Sobre o desfecho das eleições autárquicas na Trofa

por João Mendes 0

O processo eleitoral autárquico chegou ao fim. Foram meses de combate político desequilibrado, onde o vencedor poderia ser qualquer um desde que fosse o PS ou a coligação PSD/CDS. Era sabido que nenhum outro partido teria hipótese sequer de entrar na vereação pois não só não tinham condições para correr em igualdade de circunstâncias, face a um “bloco central” endinheirado, como se tratavam de partidos sem um eleitorado fixo relevante no concelho. E, convenhamos, à excepção do BE, as dificuldades de comunicação falavam por si.

Não obstante, os partidos de menor dimensão na Trofa – PCP-PEV, BE e MIT – acabam por obter um resultado muito interessante na corrida para a CMT, principalmente quando analisado à luz das suas estruturas e recursos disponíveis. No caso do BE e do MIT, em disputa pela primeira vez, o resultado final situou-se nos 2,1% (470 votos) e 1,95% (437 votos) respectivamente, votos esses que foram subtraídos aos resultados de 2009 de PSD, CDS-PP e PS. Mas o PCP-PEV é a força politica que mais cresce na Trofa, com a sua votação a aumentar mais de 44% face aos resultados de 2009 com um percentual de 3,61%, representando 809 eleitores (em 2009 situou-se nos 2,35%, 560 votos). De resto este resultado vem em linha com a noite eleitoral muito positiva que os comunistas tiveram em todo o país, uma das melhores de que há história e que tem um significado muito claro na actual conjuntura. Em suma: os partidos pequenos roubaram votos aos restantes: respeitem-nos!

A coligação Unidos pela Trofa obtém uma vitória muito significativa, mais ainda se considerarmos a herança do “executivo Bernardino” e a conjuntura desfavorável que valeu uma das derrotas mais pesadas de sempre do PSD a nível nacional em eleições autárquicas. A campanha da coligação teve o mérito de conseguir disciplinar uma jota que tinha metido água demais num espaço muito curto de tempo, o que fragilizou a posição de Sérgio Humberto, principalmente na sequência do “evento” de 1 de Maio e da versão anedótica dos acontecimentos apresentada pela JSD, apostou numa comunicação muito organizada, saiu para o terreno mais cedo e soube capitalizar do descontentamento de uma parte significativa da população face ao executivo liderado por Joana Lima. O Correio da Trofa, enquanto “braço armado” da coligação na comunicação social tem também um trabalho de enorme relevo fundamentalmente no que toca a exploração exaustiva das fraquezas da equipa de Joana Lima.

O PS acabou por ser a grande surpresa da noite. Num contexto em que tudo estaria “alinhado” para uma vitória fácil, os socialistas trofenses acabam por se defrontar com um resultado muito pesado e uma derrota em toda a linha: 4,7% abaixo do resultado de 2009 para a CMT (menos 1699 votos), derrota em todas as freguesias para a coligação com a excepção da União das Freguesias do Coronado (e do Muro que, como era expectável, continua debaixo do domínio da equipa de Carlos Martins), perda da presidência da Assembleia Municipal para a coligação e perda de parte do seu eleitorado que transferiu votos para os partidos à esquerda. Apesar do excelente trabalho feito no campo das finanças públicas, com uma consolidação de contas até ao momento inquestionável, a equipa de Joana Lima foi altamente prejudicada por dois meses de inaugurações e obras que se atropelavam, num acto eleitoralista denunciado, que tem expressão máxima na inauguração da primeira fase do Parque das Azenhas, longe de estar completo. Para além desta situação que poderia ter facilmente sido evitada (e da qual o PS não precisava), as derrotas políticas do executivo cessante nos dossiers dos Paços do Concelho ou do Metro, bem como a obra dos parques envolta em polémica e situações mal explicadas, foram outros dos aspectos que contribuíram para a queda dos socialistas.

Finalmente aquele que é o aspecto mais negativo deste acto eleitoral: a abstenção, que se situou nos 27,20% em 2009, cresce de forma considerável para os 33,03%, ainda assim abaixo do resultado nacional. Apesar de estarem inscritos mais 759 eleitores do que em 2009, houve menos 1398 trofenses a votar. Se analisarmos este dado à luz de uma percentagem de votos em branco de 3,46% (775, mais 457 do que em 2009) e de votos nulos de 2,33% (522, mais 286 do que em 2009), que mais que duplicam, podemos chegar a uma conclusão simples: existem menos trofenses que se sentem representados pelos partidos políticos, o que, no caso dos partidos do chamado “arco da governação”, representa uma quebra de cerca de 10%(menos 3297 votos do que 2009). A própria coligação, apesar da vitória, não deve ignorar que o seu resultado tenha sido cerca de 14% abaixo do resultado de 2009 (quando comparado com a soma dos eleitorados de PSD e CDS das últimas autárquicas). Os partidos políticos, principalmente PS e PSD, devem reflectir atentamente sobre estes resultados e tirar as suas conclusões que em todo o caso são mais que óbvias.

Hoje começa um novo tempo no concelho da Trofa. Um tempo com novas caras que terão muito que trabalhar para afastar o espectro da dívida e dos jobs for the boys que marcaram de forma negativa o anterior executivo social-democrata. Sérgio Humberto está alertado para os erros que não pode cometer e terá com certeza tirado as suas elações dos erros cometidos pelo executivo cessante (e pelo anterior) e do preço que os mesmos representam. A menos que queiram que o seu projecto caia por terra dentro de 4 anos. É também fundamental que os responsáveis do PSD e do CDS-PP da Trofa percebam que existe um programa eleitoral que estará a partir de hoje sob escrutínio público e que, na era das redes sociais, será acompanhado com rigor. Qualquer tentativa de enganar o eleitor é hoje uma tarefa extremamente difícil e poderá trazer repercussões significativas. Em breve saberemos de que massa é feito este novo executivo. Que façam um bom trabalho.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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