Ter Tempo

por José Calheiros 0

Lembro-me perfeitamente de em criança, de entre várias coisas, ouvir o meu pai dizer, “Aquele rapaz meu amigo...”, geralmente “rapazes “ da idade dele ou, “No meu tempo...”.

Sempre que ele nos falava (a mim e ao meu irmão) e aplicava estas frases, as mesmas eram acompanhadas de uma expressão de estranheza nas nossas caras por não compreendermos que na idade dele se referisse aos da mesma geração como “rapazes”! Em contraponto, e desta vez de forma correcta, com a expressão “No meu tempo...”, colocava-se no devido lugar como “gente velha”.

Na adolescência a expressão de estranheza começou a ser acompanhada por outra, a de incompreensão. Se em crianças os nossos pais são super-heróis, na adolescência passam a incompreendidos e nós, adolescentes, tomamos o lugar de “Maiores”. Como qualquer adolescente normal, eu era (achava-me) o “Maior”. E tenho quase a ceteza  que o Quim (nome fictício do tótó da minha turma), no seu intímo, também se achava o “Maior”, sonhando à noite, enrolado à almofada, com a Jenifer Lopez e que levava os seus colegas de turma ao “poste”).

Os píncaros da “velhice” e “antiquação” eram as demonstrações de afecto. Se em privado eram toleradas, já em público os beijos e abraços da minha mãe superavam em humilhação a dos funcionários de um banco chinês açoitados em público por não terem atingido os objectivos. Eu passei sempre de ano...porquê tanto afecto humilhante em público?!

Neste tempo, o tempo não passa ou passa devagar, e, nos momento de angústia (os “Maiores” também os têm), chegava a andar para trás, por isso o vislumbre de chegar a “velhos” e dizer, “Aquele rapaz meu amigo...” ou, “No meu tempo...”, era algo muito distante e arrastado como a evolução do Ser Humano... ou seja, algo que nunca iria acontecer.

O Ser Humano não evoluiu, mas o tempo passou e tenho a sensação que o tempo em que pensava que ele não passava foi ontem!

Eu e os outros que ontem tinham 16, 17,18, hoje passaram os 40 e dou por mim a ser o meu pai de há 30 anos atrás, dizendo, “Hoje encontrei aquele rapaz da minha idade...” e na discussão de muito temas, argumento, “No meu tempo...”.

Velho? Talvez…mas não! Apenas tenho Tempo.

Tenho Tempo pela frente e Tempo suficiente vivido, que me faz sorrir com as demonstrações públicas de afecto da minha mãe e me faz olhar, outra vez, para o meu pai com a capa do Super-Homem.

Quanto a mim, de “Maior” de ontem, passei a “Realista” de hoje, com noção das minhas limitações e das coisas que não sei, incomodando-me unicamente no passar do Tempo o crescimento desordenado de alguns pelos das sobrancelhas, que me obrigam a arrancá-los.

 

E tenho quase a certeza que o Quim, quando as luzes do seu quarto se apagam, agarra-se às almofadas, imaginando-as como sendo a Jenifer Lopez e a Irina, nunca dizendo, “No meu tempo...” mas, “Sempre fui o Maior!”.

 

Capa: A Persistência da Memória, Salvador Dalí

Comentários

  1. Amadeu Jose Bento Machado

    Adorei o texto "Calheirinhos" e imagino-me a falar com o teu pai, meu VELHO AMIGO, observando-lhe: - o rapazinho tem jeito!!! Aquele abraço.

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