Bougado, a terra onde se ganham eleições

por João Mendes 0

Há pouco mais de dois anos atrás, escrevi neste espaço sobre a zona envolvente da antiga estação de caminhos-de-ferro, outrora uma referência, hoje uma autêntica cidade-fantasma no centro da cidade. Para além dos perigos que aquela zona em ruínas representa para as crianças que frequentam a E.B. 2/3 Napoleão Sousa Marques, mesmo ali ao lado, é verdadeiramente desolador viver numa cidade em que a sua zona mais central é um amontoado de edifícios abandonados e em risco de desmoronamento. Na altura, dei largas à minha "utopia":

Do alto das minhas utopias perfeitamente realizáveis, via com grande entusiasmo o nascimento de uma pequena casa da cultura neste edifício, orientada para os mais jovens, que até poderia ser gerida em regime de voluntariado pelos mesmos. Teríamos um edifício de suporte, uma vasta área onde poderiam ser instalados equipamentos desportivos ou de lazer e até um pequeno anfiteatro onde o teatro ou a música pudessem florescer. A remoção do muro que separa a estação da rua que vai do Largo Carioca até à Igreja Matriz podia ampliar ainda mais esta zona, criando inclusive uma ligação, através do antigo ramal, ao centro da Trofa e ao renovado parque Dr. Lima Carneiro/Nossa Senhora das Dores. Uma ideia que deixo para quem sabe ou a queira desenvolver. E saliento que não estamos a falar das dezenas ou centenas de milhões necessários para uma variante ou para a construção dos Paços do Concelho. Estamos a falar da qualidade de vida e segurança dos trofenses. Até quando teremos o centro da cidade infectado? 

É, pois, com muito agrado e esperança que recebi a notícia relativa ao arranque da requalificação daquela zona, juntamente com a transformação do antigo ramal que liga a velha estação aos renovados parques e que albergará diferentes equipamentos públicos, de onde destaco o tão aguardado skatepark. Obviamente não alinharei no coro que pede a beatificação do executivo humbertista por este ou por outro motivo qualquer. É para trabalhar que lhes pagamos.

A requalificação da referida zona rejuvenesce o centro da Trofa, recentemente agraciado com a abertura ao público da incompleta porém bem-vinda obra de união dos parques. É uma óptima notícia para os bougadenses que, como eu, poderão usufruir destas e de outras obras como o Parque das Azenhas. Porém, para as populações das restantes freguesias do concelho, pouco ou nada muda nas suas vidas. O centralismo, na Trofa como em Lisboa, só se diferencia pela escala.

No fundo, as grandes obras que vão crescendo no centro da cidade da Trofa acabam por ser um pouco como o Be Live. O executivo afirma tratar-se da festa da juventude trofense mas o acesso continua extremamente dificultado para aqueles que, não vivendo em Bougado e não possuindo transporte próprio ou boleia disponível, acabam por ficar em casa. Lamentavelmente e até à data, os organizadores do evento não conseguiram desencantar uma pequena verba para colocar os autocarros do município a fazer aquilo que é o seu propósito: servir as populações. Estou esperançado que este será o ano em que o Be Live deixa de ser o evento dos jovens de Bougado para se transformar no evento dos jovens de todo o concelho.

A verdade é que o político trofense que sonha governar ou manter o poder sabe perfeitamente que é em Bougado que se ganham eleições. Por isso, há que manter os bougadenses felizes e as obras, quanto mais próximas de eleições autárquicas, melhor servirão esse propósito. É por isso que, mais de dois anos e meio após o último acto eleitoral, só agora se começa a ouvir falar de requalificação da via pública. É também por isso que as obras no Parque das Azenhas estão de regresso. Foi em função disso que o calendário da pseudo-variante foi definido, anunciado pouco antes das Legislativas para terminar em cima das Autárquicas. É ainda pelo mesmo motivo que fomos recentemente bombardeados com mais um Infomail triunfalista para recordar os trofenses que este executivo está a fazer aquilo para que lhe pagamos. Porque o político trofense que sonha continuar a governar sabe que o tempo em que podia deixar as obras para os meses imediatamente antes das eleições é hoje um tiro no pé. Mas não será por isso que deixa de ser uma jogada eleitoralista. Porque entre obras que começam em cima das eleições e obras que são concluídas em cima das eleições, a diferença é praticamente nula. A campanha para as Autárquicas 2017 segue dentro de momentos.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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