Sobre a queda do PS no concelho da Trofa

por João Mendes 0

Se há 4 meses atrás alguém me dissesse que o PS Trofa poderia cair nestas eleições eu simplesmente não acreditaria. A conjuntura estava toda do seu lado: o governo nacional constituído pela coligação PSD/CDS-PP é um dos piores, mais impopulares e mais patéticos de que há memória na nossa democracia e a saúde financeira da CMT melhorava substancialmente e de forma inquestionável num tempo em que a saúde financeira do país definhava. Para além destes dois factores determinantes, o espírito do executivo passado ainda pairava sobre o PSD. A herança era ainda muito pesada e condicionava (e continuará a condicionar por muitos anos) a sua governação de forma catastrófica. Depois havia uns miúdos na JSD que a cada vez que abriam a boca roubavam votos ao seu próprio partido…

Mas afinal o que é que se passou? O que levou a esta queda em contraciclo?

Claro que as linhas que se seguem não passam de uma opinião que vale o que vale. Mas ao longo da campanha eleitoral, várias pessoas ligadas ao Partido Socialista da Trofa, e especificamente à candidatura do PS, foram questionadas sobre as ideias que se seguem e raramente se conseguiram respostas satisfatórias. Arrisco, portanto, a tentar fazer o diagnóstico parcial daquilo que abateu o executivo que agora cessa funções. E digo (escrevo) “parcial” porque outros factores existirão. Mas entendo que estes factores foram preponderantes. Não foram só os 800 votos que separaram a coligação do PS no balanço final: foram principalmente os 1699 votos que o PS perdeu face à vitória histórica de 2009.

1.Problemas de comunicação

Joana Lima tinha um trunfo que apenas meia dúzia de políticos neste país se podem orgulhar de ter: equilibrou as contas da autarquia. Mas será que soube passar bem essa mensagem? Será que os trofenses se sentiam devidamente elucidados sobre esta questão? Será que a informação que chegou “cá fora” era suficiente para que a maioria da população ficasse esclarecida? A ideia que fica é que não. Arrisco dizer que muita gente não faz uma pequena ideia de que esta realidade é efectivamente uma realidade. Acrescento ainda que, na minha opinião, a campanha do PS deu mais projecção a aspectos menos relevantes, como o Em Forma com Determinação ou a inauguração do Parque das Azenhas, do que à questão das contas. Aquilo que poderia ter sido um trunfo determinante, talvez o mais determinante de todos, foi negligenciado. Na recta final ainda ouvimos um discurso de Joana Lima a incidir fundamentalmente neste tema, mas foi tarde de mais…

2. Prometer o que não se pode cumprir

Lembram-se das flores que iam ser plantadas no jardim? E do metro que este executivo tinha garantido, com a ajuda do governo PS que em 2009 ainda mandava neste país? Estas foram apenas duas das promessas que o executivo cessante foi incapaz de cumprir. O problema foram as finanças do concelho? Se calhar até foram. Mas tal não é desculpa para que um político prometa algo que não tem a certeza que pode cumprir.Principalmente quando nos traz um governante em funções com “voto na matéria”. Sim, nós sabemos, dá muito jeito para reforçar os “argumentos” eleitorais. Mas também se paga muito caro a médio prazo: as promessas transformaram-se em miragens, os adversários políticos exploram-nas e o povo, galvanizado por aquilo que considerou uma “traição”, castiga o “infractor” nas urnas.

3. O erro clássico dos políticos

Sabemos bem qual é: as eleições estão a chegar, o presidente quer recandidatar-se e, magicamente, começam a aparecer obras e inaugurações em todo o lado nos dois ou três meses que antecedem as eleições. Na Trofa épico! De um momento para o outro desapareceram os buracos em quase toda a N14, situação que já se arrastava há anos, a Semana da Juventude ressuscitou após 4 anos (ainda que em cima do joelho e marcada por uma série de erros básicos que obviamente condicionaram o sucesso da mesma), os elevadores da urbanização da Barca foram finalmente activados, 18 anos depois, e o Parque das Azenhas foi inaugurado duas semanas antes da eleição, incompleto e com lacunas estruturais graves como as primeiras chuvas do Outono vieram demonstrar.

Alguns poderão dizer que tais situações se verificaram todas nesta altura por condicionalismos derivados de fundos estruturais ou de outra natureza que ainda ninguém se dignou a explicar de forma objectiva. A realidade é que a imagem que passa para muitos eleitores é a de uma autarca, empenhada em manter-se no lugar, que guarda estes trunfos para a recta final, usando-os para obter votos junto dos menos atentos ou daqueles que, legitimamente, querem ver obra na Trofa. De facto, tais obras são todas extremamente relevantes. Mas será que a Semana da Juventude não poderia ter acontecido nos 3 anos anteriores? E os elevadores da Barca, não poderiam estar operacionais há mais tempo? Os buracos na N14 não poderiam estar arranjados antes da “campanha política disfarçada de preocupação social” da JSD? E o Parque das Azenhas, obra intimamente ligada ao executivo cessante, haveria mesmo necessidade de a inaugurar sem um banco, sem um balde do lixo e com as graves deficiências que agora constatamos na construção?

E, para complicar ainda mais a situação, em vez de perceberem que as críticas feitas eram não só coerentes mas sobretudo legítimas, alguns candidatos aos órgãos autárquicos receberam as críticas com agressividade, com insultos e infantilidade. Tudo junto, como sabemos, raramente dá bom resultado.

4. A obra dos parques

A questão da obra dos parques é central. O quinto melhor orçamento? Se calhar era o melhor “pacote” oferecido. Mas e explicar isso aos trofenses enquanto a oposição explora exaustivamente a situação? Às vezes o problema que se explora não é o verdadeiro problema mas antes aquele que se consegue criar se se juntarem as variáveis correctas. A oposição, em bloco, depois de instrumentalizar a questão do abate de árvores, agravado pela construção de um parque de estacionamento subterrâneo de necessidade duvidosa, foi mais longe e ressuscitou a narrativa das “ligações perigosas” entre o executivo camarário que agora cessa funções e o empresário bracarense António Salvador.

A obra passa assim para segundo plano. Não interessa se o parque semi-abandonado e de condições muito questionáveis será transformado num espaço dinâmico e enriquecedor para o centro do concelho. A escolha da empresa bracarense, em suposto processo de insolvência, com o quinto melhor orçamento e com um parque subterrâneo que ainda ninguém conseguiu provar ser necessário à mistura, foram argumentos suficientes para ferir de forma decisiva a credibilidade do executivo PS.

*

Ao mesmo tempo que as contas da CMT iam equilibrando, a imagem do executivo ia sendo destruída por erros de cálculo, alguns deles perfeitamente previsíveis e desnecessários, que foram, de uma forma geral, muito mal geridos. Perder 1699 votos deve querer dizer alguma coisa.  Terá o PS Trofa sido vítima de si próprio?

De uma coisa estou certo: o que se passou no passado dia 29 deve ser encarado como um alerta para o futuro, onde a informação circulará cada vez mais rápido. Erros semelhantes terão tratamento semelhante. As regras do jogo já não são o que eram…

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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