Mendes 0

Há quem lhes chame “lições”.Outros “justiça divina” (seja lá o que isso for). A verdade é que existe uma espécie de “princípio de reciprocidade” na forma como certas atitudes e/ou posições geram consequências que, se pensarmos bem, principalmente perante o historial da classe política que domina o nosso país, são, regra geral, previsíveis.

Já aqui escrevi o respeito que não tenho pela reles política do boato. Uma das visadas do meu texto na altura, Sofia Matos, vê-se agora envolvida numa situação em que os papéis se inverteram e na qual ficou à mercê dessa mesma estratégia rasteira. Segundo a única notícia de que tive conhecimento sobre a situação em causa (e que aqui partilho), a líder da JSD Trofa foi alvo de um mandato de detenção por não ter comparecido em tribunal, num caso em que a mesma se encontra na qualidade de ofendida. A leitura de uma notícia destas, de forma superficial, poderá levar alguém a pensar “olha, foi presa!” quando na realidade se tratou apenas e só de um procedimento normal que se aplica em situações em que se falha duas vezes a uma audiência em tribunal. Pelo menos foi assim que me explicaram, não sou grande entendedor da justiça portuguesa, é uma “ciência” pouco exacta…

Podia estender-me aqui sobre a ironia que é ver uma recém-licenciada em Direito que se coloca numa situação destas porque, convenhamos, trata-se de um caso de negligência, agravado pela formação da visada. Mas o interessante é constatar que ainda esta notícia não tinha sido publicada e já corria uma história sensacionalista que envolvia uma detenção à força com tentativa de resistência às autoridades. Como se anteciparam estas pessoas ao JN? Mais interessante ainda, é ver que algumas das pessoas que tanto se insurgiram contra o boato que se criou em torno do suposto Audi Q7 que Joana Lima não tem, tenham sido as mesmas a fazer correr o dito boato.

O que tiramos daqui?

1. Que as notícias que colocam “a Trofa na comunicação social pelos piores motivos”, independentemente da fonte ser a mesma, têm tratamento parcial por alguns agentes políticos, não em função do bom nome do concelho que sai manchado mas, acima de tudo, por questões de estratégia política focada em denegrir os adversários políticos para lhes retirar credibilidade.

2. Que os mesmos agentes políticos que fazem correr estes boatos (e que não se importam nada de o fazer), e que se colocam numa posição de “vítima” quando os papéis se invertem, se revoltam num acto de indignação hipócrita, de quem estar a ser injustiçado mas que praticou a exacta mesma injustiça.

3. Que as estruturas partidárias são incapazes de consciencializar os seus militantes para a mediocridade de tais acções, que não só se repetem, como alguns dos seus praticantes são mesmo chamados a ocupar lugares de destaque nos órgãos autárquicos. Apesar das consequências políticas óbvias de tais actos.

4. Que o facto de serem parciais lhes retira legitimidade para se indignarem quando são alvo das mesmas práticas a que sujeitam terceiros. Houve um tempo em que se podia dar o dito por não dito. Hoje, na era da comunicação em tempo real, limitam-se a cair no ridículo, expondo-se ainda mais e tornando-se num alvo fácil que apenas contribuí para perpetuar este ciclo vicioso e perfeitamente desnecessário.

Sou terminantemente contra a exploração de uma situação destas, seja o alvo Joana Lima, Sofia Matos ou outro cidadão qualquer. Mas já diz o ditado que “quem semeia ventos, colhe tempestades”. E aqui, as tempestades são colhidas tanto por quem foi vítima do boato, se indignou e agora entra na ironia de usar do mesmo “remédio” contra terceiros, como por quem, tendo usado dessa prática nefasta, se vê agora visada pela mesma e se sente indignada por isso.

Deixo-vos uma questão que se me coloca para quem nela quiser reflectir: caberá na cabeça de alguém que, estando a Sofia na condição de ofendida no caso em questão, haveria lugar a qualquer tipo de resistência às autoridades? Será que isto faz sequer sentido?

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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