Festa de Rua: os dias de sol no Muro

por Pedro Amaro Santos 0

 

Tenderei, porventura, muitas vezes a achar que esta terra, para cá da Ponte da Peça Má, é especial e que o sol cá até brilha de uma forma diferente. Não o nego. Assumo-o desde já e aceito as eventuais acusações de discriminação ou preferencialismo. Na Freguesia de São Cristóvão do Muro, o sol brilha de outra forma. Ponto.

Não nutro tão particular sentimento por qualquer outra freguesia do concelho e, portanto, mais vale assumir desde já que o texto que vos escrevo é altamente discriminador. Perdoem-me só os meus vizinhos alvarelhenses por serem, essencialmente, boa gente e por terem qualidades únicas e preciosas para qualquer comunidade. Aos outros, não devo grande coisa além da vontade de construirmos um concelho melhor, portanto… paciência.

 

Com um programa de valorização da freguesia bastante claro e com as estratégias certas preparadas para ajudar na transformação de São Cristóvão do Muro, a Junta de Freguesia do Muro, mal foi eleita, pôs mãos à obra para motivar as pessoas a saírem de casa, a encontrarem-se e a mostrarem os seus talentos. Entre outras iniciativas, raramente vistas, nasceu a Festa de Rua. O propósito? No início da Primavera, proporcionar o encontro entre todos os Murenses, dando a conhecer o melhor da nossa terra. Parece que resultou. Estive na primeira edição em 2014 e não me lembro de ver tanta gente tão satisfeita e entusiasmada por haver algo assim no Muro. “Isto devia de acontecer todos os meses. É tão bom podermo-nos encontrar aqui com os nossos vizinhos. Andamos sempre todos tão desencontrados que momentos destes fazem muita falta.”

Foi a segunda edição no ano seguinte. Este ano comemoramos o tri. Primeiro a novidade. Depois a confirmação. À Terceira a consolidação. Por estar na equipa do Sr Carlos, do Sr Armando e da Sãosinha, desde o primeiro momento, tive algumas oportunidades em que pude ajudar a construir este pequeno grande certame com uma tremenda importância local. Sabia que ia ser um sucesso. Não sabia que ia ser assim. Não raras vezes conversamos sobre o conceito que está por trás da Festa de Rua. Chegamos sempre à conclusão de que isto não era, nem podia ser, a habitual e tradicional festa popular centrada no artista que enche o recinto na noitada mas que não deixa nada de si para o dia seguinte. Tinha de ser algo diferente. O motivo de participarem na Festa de Rua tem de ser a própria Festa de Rua. O motivo de participarem na Festa de Rua têm de ser as pessoas.

Parece-vos tudo muito metafórico. Não digo que não seja complicado de compreender. Dissequemos o programa desta terceira edição:

A abrir a estiveram os Rufos do Castro. Desde a primeira edição que a JFMuro entendeu, e bem, que as fronteiras são ténues e que só com pontes podemos crescer. Alvarelhos é aqui ao lado e há tanta gente que lá faz vida. É terra de boa gente de coração e de dedicação e a Fanfarra de Alvarelhos, de onde nasceram os Rufos do Castro, é a prova disso. Porque não havia dinheiro para a fanfarra numa festa, pegaram em bombos e tarolas e fizeram eles a fanfarra. Em pouco mais que dois anos cresceram e passaram a correr o país. Podiam ser outra qualquer fanfarra. Mas esta tinha mais sentido.

Há umas semanas tínhamos um café concerto pelo aniversário do Grupo de Jovens do Muro. No palco estava um grupo de três raparigas com qualidade musical suficiente para deixar o sorriso a quem quer que as ouvisse. São de Gondomar. Não fica sequer aqui perto. Ainda assim, eram as pessoas certas para abrirem a noite. Poucas vezes tinham pisado um palco e já faziam algo tão bom? Tinham de ser elas.

Em primetime, os merecedores do maior dos palcos e o mais entusiasmado público. Alvadance. Vi-os nascer quando ainda não tinha, sequer, entrado para o secundário. Nunca tive dúvidas que fossem longe. Mas também nunca imaginei que cresceriam assim! Dos tempos do Salão de Alvarelhos, passaram para salas cheias como o Sá da Bandeira. Montaram a academia no Muro e, desde a primeira hora, declararam-se cheios de vontade de continuarem a trabalhar e de começarem a envolver-se com a freguesia. É um luxo vê-los em palco e somos só priveligiados por dançarem em todas as noites do Muro.

Para fechar a noite e abrir a vontade de querer ficar até mais tarde: Cão Voador. Dispensarão grandes apresentações. É música bem feita e cheia de qualidade. Provavelmente valerão por mais que duas vezes os D.A.M.A. e é preciso uma certa coragem para quem organiza eventos assumir isso. É demasiado tentador chamar o grande artista milionário e, quem não o faz poupa dinheiro, mas, muito mais que isso, faz um investimento a longo prazo.

A manhã abriu com umas boas dezenas de senhoras a exercitar com as danças da moda: zumba. Leggins coloridas, atentas ao professor com uma camisola de alças fluorescente… no fim diziam “ao domingo de manhã é que sabe bem. Mas o professor hoje poupou-nos. Às vezes é com cada treininho que nos dá”. Não sei tirar grandes conclusões disto além da alegria das senhoras. Às vezes precisamos só disso.

Era dia da família e, dos insufláveis às tasquinhas, havia animação para todos. Palco para o Muro de Abrigo, acompanhado pela viola, cavaquinho e braguesa. Músicas tradicionais, lembrando-nos do trabalho meritoso que fazem. Às vezes não pensamos muito no assunto, mas podemos envelhecer sem medos em São Cristóvão do Muro. Se tudo nos faltar, a Muro de Abrigo estará pronta para ajudar. Teenager inconsciente, pouco sei sobre isto. Ainda assim, não posso deixar de ficar sempre admirado com a força e o empenho que a Muro de Abrigo põe em tudo. E por isso, só lhes podemos estar gratos.

Depois da experiência, os exploradores. A Associação de Pais do JI e da EB1 da Estação está bem enquadrada nas exigências que os tempos pedem. Sempre foi assim. Desde que por lá brincava que via nascer lá os mais espetaculares projectos feitos com os pais e com os miúdos. Depois de tanta coisa, hoje têm, por exemplo, aulas de guitarra e aulas de filosofia para as crianças. O projecto é claro. Por um lado, constribuir para a formação integral das crianças. Por outro, envolver os pais na escola. Subiram a palco para cantarem e tocarem dois pares de músicas de acordes simples na guitarra. Deliciado, eu só pensava: quem me dera. Que tremendos artistas de palmo e meio.


Não poucas vezes, ouvi o Sr Carlos - para os estimados leitores, Carlos Martins, Presidente da Junta de Freguesia, umas vezes inspirador, outras vezes polémico, sempre o bom homem em quem uma boa percentagem pôs cruzinha - dizer que é assim que os grandes artistas começam. Nenhum de nós saberia se algum daqueles artistas poderia estar amanhã num roquimquirrio desta vida e que temos de estar na primeira fila a apoiá-los porque, quanto mais não seja, são nossos.

A Freguesia do Muro, durante alguns anos, manteve-se morninha. Calma  e serena, sem grande agitação, roçando algum desânimo. Por uma série de factores que prometo vir a comentar neste espaço, São Cristóvão do Muro começou a transformar-se. Um dos projectos que nasceu desse princípio de transformação foi o Grupo de Danças Pra’Pulares de São Cristóvão do Muro. Começou por brincadeira, para uma vez por semana dançarem um pouco. Ainda não pararam de crescer, têm mulheres de todas as idades e já começaram a sonhar mais alto. Há umas semanas encheram o Centro Paroquial do Muro para um espectáculo de música, dança e teatro e foi das melhores coisas que já pudemos ver. Muitas delas nunca tinham subido a um palco. Estrearam-se de uma forma tremenda que faz com que mereçam receber todos os aplausos de pé. Por isto tudo e muito mais, as senhoras fazem questão de ter convite e presença confirmada em tudo quanto podem. A Festa de Rua, não podia ser excepção. Sobem a palco. Dançam, riem e ainda põem toda gente no vira geral.

O programa da Festa de Rua é simples e sem grandes extravagâncias. Não gasta milhares de euros nem promete grandes ostentações de qualquer coisa que não somos nós. Não temos o Quim Barreiros nem os D.A.M.A.. Não é sequer o local onde todos os trofeiros acorrem durante o fim-de-semana. Sendo bastante injusto com as pessoas da minha terra, até me arrisco a dizer que não tem grande coisa para ver. Quem vem de fora, nunca perceberá, sequer. A ideia não é visitar, aparecer, ver ou passar por cá. A ideia é muito mais que isso: é estar e ser com os nossos, pagando, ou não, eles os impostos por viverem em São Cristóvão do Muro.


Se estão com dúvidas, eu esclareço-vos já. Este texto foi obviamente encomendado e a paga de favores necessária para se chegar a algum lado. Nasci, cresci e vivo no Muro. Por muito que faça, vou estar sempre em dívida com esta terra. Peça-me ela o que quiser. Nunca pagarei o que sou.

 

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