24º - O dia da “Ida a Lisboa buscar o Concelho”. Faz hoje 18 anos!

por José Maria Moreira da Silva 0

Finalmente chegou o tão esperado e desejado dia da “Ida a Lisboa buscar o Concelho”. Tudo estava preparado para ser uma grandiosa festa em Lisboa, em frente à Assembleia da República. Está bem gravado na memória dos milhares de trofenses que puderam, e quiseram participar, de modo exemplar e ordeiro, na exigência legítima da «carta de alforria», o que aconteceu no dia 19 de novembro de 1998. Faz hoje 18 anos!

Ainda antes das 7 horas da manhã começaram a partir os 123 autocarros rumo a Lisboa, assim como as muitas viaturas particulares, inclusive várias motos.

O coordenador ainda se encontrava na Trofa, quando recebeu a primeira chamada de urgência, pois estava na Mealhada uma covelense a sentir-se mal. As comunicações começaram bem cedo a funcionar e uma ambulância dos Bombeiros da Trofa, que acompanhava a comitiva, deslocou-se ao local e levou-a para o Hospital de Coimbra. Depois soube-se que à hora do almoço, esta covelense, já estava em casa, a ver e ouvir o desenrolar dos acontecimentos, através da televisão.

A concentração deu-se no Marquês/Parque Eduardo VII, para se comer o «farnel», que cada um levou e daí se partiu em cortejo até à Assembleia da República. A quantidade de pessoas no cortejo era tanta, que «entupiu» o trânsito lisboeta. Ainda se estava no Parque Eduardo VII e já havia necessidade de levar mais um trofense ao hospital, mas a ambulância não sabia o percurso. Estava tudo coordenado: uma brigada de trânsito da PSP de Lisboa foi acompanhar a ambulância ao hospital, assim como durante a tarde, mais alguns trofenses, que se sentiram indispostos tiveram de receber tratamento hospitalar. Esta situação repetiu-se, ao longo da tarde, por meia dúzia de vezes. Sem qualquer incidente, a manifestação chegou à Assembleia da República.

Contrariando o que estava combinado, quase todos os membros da Comissão Promotora entraram no Parlamento, para assistir á discussão e votação, ficando apenas o coordenador, José Maria Moreira da Silva e Armando Martins, uma tarde inteira em frente ao Parlamento, no apoio aos milhares de trofenses que não arredaram pé. Estes dois membros da Comissão Promotora ficaram sozinhos, na escadaria do Parlamento, a controlarem e a organizarem tudo, inclusive a prestar informações à Comunicação Social. E o coordenador, ora mandava atuar um Rancho Folclórico, ora mandava desfilar uma Fanfarra, ora mandava tocar a Banda de Música da Trofa.

Foi uma animação toda a tarde, para fazer baixar os níveis de ansiedade, até que às 17h 57m deu-se «o grito do Ipiranga», quando os deputados aprovaram por maioria, os Projetos de Lei da criação do Concelho da Trofa, culminando século e meio de “gestação” e muita “luta”, com os votos favoráveis do PCP, PEV, CDS-PP, PSD e de dois deputados independentes do PS. Alguns deputados socialistas ausentaram-se e não votaram.

Viva a Trofa! Gritaram em uníssono, os mais de dez mil trofenses, no meio de lágrimas, abraços e muita alegria. Foi para isso que os trofenses se engalanaram todos, com t’shirts, bandeiras, chapéus em forma de barco (ideia do Pedro Alves da Costa, pois ainda se vivia o ambiente da Expo98, cujo tema foi "Os oceanos: um património para o futuro"), que pelo simbolismo fazia lembrar as «caravelas quinhentistas», que dobraram o Cabo das Tormentas e, numa metáfora suprema foi transformado no Cabo da Boa Esperança. Era a esperança na construção de um Concelho bonito, harmonioso, com qualidade de vida e solidário, com as infraestruturas necessárias em todo o Concelho, equipamentos culturais e desportivos distribuídos por todas as freguesias, um parque escolar com qualidade, novas redes viárias (variantes à EN14 e EN104, mas também a circular à Trofa), a realização de eventos de nível superior, a construção do edifício sede dos Paços do Concelho. Enfim, a construção de um Concelho modelo, um Concelho exemplar. Trofa tinha todas as condições para isso! Era isso que se desejava; foi por isso que se lutou, mas não foi isso que aconteceu. Infelizmente!

Mas o que se passa 18 anos depois e mais de 500 milhões de euros (mais de 100 milhões de contos) desbaratados? Muito marasmo, muita tristeza e uma dívida colossal. É um passado para esquecer, um passado sem chama, sem ideias inovadoras e um futuro hipotecado. Foram 18 anos a defraudar expectativas e a desbaratar muito dinheiro.

Infelizmente o Concelho da Trofa, em apenas 18 anos chegou a um estado de decadência e laxismo tal, que perdeu o «trofismo», a massa critica, a força anímica. A desilusão tem sido a companhia indesejável e diária dos trofenses, ao longo destes 18 anos de Concelho. Não foi para isto que se lutou tantos anos. Não parece, nem é, a Trofa de há 18 anos atrás! Abro aqui um parêntesis, para informar que o autor da fotografia, que se tornou a fotografia oficial, que se vê por todo o lado, principalmente quando se quer mostrar a grandiosidade da manifestação/concentração dos trofenses, em frente à Assembleia da República é de autoria do saudoso fotógrafo Guimarães, que era mais conhecido por “Kiki”, uma antiga glória e antigo guarda-redes do Club Desportivo Trofense. Também deve ser referido o facto de, até hoje, a Trofa não ter feito qualquer agradecimento às entidades que se colocaram à disposição e acompanharam os milhares de trofenses, a  começar pela equipa médica e de enfermagem, chefiada pelo Dr. Paulo Marques e pela Dra. Isabel Varino, os Bombeiros Voluntários da Trofa, os Ranchos Folclóricos, a Banda da Trofa e as Fanfarras. É um agradecimento mais que justo, mas que está em falta. É bom citarmos estas informações, para ficarem na história da criação do Concelho da Trofa. É merecido! Fecho o parêntesis.

Os trofenses acreditavam num projeto novo que os levasse a um futuro diferente, para melhor, mas estes anos serviram apenas para colocar em prática um “crime social e político” hediondo, que foi o propósito de conduzir um povo para a letargia e para o tédio, eliminando o saudável “trofismo”, que levou milhares e milhares de pessoas ir a Lisboa buscar o Concelho.

Os trofenses mereciam muito mais e melhor! O dinheiro desperdiçado, as desilusões, as dívidas, o atoleiro em que a Trofa se encontra e a falta de rumo não eliminou, nos trofenses, a capacidade de sonhar e continuar a ter esperança em dias melhores. Pode viver-se sem obra e sem dinheiro, mas é impossível viver-se sem sonhos nem esperança. Os trofenses são assim. O futuro vai ser melhor. O futuro tem de ser melhor! A Trofa merece. O sonho não acabou!

Na próxima Crónica narrarei o «day after» da criação do Concelho da Trofa. 

José Maria Moreira da Silva

A liberdade é muito mais que uma simples escolha; ela alimenta os sonhos dos que não têm medo ou preguiça de sonhar. É a possibilidade de usar a razão, em concordância com o nosso pensamento.

Quero aproveitar este espaço de liberdade, para ser livremente livre naquilo que penso e escrevo, sem qualquer tipo de medos ou amarras.

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