Os panfletistas anónimos

por João Mendes 0

É um clássico no jovem concelho da Trofa. De tempos a tempos, sempre que a estratégia de poder o exige, surge nas nossas caixas de correio um panfleto anónimo, tendência particularmente reinante em períodos pré-eleitorais. A origem destes panfletos, como é óbvio, é conhecida do grande público. É certo que alguns, porventura mais distraídos, poderão achar-se perante um movimento espontâneo, mas a verdade é que uma pessoa normal não tem necessidade de recorrer a este tipo de manobra. Para além de que dá trabalho, custa dinheiro e ainda existe o risco de se ser apanhado com o panfleto na mão. É preciso estômago, falta de vergonha na cara e uma ambição desmedida. E, claro, uma equipa disposta a fazer a distribuição da cobardia de quem lhes paga para o efeito.

O que me intriga, principalmente nestes tempos em que as redes sociais se vão tornando cada vez mais implacáveis, é ver indivíduos feitos de vidro a atirar pedras para o telhado do vizinho, sabendo que a consequência poderá muito bem ser um estrondoso ricochete. Afinal de contas, da mesma forma que todos sabem quem está por trás dos diferentes panfletos sem cara, qualquer um pode fazer o seu próprio panfleto ou criar a sua própria página anónima de Facebook e literalmente derreter todo um partido político através do boato ou da revelação polémica daqueles podres que todos conhecemos mas sobre os quais a maioria não fala com medo de represálias. Tachos, tráfico de influências, avenças chorudas de longa duração, negócios obscuros com dinheiros públicos, favorecimentos, corrupção ou chantagem são alguns exemplos de práticas que podem ser desenterradas nestas guerras políticas e que, no caso dos panfletistas anónimos, lhes podem sair muito caras.

Posto isto, questiono-me se um cobarde que se mascara de panfleto terá noção que o panfleto lhe poderá rebentar nas mãos. Para dar um exemplo prático, ainda que hipotético, será que um grupo de militantes do partido A, que decide pôr em prática este tipo de canalhice, não prevê que o próprio ou os seus possam vir a ser alvo do mesmo tipo de canalhice no futuro? Na minha humilde opinião, que não percebo nada destas maroscas e que prefiro dizer abertamente o que penso sobre a minha terra e sobre os responsáveis políticos eleitos que trabalham para mim e para os meus conterrâneos, como é meu/nosso direito, é que estas pessoas, por muito inteligentes que se achem, estão paradas no tempo. Parados no tempo numa época em que a informação era um exclusivo de uma pequena elite, em que a criminalidade de colarinho branco nas autarquias passava despercebida e morria no fundo de uma gaveta, em que o espaço de debate político era um exclusivo dos partidos políticos e em que o medo disfarçado de respeito silenciava a maioria receosa das represálias do poder dos grandes partidos e dos barões que os financiavam. Felizmente, muito disto é hoje apenas história antiga. Problema o deles se ficaram parados lá atrás.

Hoje, apesar dos problemas acima estarem longe de extintos, a nossa sociedade é diferente. A informação flui, a criminalidade de colarinho branco ainda existe mas pode ser em parte monitorizada, o debate político democratizou-se e é hoje património de todos e o medo vai desaparecendo. Ainda há muito caminho a percorrer mas já estivemos muito pior. Abrir concursos públicos para obras concluídas, por exemplo, não será hoje tão fácil como foi para alguns num tempo não tão distante quanto isso. No entanto, os suspeitos do costume insistem nas fórmulas do passado, sem perceber que a reacção poderá ser de dimensões “bíblicas”. Sem perceber que, de hoje para amanhã, as caixas de correio e as redes sociais se podem encher de casos que podem destruir a imagem sacrossanta de uns quantos lobos com pele de cordeiro, que ainda enganam alguns mas que há muito que não enganam a maioria. Quanto mais todos.

Em jeito de conclusão, o meu humilde e possivelmente inútil conselho, gratuito para quem o quiser levar, é este: senhoras e senhores panfleteiros, desde o "sôtor" que instrumentaliza e elabora a estratégia aos soldados rasos que executam sem questionar, talvez na perspectiva futura de uma bela panela pública, tenham em mente que aquilo que hoje fazem se pode virar contra vocês no futuro. E poderá não ser sequer proporcional. Aos "sôtores", relembrar-vos que os trofenses sabem quem vocês são, sabem o que vocês fizeram e, mesmo quando acham que a conversa é blindada, o risco de fuga de informação é hoje elevadíssimo, acontece mais vezes do que imaginam e pode arruinar a mais brilhante carreira política num abrir e fechar de olhos. Aos soldados rasos, dizer-vos apenas que não precisam disto para nada, que se arriscam a pagar uma factura que não é vossa e que os "sôtores" vos deixarão cair à primeira oportunidade. Para eles, vocês não são mais do que um meio para atingir um fim. Um meio descartável. Agora imaginem-se a ser apanhados com a boca no panfleto e a serem encaminhados para a esquadra da GNR. Conseguem visualizar? Depois não digam que não foram avisados.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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