Diz que é uma espécie de mito

por João Mendes 0

Existe um mito no nosso concelho, um mito que alguns acreditam coincidir com a realidade mas no qual eu prefiro não acreditar. Seria descer baixo demais. Diz o mito que, durante uma certa campanha eleitoral, os estrategas da campanha de uma das partes envolvidas precisavam de um meio de comunicação que lhes permitisse, em simultâneo, disseminar a sua propaganda de forma indirecta, levando o eleitor trofense a acreditar tratar-se de um meio independente, e atacar violentamente a oposição, não só através de conteúdos "jornalisticos" mas também através de editorias anónimos para que cobarde algum tivesse que sujar o seu bom nome, que na verdade era já mais sujo e nojento que um esgoto. 

Esse meio, transformado em jornal, absolutamente faccioso, teria, hipoteticamente, o propósito de explorar praticamente todos os argumentos usados em campanha pela candidatura que o financiava. Nunca, em momento algum, haveria espaço para qualquer polémica envolvendo a estrutura ou qualquer dos mais destacados dignatários que pagavam por esta manobra. Mesmo perante factos irrefutáveis, abusos gritantes de poder, tráfico de influências ou atropelos democráticos, este autêntico folhetim partidário mantinha um silêncio cúmplice, cobarde e obediente.

Tratava-se de um jornal composto por dirigentes, militantes e simpatizantes da candidatura em questão, alguns até envolvidos em disputas legais entre o nosso concelho e outras autarquias. Os cronistas, tal como a restante equipa, eram exclusivamente da cor da campanha financiadora, na sua esmagadora maioria militantes ou com ligações estreitas à campanha. Vencidas as eleições e chegados os seus proprietários ao poder, o folhetim perdia músculo e capacidade de indignação e passava a ser mole como uma revista cor-de-rosa. Todo e qualquer detalhe mais opaco era ignorado, tudo era belo e perfeito. Excepto quando era necessário insultar quem incomodava o patrão.

Posto isto, e aludindo novamente à génese do mito, convido o caro leitor para o seguinte exercício de reflexão. Imagine a hipótese, altamente improvável, de que esse jornal tinha sido criado precisamente como instrumento de propaganda política, financiado por uma poderosa e endinheirada máquina eleitoral, resultante dos casamentos de conveniência de instituições poderosíssimas, com o intuito de atacar a oposição, sob uma capa de independência e imparcialidade que pura e simplesmente não existia, e que depois, fechada a torneira eleitoral, o dinheiro começava a faltar. Perante a falta de dinheiro, imagine que a solução encontrada pelos seus verdadeiros donos para manter o jornal a funcionar passava por uma injecção de capitais públicos sob a forma de um ajuste directo de, digamos, 24 mil euros. Seria esta opção legal ou estaríamos perante a prática dos crimes de peculato, prevaricação e abuso de poder?

Mas não façam caso. Afinal de contas, tudo isto não passa de um mito. Mas imaginem a tempestade que seria se, de um momento para o outro, surgisse alguém com provas concretas e transformasse o mito em algo factual. Que provasse, por A mais B, que o dito jornal mais não é que uma manobra eleitoral financiada com dinheiro dos nossos impostos e dos barões que comandam os hipotéticos traficantes de influências. Para a tropa de choque, sempre pronta a dar o peito a qualquer bala pelos caciques, não haveria grande problema. Para eles, tudo o que sirva a sua facção e os seus chefes, ainda que criminoso, é justificável. Felizmente, estas pessoas não passam de uma minoria. Já os eleitores racionais que votaram na dita candidatura poderiam levantar dúvidas e colocar em causa a credibilidade, a dedicação à causa pública, a integridade e a honestidade dos dirigentes locais. Seria uma tempestade interessante de se ver.  

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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