A Ponte da Peça Má, os «carapaus de corrida» e as calinadas

por José Maria Moreira da Silva 0

Já não existe, a famosa Ponte da Peça Má, que estava localizada na Freguesia do Muro, Concelho da Trofa e servia de ligação ferroviária, até a linha do comboio Porto (Trindade) / Guimarães ter sido desativada em fevereiro de 2002. Foi ordenada a sua demolição pela empresa “Metro do Porto” e foi o culminar de um desfecho mais que previsto, que tem originado uma série de aproveitamentos políticos, como é natural em tempo de pré-campanha eleitoral, para as eleições autárquicas que se vão realizar no próximo ano.

A campanha eleitoral já está no terreno, já está na rua, e a Rua José de Moura Coutinho (que é a toponímia da Estrada Nacional n.º 14, em toda a sua extensão na Freguesia do Muro, Concelho da Trofa), ficou amputada, no seu início do seu ex-libris, a Ponte da Peça Má, que tinha pelo menos 84 anos. Esta ponte, que foi inaugurada em 1932, foi construída para servir a linha do comboio até à Trindade inaugurada em 30 de outubro de 1938. Era construída em alvenaria e tinha um vão de 19 metros e um arco de 89 aduelas.  

É bom recordar aos «carapaus de corrida», que se têm aproveitado deste assunto para fazerem campanha eleitoral, que para além da Ponte da Peça Má, existem várias pontes, no Concelho da Trofa, que foram feitas para o mesmo efeito, na mesma época e são também infraestruturas que têm idêntico valor artístico, histórico e patrimonial.

Só na Freguesia do Muro existem mais sete pontes (S. Gens, Quintão, Padrão, duas no Cambito e duas na Carriça), que também foram construídas com o mesmo tipo de arte, no mesmo formato arquitetónico e estão completamente ao abandono e em completa degradação. Algumas com graves ameaças de ruírem brevemente. Então só se defende uma, quando existem mais, no mesmo estado de degradação? Porquê este deslumbramento só por uma ponte? Pela visibilidade que ela tinha e as outras estarem mais escondidas e não terem a mesma visibilidade? Só que o perigo encontra-se em todas elas! Isto será ignorância ou desonestidade intelectual?

Durante estes últimos tempos, muitos vieram para a praça pública opinar sobre o assunto, em formato de afirmações públicas, entrevistas, artigos de opinião, comunicados, posts facebookianos, quase tudo pífio e muitos a derramar «lágrimas de crocodilo». Foram tantas as «calinadas» que se disseram publicamente, que até chegaram a escrever que a Ponte da Peça Má está situada em Lantemil, quando Lantemil pertence a Santiago de Bougado e a ponte está, e sempre esteve na Freguesia do Muro, pois nunca se deslocou do sítio onde foi construída. Chegou-se a comparar esta demolição, com a demolição, que foi feita, estupidamente em 1935, da Ponte Pensil da Trofa. Que diferença abismal. A obra da Ponte Pensil, no seu formato e no seu valor arquitetónico só havia mesmo uma, enquanto obras como a Ponte da Peça Má há muitas! Também chegaram ao cúmulo de pedirem a Deus a sua intervenção. E esta hein!

Para os murenses tem sido boa esta solidariedade, que alguns trofenses decidiram prestar. Finalmente! Só foi pena não ter existido a mesma solidariedade quando a Freguesia do Muro lutou, e continua a lutar, pela vinda do Metro de Superfície à Trofa. Nesta luta do Metro, a Freguesia do Muro sentiu-se praticamente sozinha, e continua a estar sozinha. Merecia mais solidariedade dos trofenses. É pena, pois na luta para a criação do Concelho e para o desenvolvimento e crescimento do Concelho da Trofa, a Freguesia do Muro esteve sempre na primeira linha.

Para mim, em primeiro lugar sempre esteve e está o ser humano, mas também sou defensor do nosso património, sem qualquer tipo de fundamentalismo. Não tenho qualquer aspiração a qualquer cargo político, nem sou militante das «teorias de conspiração». Sei que quando passar pela Peça Má vai surgir uma lágrima ao canto do olho.

Também sei, e penso que todos sabem, que a tutela da empresa “Metro do Porto” é do Governo. É o Governo que nomeia os seus administradores e decide se deve ou não ser construído o Metro de Superfície do ISMAI à Trofa. Assim sendo, e sem eufemismos é preciso afirmar que os protestos deveriam ter sido feitos ao Governo e não a outra entidade qualquer. É ao Governo que se deve pedir responsabilidades, pois bastaria ter havido uma palavra da tutela para que a empresa “Metro do Porto” parasse de imediato a demolição. Foi o Governo, através da empresa “Metro do Porto”, que afirmou há poucos dias: «a infraestrutura não tem – nunca tal foi formal, oficial ou sequer academicamente documentado -, qualquer tipo de valor patrimonial ou arquitetónico, pelo contrário, representa uma limitação à circulação automóvel, um fator de congestionamento e uma ameaça à segurança das populações». Uma afirmação polémica, mas oficial e contundente, com a «chancela» indireta do Governo.

Provavelmente, ao longo dos tempos, os autarcas murenses e trofenses não fizeram tudo que estava ao seu alcance, para a não demolição da ponte. Nenhum executivo camarário classificou, no PDM, a Ponte da Peça Má, como salvaguarda patrimonial classificada ou em vias de classificação. E tiveram mais que tempo para isso, pois a Trofa já é Concelho há quase 18 anos e já são cinco, de diferentes cores políticas (laranja e rosa) os executivos que passaram pela Câmara Municipal. Também há ano e meio que estava prevista a demolição da Ponte da Peça Má e pouco ou nada fizeram, a não ser declarações de intenção, a cheirar a propaganda política.

Este é o meu ponto de vista sobre a Ponte da Peça Má, mas também sobre os «carapaus de corrida» e as suas calinadas. Para não falar da falta de escrúpulos, de boçalidades, da baixa qualificação cívica e do oportunismo político que tem existido, e continua a existir, em relação à destruição da Ponte da Peça Má.

(originalmente publicada no jornal O Notícias da Trofa, a 9 de Setembro de 2016)

Foto: O Notícias da Trofa

José Maria Moreira da Silva

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