Desenhando Com Luz e Contraste - Silvano Lopes em entrevista - Voluntariado pelo Mundo

por Francisco Sousa Barros 0

Hoje saímos da matriz habitual das "Simples Entrevistas", sendo que permancem os objectivos, mas o cerne e a medula desta entrevista é muito mais um contexto do que uma pessoa. Mas sem a pessoa não existia contexto...
Silvano Lopes, 29 anos, natural e habitante na cidade Trofa, profissional da área do audiovisual, junta aos seus projectos missões de voluntariado. Acompanhei de relativamente perto o projecto, percebi as dificuldades prévias de preparação e senti ao mesmo tempo a motivação, a causa e o fundamento. É preciso coragem e grandes doses de determinação para começar um empreendimento destes, pois as dificuldades que surgem são fáceis desculpas para nada se fazer.


 

- Estás de regresso de mais uma missão de voluntariado, desta vez a Missão Dulombi na Guiné-Bissau, correu dentro das expectativas que tinhas antes de partir?
- Não sou pessoa de criar muitas expectativas, já faz parte de mim, penso que não é uma forma de me defender mas antes porque não penso muito no dia de amanhã. Prefiro usufruir daquilo que acontece agora e não ficar à espera de algo que criei na minha cabeça. Mas sim, de forma geral correu tudo muito bem. Fica sempre aquele sentimento de que se podia fazer sempre mais, mas no caso da Guiné-Bissau as coisas andam com um ritmo diferente do nosso. Conseguimos fazer praticamente tudo o que tínhamos em mente, excepto levantar o contentor. Infelizmente levou bastante tempo a tratar da burocracia toda, mas esta semana os responsáveis pela missão Dulombi que ficaram vão poder levantar e distribuir os bens pela população.

- Quais as maiores dificuldades com que te deparaste à chegada?
- Para mim a maior dificuldade foi o calor, houve momentos em que tínhamos temperaturas de 45º, o que tornava impossível trabalhar durante as horas de maior calor, o restante não quero chamar-lhe dificuldades, é apenas diferente do que estamos habituados. Sem electricidade não tínhamos como refrescar as bebidas, tudo o que bebíamos estava bastante quente, só faltava colocar a saqueta do chá e estava pronto, até para dormir era complicado. O facto de termos a água do poço muito limitada, tomávamos banho com cerca de 2l de água com um copo, não havia rede no telefone,  a certa altura acabou o gás e tivemos que passar a cozinhar com fogueira.
No fundo não nos faltou nada, foi apenas diferente. 

- E no final da missão, depois do regresso, o que sentes quando pensas nessas dificuldades e situações que não são nada normais no nosso dia-a-dia? 
- Para ser sincero acho que fico um bocado perdido quando regresso, levo uns dias a voltar ao registo "normal". Apesar de ter vindo de um local onde falta quase tudo, no fundo não falta nada. Lá dou por mim a rir sem motivo e em que nada me preocupa. Aqui custa-me ligar a TV e ver o telejornal, onde só existem problemas que na verdade não consigo perceber bem se são problemas, a luta das pessoas em trabalhos que não as fazem felizes para comprar coisas que não precisam... Sinto que não há futuro no caminho tão formatado que estamos a seguir.

- Sei que a viagem de ida até Dulombi foi também uma pequena aventura...
- Sim, em vez de entrar no avião e ao fim de algumas horas chegar ao destino, desta vez a viagem foi feita numa Ford Transit antiga até à Guiné-Bissau.
Tivemos a oportunidade de conhecer pontos importantes e culturas dos países que atravessamos, Marrocos, Mauritânia e Senegal, o que inclui a travessia do Equador em 4 rodas, ou o Sahara Ocidental com paisagens incríveis. Foram dias e dias rodeados por areia em que a paisagem foi-se tornando cada vez mais verde com o passar dos kms. Passamos por registos em que mais parecia o fim do mundo, outros simplesmente com vontade de parar e fotografar tudo.



 

- Aproveitaste a viagem, assim como a estadia em Dulombi, para fazer algum trabalho directamente ligado com a tua área profissional?
- Enquanto voluntário, para além de participar em todas as tarefas necessárias no local das organizações em que me envolvo, o principal objectivo é contribuir com aquilo que faço profissionalmente. Tento sempre fazer um registo fotográfico, assim como um vídeo promocional, com o intuito de as promover de forma a chegarem um pouco mais além. Com isso acredito que possam surgir mais donativos, voluntários ou qualquer outra forma de ajuda.

- Pretendes mostrar esse trabalho de fotografia e vídeo que realizaste, ou também aí encontras dificuldades, ou nem sequer é objectivo?
- O objectivo é tentar chegar ao maior número de pessoas e parte sempre pelo facebook. Acredito que teria alguma facilidade em expor num qualquer local, mas para mim existem custos na impressão dos quadros... e como já gasto bastante em poder ir até ao local da missão de voluntariado, não costumo ter margem para mais quando regresso.
Em alternativa, como fiz o ano passado, apresentei o vídeo e fotografias da minha ida ao Cambodja, no Desperados da Trofa que gentilmente cedeu o espaço.



 

- Pergunta óbvia, já pensas na próxima missão de voluntariado?
- Sim, a grande dificuldade é para onde. O registo passa sempre por crianças, agora se opto por uma cultura completamente diferente, ou para qual lado do mundo vou, ou como vou arranjar fundos, ou tempo disponível sem prejudicar muito a minha vida profissional, são tudo duvidas... Mas já começo a ter alguma coisa em vista.
Aproveito para revelar pela primeira vez que nasceu um novo objectivo, que passa por lançar um livro com o registo destas missões, sendo esta mais uma ferramenta para angariar fundos e promover as instituições. Mas para isso preciso de realizar mais uma missão ou duas. 

- Este blogue é focado na Trofa, nesse sentido pergunto se enquanto estiveste em Dulombi alguma vez te lembraste da Trofa, e se sim em que medida isso aconteceu? Pergunto também se mais esta experiência de voluntário te deu ideias para iniciativas que possam abranger o concelho em que resides?
- Sim! Mas por um motivo curioso, quando chegamos a Galomaro, onde está o hospital que realizamos alguns trabalhos, tinha um caixote do lixo da Trofáguas, chama-se Óscar e andou a "passear" pelo o hospital enquanto limpávamos o lixo com as crianças, tirando isso não, não tive mais nenhum momento que me trouxesse à cidade natal.
Quanto a iniciativas, há gente muito boa na Trofa que já o faz e espero que sejamos cada vez mais.


- Uma última pergunta. O que retiras como fundamental desta experiência?
- Se pensarmos um bocadinho, quantos de nós estão a viver a vida realmente? Estamos cercados por um mundo de problemas, preocupações que não nos deixam ver o mais básico de tudo. Viver devia ser a nossa maior missão, não ter mais coisas ou mais dinheiro. Devíamos realizar os nossos sonhos, devemos ter coragem de avançar apesar de podermos cair muitas vezes. A minha faísca é conhecer o mundo. Gosto de ajudar, gosto do meu trabalho, quando me perguntam "porque viajas para um local em condições muito pobres?", no fundo até me agrada, gosto destes choques de realidades, faz-me abrir "as palas" e dar valor aquilo que muitas vezes não queremos ver. Mas o que realmente fala mais alto é ajudar... Existe alguma coisa melhor do que isso?



Antes de tudo esta entrevista pretende ser rastilho, pavio para apoios e iniciativas.
Conhecer o Silvano Lopes não acontece com 9 perguntas para as "Simples Entrevistas", nem a especificidade do tema focado, a Missão Dulombi - Voluntariado pelo Mundo, permitia grande margem, mas certamente dá para ficar com uma ideia da decisão e do arrojo com que este Trofense coloca os pés a caminho, assim como pode, eventualmente, levar uma ou outra pessoa a pensar na (sua) condição humana...

Conheçam o projecto Voluntariado pelo Mundo aqui
Conheçam a Missão Dulombi aqui.

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