Os Espantalhos

por Alexandra Santos 0

       O Manuel era um homem simples, com parcos estudos, que tinha vivido toda a sua vida numa aldeia, trabalhando no campo. Com 60 anos de idade ainda possuía a particularidade que adquirira em criança, a gaguez, e todos os dias da sua vida era ridicularizado pelos vizinhos que o viam como alguém com menos capacidade intelectual que eles, como se de facto a falta de fluência na fala isso representasse.

       Com apenas quatro anos, o rapaz, que facilmente se exprimia através da linguagem, começou a repetir e a prolongar, de forma involuntária, sons e sílabas. Disseram-lhe que foi devido a um susto que apanhou de um primo muito mais velho, mas ele não se lembrava. Para Manuel, o passado era passado e o culpado era o destino.

       Habituou-se a uma vida de trabalho árduo, a amigos que se riam dele e a uma casa vazia. A sua timidez que agravava a gaguez ou vice-versa, não o deixou conquistar ninguém e ele sozinho ficou depois da morte dos seus pais. Para preencher o tempo que queria sempre ocupado, dedicava-se, para além da agricultura, à criação de espantalhos construídos com todo o tipo de material, frequentemente denominado lixo para as pessoas comuns. Mas Manuel não era uma pessoa comum, tinha a capacidade de olhar para um objeto usado e, em vez de pensar em que contentor o colocar, imaginava as mil e uma utilizações que lhe poderia dar e os efeitos de luz e forma que poderia obter através dele. Assim, foram criados cerca de vinte espantalhos que Manuel dispunha no seu terreno com o maior orgulho. Garrafas, embalagens, sacos de plástico, jornais… nada era desperdiçado e tudo era transformado nas suas mãos. Todos tinham mais ou menos o seu tamanho e vistos de longe poderiam ser confundidos com verdadeiros seres humanos. No entanto, também por isso era ridicularizado. «Coisas monstruosas» era a expressão mais ouvida. Mas Manuel não se importava, essas criações eram a sua maior alegria, com elas conversava, pois eram as únicas que tinham a paciência suficiente para o ouvir e as únicas que não o julgavam.

          Numa noite de verão, Manuel teve um aperto no coração em sua casa e acabou por falecer. Quando o encontraram, dois dias depois, estava na cama, rodeado por nove dos seus espantalhos, três do lado direito, três do lado esquerdo e três aos pés da cama, todos voltados para o seu criador, um pouco inclinados em sua direção como que a demonstrar veneração. Esta situação suscitou estranheza e espanto àqueles que o encontraram e a todos os que depois ouviram a história. Vizinhas juram que no dia anterior tinham visto todos os espantalhos no terreno do homem e que não poderia ter sido ele a colocá-los no quarto. Surgiram então lendas acerca do que tinha verdadeiramente acontecido. Uns diziam que os espantalhos ganharam vida, movidos por forças ocultas, e que Manuel morreu de susto. Outros diziam que depois de morrer, os espantalhos, movidos por Deus ou pelo Diabo, decidiram prestar-lhe homenagem e proteger o seu corpo.

        Estas histórias correram mundo e, num espaço de um mês, os espantalhos, que a pequena povoação chamava de monstros, tornaram-se alvo de curiosidade por parte de todos e foram considerados grandiosas obras de arte cujo autor só poderia ser um génio.

       As pessoas da pequena aldeia, que sempre o ridicularizaram, enchiam-se agora de orgulho para falar dele e até uma estátua lhe fizeram.

       Quanto aos espantalhos, os onze que se encontravam no seu terreno foram leiloados por uma quantia avultada de dinheiro e os nove que rodearam o seu corpo foram parar a um museu do concelho. O mistério acerca destas figuras nunca foi desvendado, mas há quem diga que, quando o museu está quase vazio, perto delas se consegue ouvir sons e sílabas repetidas de palavras difíceis de entender, como que em forma de sussurro.

Alexandra Santos

Alexandra Santos nasceu em 1980, em S.Romão do Coronado, concelho da Trofa, onde ainda reside. Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade do Minho em 2003, tendo trabalhado sempre, a partir daí, na área da educação. Devido ao gosto pela escrita, tornou-se igualmente escritora, sendo a autora do livro de poesia Palavras Sussurradas.

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