Clube Desportivo Trofense: HELP ME…!

por João Pedro Costa 0

O problema atual do Clube Desportivo Trofense tem na sua essência um cariz financeiro a que se junta a falta de estratégia, muito marcado por uma permanência fugaz na 1ª divisão do futebol profissional, sem que tivessem sido pensadas fontes de financiamento alternativas, desde logo, em respeito por uma estratégia de continuidade e de autonomia financeira, que mantivesse a coletividade nas “mãos” dos seus verdadeiros donos – os associados.

Torna-se por isso necessário, para perceber o presente, mergulhar na história recente do Clube…

Recorde-se a época de 2005/06 (já lá vão 10 anos) em que a direção, liderada por José Leitão, viu-se forçada a tomar a decisão de, por falta de financiamento, tornar o Clube amador (só treinavam ao final do dia). Nesse ano, os resultados apareceram, graças a uma excelente época protagonizada pelo técnico Daniel Ramos e uma excelente equipa de “profissionais” que conduziram o CD Trofense, surpreendentemente, à Liga de Honra. Um sucesso, sem dúvida, mas que viria a marcar um rumo novo, abrindo mesmo uma perspetiva de grandeza que, até então, não estávamos habituados.

A realidade do C.D. Trofense já não era famosa, pois as suas atividades eram maioritariamente custeadas pela família “Silva” que, ano após ano, se mostrava benemérita publicitando as camisolas da equipa principal (RICON), contando-se que, para o que fizesse falta estavam sempre prontos a ajudar. A par, a Câmara Municipal da Trofa, sem “rei nem rock”, liderada por Bernardino Vasconcelos, tratava de injetar dinheiros públicos (factos que legaram na jovem CMT o estatuto das mais endividadas do país), colmatando necessidades e garantindo que o passivo da coletividade fosse sempre controlado. Estima-se que, por esta altura, o passivo se situasse perto dos 200 mil euros sendo, por isso, bem coberto pelos ativos – terreno e infraestruturas do seu estádio.

Muitas gerações tinham trabalhado para que o estádio fosse digno e até tivesse uma sede, que albergava serviços administrativos, um pequeno bar para ponto de encontro de associados e simpatizantes, sobrando ainda espaço para guardar troféus e possibilitar arrumos. Vivia o Clube uma vida humilde, é certo, mas honrosa: C.D. Trofense era mesmo sinonimo de “gente séria”.     

Rui Silva tomou o lugar de José Leitão, para jogar na “Liga Profissional”, e iniciou um processo de profissionalização de toda a estrutura, injetando milhões do seu bolso que permitiu a manutenção, na época de 2006/07, a que se seguiu a subida ao escalão máximo do futebol na época de 2007/08.

A ascensão meteórica impôs melhorias no seu estádio de futebol, concretizadas de forma rápida, e que visavam cumprir obrigações emergentes do novo estatuto “de equipa do futebol profissional”, um novo terreno de jogo, balneários e gabinetes, excelentes condições para a imprensa, a que se juntaram bancadas para cerca de 6.000 lugares sentados!

A aquisição dos terrenos Paradela (por usucapião) e a melhoria do complexo, foi mais um investimento e um esforço, que trouxeram expansão e melhores condições para a grande parte dos atletas, os da formação, mas que, no entanto, nunca beneficiaram de uma aposta clara no seu aproveitamento, contando-se pelos dedos os que serviram na equipa principal. Tal, marcaria um erro estratégico já que, com esse pretexto, o de aproveitamento de jovens talentos, ter-se-á desperdiçado uma hipótese bastante badalada, da coletividade passar a ser uma espécie de equipa satélite do F.C. Porto, numa altura em que ainda não existiam o projetos de Equipas “B” dos principais emblemas do futebol português. 

Muitas oscilações na participação na prova maior do futebol português, onde na época 2008/09 desceu “por um ponto”, a que se seguiu a época de 2009/10 onde não subiu, novamente “por um ponto” e que podia ter trazido um desfecho diferente a esta aventura, ditou a retirada de Rui Silva e a consolidação de um passivo superior a 6 milhões e 750 mil euros!

O regresso de José Leitão à liderança, numa altura em que o Clube em assembleia-geral se preparava para deliberar o “encerramento de portas”, por entre muita emoção de todos os presentes e coragem de um grupo de entusiastas que a ele se juntaram, evitou o desfecho! Ficou assim formada uma Comissão Administrativa, que garantiu a participação nos campeonatos profissionais da época de 2010/11, onde o clube conseguiu uma inesperada manutenção.

A endividada Câmara Municipal da Trofa, liderada por Joana Lima (entre 2009 e 2013), manteve-se afastada do Clube, como aliás da generalidade do movimento associativo, com o pretexto de desastre similar nas contas do município, não se conhecendo ação concreta de auxílio ou apoio.

Para o Clube, apareceu uma aparente “tábua de salvação”, a viabilização e restruturação pela via de apresentação de um PER (Plano Especial de Revitalização). A ideia iniciada pela equipa de José Leitão (e terminada por Paulo Melro), que conduziu os destinos da coletividade na época de 2011/12, sempre com Rui Silva por perto! O plano apresentado acabou por convencer os credores e foi mesmo aprovado, passando a dívida a cifrar-se nos 2 milhões e 700 mil euros (60% de perdão). E assim foi “jogada”, a agora denominada Segunda Liga, ainda profissional, sob a presidência de Paulo Melro, nas épocas desportivas 2012/13, 2013/14 e 2014/15, onde o infortúnio viria a atirar o Clube novamente para os campeonatos de futebol amador, reflexo da grande exposição financeira e, em consequência, má estratégia desportiva.

A criação de uma Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas (SDUQ), gerida por Nuno Lima, que praticamente se endividou desde a sua constituição, deu continuidade à sucessão de más opções e nunca reveladora de qualquer solução efetiva para a resolução dos problemas, passando mesmo a constituir mais um peso estrutural.

Manteve assim o Clube incumprimentos, dos pagamentos estipulados pela negociação “PER”, no acordado “pacto com credores” – de onde se sobressaíam Estado, Segurança Social e alguns jogadores que não viram os seus contratos cumpridos, entre múltiplos fornecedores de bens e serviços.

A Câmara Municipal da Trofa, através do recém-eleito Sérgio Humberto, não “percebendo” que o Clube tinha uma realidade única (departamento de formação e clube sénior), com apenas um número de contribuinte, o que os torna parte integrante da mesma realidade e, por isso, indissociáveis, decide apoiar as ações direcionadas para os mais jovens, planeadas por Manuel Wilson e Paulo Melro, injetando 135.000€, através de um Contrato Programa (Subsídio), sob o qual pesa grandes dúvidas do seu real fim, mas que de todo serviu de “balão de oxigénio” para manter viva uma ilusão de recuperação!

Seguiu-se a época de 2015/2016 onde, uma vez mais, os resultados foram medíocres e o êxodo de jovens jogadores das camadas jovens passou a ser a tónica dominante! Com o plantel principal sucederam-se os relatos de faltas de condições básicas e de dignidade humana, em condições de trabalho, com queixas de vencimentos em atraso, dificuldades de sobrevivência por parte de jogadores sem estruturas familiares por perto e onde até o básico do departamento médico faltou!

O bom nome do Clube e da Trofa, pelo sexto ano consecutivo (desde a época 2009/2010), estava a ser achincalhado e sem que uma medida de fundo tenha sido tomada!

Recentemente, e num contexto de preparação da época 2016/2017, rumores de que o modelo de direção estava para cair e, para o seu lugar nova tábua de salvação – Comissão Administrativa (cuja lei, lhe confere poderes limitados), que inicialmente era para ser liderada por Paulo Melro, mas que, para surpresa de todos, tomou posse liderada por Luís Lima. Este, com a sua equipa, procura novamente dar o seu melhor, como todos os que antecederam, mas com um peso histórico recente difícil, se não quase impossível, para a Trofa e os trofenses ajudarem num esforço que requer um orçamento superior a 150.000€ para pagar “más” decisões do passado e o estado de falta de dignidade a que a coletividade foi exposta, antes mesmo de se pensar num orçamento corrente para fazer face aos custo de uma época desportiva.   

Enfrentarão estes novos elementos o problema pela raiz, como a atual situação a isso obriga, chamando credores e “pagando a quem se deve”? Conseguirão eles a verba necessária “de entrada” que permita um fundo de maneio que devolva poder negocial a um órgão de gestão? Terão visão diferente dos antecessores, com ações concretas, que marquem um caminho claro de recuperação do bom nome da coletividade e lhe dê garantias de continuidade?

Acredito que a gente da Trofa não será insensível a esta realidade – desde que lhes falem verdade e lhes apontem caminhos claros – e que, apesar do afastamento, acabaram por sentir novamente o Clube como seu, afinal 86 anos de história não podem acabar assim!

Outros conseguiram inverter as dificuldades mantendo uma linha única e estratégica!

Refiro-me ao histórico “Salgueiros” (fundado em 1911), que recuperou o seu nome - SPORT COMÉRCIO E SALGUEIROS, assim como o seu emblema original.

O acordo feito entre a direção do “Salgueiros 08”, clube criado em 2008, para que as atividades associativas prosseguissem naquela freguesia de Paranhos, e a administração de insolvência do antigo clube, igualmente denominado de Sport Comercio e Salgueiros, que será válido a partir desta época desportiva que agora se inicia – a 2016/2017.

Oito anos (2008-2016) foi o tempo que demorou a corrigir erros de má gestão passada, concretizando-se assim os interesses (possíveis) dos credores, cidade e “família” salgueirista que recuperaram igualmente a sua “ALMA” e o bom nome do Clube.

O exemplo, fez seguir as pisadas, em Ribeirão com o “Ribeirão 1968”, em Felgueiras com o “Felgueiras 1932”, no Marco de Canaveses com o “Marco de Canaveses 09” e na Maia com o “Maia Lidador” a nascer com um projeto de formação.

A esperança será sempre a última a morrer, que o diga as gentes de Ermesinde que também com uma nova entidade tentam a todo o custo recuperar o seu velhinho estádio – o Estádio dos Sonhos – estando a Câmara Municipal de Valongo a ponderar o exercício do direito de revindicar “Interesse Público".

"Interesse Público" deve por isso ser a tónica dominante de todas as ações, individuais e coletivas, para que não se perca mais tempo e o Clube Desportivo Trofense retome a posição, que nunca devia ter abandonado, de ser efetivamente a maior associação do concelho e um porta-estandarte da nossa terra.

Comentários

Deixar um comentário

Faça Login para comentar.