Originais & Covers - João Santos em entrevista

por Francisco Sousa Barros 0

João Santos, 35 anos, natural do Porto, 23 anos de Trofa, actualmente vive em Vila do Conde. Chega para apresentação, a entrevista tem o sumo todo.



- O que representa para ti a Trofa?
- Antes de mais deixa-me colocar música, são 2h48 da madrugada e é obrigatório, pode ser o Lanegan com "Riding The Nightingale"? A Trofa é a cidade que me viu crescer, que me alimentou os sonhos. Nasci no Porto em 1980 e logo de seguida, em pleno verão, assinei pela Trofa onde comecei uma vida junto de uma família apaixonada por mim e eu por eles. Ensinaram-me a ser apaixonado por tudo em que acreditava, inclusive pela forma desorganizada com que geria o planeta da arte e fantasia que desde muito novo construí dentro de mim, e sempre com a cidade a pintar-me os cenários. Um dia disse que ia conhecer todos os meus sonhos e a Trofa deu-me o principal empurrão, cedeu-me o paralelo para eu andar, o asfalto para eu correr, a relva para eu escorregar, ofereceu-me a dureza subtil de um tempo que nunca me apresentou facilitismos, mas onde realmente aprendi, cresci e conheci. Hoje, com trabalho e paixão estou a cumprir os meus sonhos, e a Trofa foi grande parte da responsável. Já agora, a propósito das 2h48, nunca me consigo deitar cedo, e quando deito, já é tarde! 

- Vivendo actualmente fora da Trofa, como olhas para ela?
- Passei a minha infância a brincar nas margens do rio ave, onde gradualmente me deixei "levar na corrente" até ser apresentado ao mar que abraça Vila do Conde, cidade onde actualmente vivo. Mas foi em Lousado onde em miúdo tive um constante e forte contacto com a natureza, foi lá que encontrei a paz que a Trofa não me conseguia dar, e isso contribuiu de forma positiva para o equilibrar ambas as ligações, guardo recordações mágicas, principalmente da minha BMX preta e vermelha que ajudou a acrescentar velocidade à minha vida, às minhas ideias. E foi precisamente numa Trofa agitada onde comecei a colocá-las em prática até ter uma noção do que queria para o meu futuro, que cima de tudo contribuíssem para o principal objectivo da minha vida, o de dar vida às minhas ideias, fazer o que gosto e ser feliz. Estou a conseguir. Olho a Trofa com gratidão, respeito e uma nostalgia, que ganhou outra dimensão com a prematura morte do meu pai, essa violenta viragem na minha vida marcaram definitivamente a vivência do passado, deram-lhe um outro significado que nem sempre é fácil explicar mas que o sentimento me assegura ser positivo.

- Sentes-te Trofense?
- Sim, claro que sim, mas também me sinto Vilacondense. Estou cá praticamente à 13 anos, vivi 23 na Trofa. Vila do Conde é uma cidade para onde já venho desde muito novo, onde tive uma casa de férias durante vários anos, estas praias dizem-me muito. A Trofa era o meu refúgio, o meu local de ensaio, a minha escola, terra onde construí imensas amizades, cidade que me obrigou a acordar cedo e ensinou a deitar tarde! Sempre que falo da minha vida a alguém dou pistas do meu sentimento Trofense, que está bem presente. 

- Começaste o teu percurso na música quando ainda eras adolescente, no entanto foste cumprindo as etapas na tua vida académica. Qual é o rumo que estás a seguir hoje em dia?
- Aos 12 anos já queria ser professor de educação física mas também sonhava ter uma banda! Os Nirvana eram os culpados, numa altura em que Seattle mudava o mundo eu fiz questão de me fazer de convidado e embarcar na viagem da revolução dos 90, só lhes agradeço por isso. Sempre estudei desporto ao longo do meu percurso escolar até que finalizo o meu curso de Gestão do Desporto pelo Instituto Superior da Maia, onde e por iniciativa própria tive a oportunidade de fazer o meu estágio final no Futebol Clube do Porto, foi algo que procurei, como em vários momentos da minha vida, experiências que me levassem a patamares de profissionalismo que me estimulassem, que me mostrassem como se fazia, me preparassem para o que queria, eu aprendi bastante, foi um dos momentos chave da minha vida, percebi o patamar onde queria trabalhar e como queria. Se não fosse em desporto saberia que iria ser em música. Entretanto tive mais algumas experiências profissionais no ramo desportivo e no das redes sociais com o Linkedin e o Pedro Caramez até ter certeza que a Cela Produções seria a minha vida profissional. Quando entrei na faculdade adorava todas as matérias relacionados com eventos,  tive cadeiras especializadas que me fizeram conhecer várias pessoas importantes nesse ramo, deu para aprofundar um conhecimento bastante específico e aquele que basicamente me interessava. Os sinais já vinham de trás, desde muito novo que passava a vida a fixar pormenores e me distraia do resto, fosse num jogo futebol, fosse numa aula, num programa de televisão, fosse onde fosse, mais tarde apercebi-me que isso seria uma arma bastante importante para esta área dos eventos, da cultura, que merece atenção e sensibilidade máximas, e na qual sinto que tenho uma palavra a dizer, um trabalho para fazer. A música sempre falou bem alto para mim, eu já tinha tido 2 bandas em que uma, a primeira, foi a mais importante para mim, a única que me deu vários sinais e me moldou a personalidade. Portanto, hoje, sou empresário e músico, Cela Produções uma organização que aposta na cultura em várias vertentes e que pretende crescer de forma organizada e especializada num determinado tipo de serviços que estou a moldar. Sou vocalista dos The Cover Van, projecto que funciona como o meu segundo trabalho e que actualmente conta com um nível de trabalho bastante elevado, inspirador e motivador. Música, é o meu rumo mas se me convidares para jogar futebol eu também vou e quero ganhar!

- Falas numa banda que moldou a tua personalidade. Que banda era essa e em que medida moldou a tua personalidade?
-
Foram os Ectovult, foi a minha primeira banda, tinha eu 15 anos. Começamos muito cedo a tentar perceber o que queríamos fazer com a música e perceber o possível percurso da banda, a titulo pessoal rapidamente cheguei à conclusão que tinha de tocar guitarra e cantar. Éramos dois vocalistas, o que ajudou bastante a não ter o peso da responsabilidade de ser sempre eu a falar nos concertos, sempre fui mais recatado, bastante tímido, e isso era notoriamente um obstaculo mas também sabia que estava ali uma solução para o conseguir ultrapassar. O frequente contacto artístico entre os membros da banda -nós ensaiávamos praticamente todas as semanas durante quase 6 anos-, acabou por nos moldar com o tempo, as experiências que fomos tendo contribuíram para isso, cada uma à sua maneira, parte da minha foi habituar-me a falar para diferentes tipos de público, e ser julgado em praça pública (risos), quem canta sabe como é, as pessoas estão sempre à espera que saiam as primeiras notas pelo micro para torcerem o nariz ou deixarem-nos um sorriso, e neste papel não tens muito por onde fugir, ou fechas os olhos enquanto cantas ou abres e deixas-te absorver pelo momento, fiz sempre as duas coisas, aprendi com os erros e fui melhorando ao longo do caminho que idealizei. Hoje agradeço muito ao que a banda me ensinou, sinto-me totalmente diferente, faz parte do processo do crescimento, o meu teve a sua primeira banda como uma importante influência.

- E o que mais te influenciou nesse processo de crescimento, até ao ponto actual em que te vais dividindo em diferentes actividades?
Todas as experiências que fui tendo na área do entretenimento em geral, e não me refiro apenas ao momento de palco em si, mas sim às pessoas que vais conhecendo, desde as viagens, os backstages, os ensaios, as gravações, a partilha do teu trabalho, o convívio, ao público que vais conhecendo e que gosta do teu trabalho, todo esse longo processo é bastante enriquecedor e eu aproveitei-o a cada segundo! Tive a sorte de na primeira banda conseguir participar na maior parte dos principais concursos nacionais de bandas de garagem, a primeira foi logo o Termómetro Unplugged, tínhamos acabado de gravar a maqueta, queríamos tentar aquele que era o maior concurso de bandas do país. Não esqueço o dia que comprei a Blitz e vi que tínhamos sido um dos 24 projectos escolhidos por um juri de pessoal ligado ao meio, entre cerca de 400 inscrições de bandas nacionais. Isso fez-me acreditar que haveria um caminho a dar seguimento, e que não estaria tão distante quanto parecia estar. As experiências de fazer primeiras partes de bandas como os Xutos & Pontapés, Primitive Reason, Clã, Wraygun, entre outros, continuaram a alimentar a alma, a motivar-me para querer fazer mais e mais. Como disse, sou responsável da Cela Produções, uma organização totalmente direccionada para a cultura e para uma linha que acredito, se não fosse a forte e focada experiência do passado, muito provavelmente estaria a dar aulas de educação física ou a gerir alguma instalação desportiva, o que não seria mau pois estudei para isso. Para além dos que executo, muitos outros projectos continuam a fazer parte do meu pensamento ou já se encontram escritos mas estão à espera de ver a luz do dia e no momento certo porque este ramo de actividade vive muito do momento certo, é algo que respeito bastante e que tento cumprir à risca. É com a Cela que comecei também a trabalhar com muitos grandes músicos nacionais e uma das minhas lutas é manter de pé a ponte que liga a restauração local à cultura, de variadíssimas formas, mas sempre com música no ouvido. Foi com o trabalho desempenhado na Cela que chamei a atenção do Álvaro Costa (RTP/Antena3) que desde 2009 foi acompanhando o que eu ia fazendo, inclusive aceitou o desafio de apadrinhar a Iº Mostra de Música Moderna que organizei em Vila do Conde chamada VilaGaragem. E é no fim dessa iniciativa, 2010, que recebo um telefonema dele para reunirmos no fim do jantar, e é aí que acrescento outro caminho à minha vida pessoal e profissional, quando é quando surge o convite para ser seu agente e paralelamente isso trabalharmos em conjunto uma série de projectos culturais que ele tinha e tem em mente onde tenho espaço para moldar e acrescentar as minhas ideias. Ainda hoje continuam a ser fabricados, apurados e executados. O Álvaro Costa sempre foi uma referência para mim e sentir total confiança em relação ao meu trabalho, às minhas ideias, continua a ser uma honra e um desafio enorme. É a partir daqui que conheço de forma mais detalhada o mundo da televisão e rádio, onde tive as minhas participações, inclusive colaborações em vários programas de televisão onde o Álvaro estava e está inserido. 
Em 2013 nasce outro caminho musical, os The Cover Van, projecto no qual tal como mencionei, sou vocalista. Isto é um projecto duo construído de raiz e que tem capacidade de resposta para trio ou quarteto, dependendo das necessidades dos eventos.Tenho o privilegio de ter junto de mim músicos excepcionais que continuam a contribuir bastante para a minha aprendizagem. A banda chegou recentemente aos 200 concertos dados em apenas 3 anos e conta com uma recepção por parte do público que tem vindo a ser incrível! Consequência disso tem sido a forma como temos construído a agenda onde já estamos a marcar Outubro, o que nos deixa motivados a continuar um trabalho que não pretende ser  mais um projecto de covers. Estas são as minhas actividades, todas elas influenciadas pelo passado e isso deixa-me seguro do caminho que pretendo continuar a construir.

- Sendo tu uma pessoa atenta e inserida na área da arte e cultura, como analisas essa área no Concelho da Trofa?
- Continuo a ver uma cidade recheada de talento, que nunca parou de o produzir, e que tenta o melhor possível para acompanhar esse crescimento lado a lado com os artistas, proporcionando oportunidades para que cada um se apresente à comunidade. Se é suficiente? Acho que não, é necessário mais e mais, e não me refiro pela oferta cultural que essa é notoriamente existente e cada vez maior, mas acima de tudo controlar um problema que afecta a cultura nacional, que passa por uma filtragem mais exigente porque de facto nem tudo é talento e os que o tem muitas vezes se sentem sozinhos. Repara, a Trofa é rica em gente que dá cartas pelo país fora, gente apaixonada pela fotografia, pintura, arte digital, pela escrita e música, existe para todos os gostos o que é um ótimo indicativo, mas não basta apenas vê-los passar e dizer que sabemos quem são. Acho importante haver mais dedicação em mergulhar na obra individual de cada um, é um processo demorado mas resulta. Ao longo dos anos sempre saí muito durante a noite, e foi aí que conheci e continuo a conhecer a verdadeira essência artística de muita gente, que durante o dia por variadissimas razões não tem disponibilidade para a mostrar. É aqui que o acompanhamento falha e a filtragem se dissipa. Entendo que as autarquias nem sempre tenham disponibilidade total para um acompanhamento neste terreno, e com a mesma dedicação que acompanham o restante dia, mas aí iriam perceber melhor as necessidades por exemplo  da restauração e o seu cruzamento directo com a arte porque ele existe e é fortíssimo. Ê uma ponte bastante interessante de se descobrir, apesar de muitas vezes andar à deriva, sem identidade, por sentirem que ninguém os vê. Por um lado esse lado surpreendente e especial que a lua nos oferece é inspirador, mas uma subtil presença de quem tem o poder local iria contribuir positivamente para que a linguagem cultural local fosse cada vez mais forte. Este problema acontece na Trofa como em muitas outras cidades. Muitas vezes cruzo-me com vereadores locais no decorrer do último café do dia, converso bastante com eles e encontro sempre o mesmo, disponibilidade para perceberem o que se passa, mas ainda são muito poucos. 



- O que podemos esperar do João Santos no futuro? 
- Muito simples, aquilo que fui, que sou, e que quero continuar a ser, feliz. Aliado a isso quero cumprir a 100% com a minha vida pessoal e continuar a adormecer de consciência tranquila, para mim é o mais importante, sem esse equilíbrio não seria capaz de dar vida aos meus objectivos. Felizmente não tenho tempo para ser infeliz. Também quero continuar a ter as ideias a vaguearem-me pelo pensamento, são os ingredientes principais do meu tipo de trabalho, é essa sensação do vai e vem que me agita o querer, e a distância para o fazer está logo ali. Pergunto, fará mesmo sentido falar do futuro quando as oportunidades estão no presente? Não creio, a velha história de acharmos que amanhã estamos cá desfoca-me o caminho, e em 2006, logo após a morte do meu pai, tirei as minhas últimas dúvidas. Não digo que não seja natural ao longo da vida sentirmos a constante necessidade de querer descortinar o amanhã, mas pessoalmente prefiro continuar a ser focado e feliz. No dia em que não o conseguir ser, aí sim, penso no futuro.  



Eram tempos - os 9o´s - de grande pujança criativa em terras trofenses. Bandas a cada garagem sim, garagem não. Concertos constantes no vale do Ave. 
Recordo uma qualquer organização de evento em que estava envolvido quando o nome Ectovult me surgiu na frente pela 1ª vez. Dizia-me alguém: "Oh Chico, esses putos partem tudo!".
Lá fui ver os putos - eu era também pouco mais que um puto, a minha diferença de idade para o "puto" desta entrevista é de pouco mais de 2 anos, mas naqueles tempos, devido a factores que não interessam, não estou aqui para falar de mim, ainda olhava para eles como "putos" - e percebi a energia contagiante que os envolvia, assim como uma pequena legião de teens que sabiam algumas letras de cor em conjunto com muito moche. Claro que participaram no evento.
Uma porrada de anos depois, talvez já em 2008, numa certa ocasião, sentei-me no chão junto a uma porta de uma sala de ensaios de onde apenas se ouvia Alice in Chains, acabei por ali ficar à espera que a porta abrisse... O gajo que estava a cantar, e de que maneira, era um dos putos dos Ectovult. Ficou o re-contacto feito.
Pouco tempo depois, e até atrelado às novas tecnologias de informação, o contacto desenvolveu e descobri que o "puto" tinha evoluído e construído algo. Caminhos que se cruzam e misturam.
Fica a entrevista, curta no número de perguntas, mas cheias de sumo de uma polpa que certamente ainda terá muito para espremer. 

Conhece: The Cover Van e Cela Produções


Cela Produções

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