Ao som do Violino - Ravena Ariane Carvalho em Entrevista

por Francisco Sousa Barros 0

Nasceu em Saint-Michel d'Entraygues (França) em 1991, mas residiu na Trofa a grande parte da sua ainda jovem vida.
Iniciou os seus estudos musicais aos 13 anos na Escola Profissional Artística do Vale do Ave. Foi membro da Orquestra Artave e participou em estágios da Orquestra Aproarte. Concluiu em 2009 o Curso de Instrumentista de Cordas e de Teclas, na Escola Profissional Artística do Vale do Ave, tendo sido admitida na Academia Superior de Orquestra da Metropolitana - Lisboa, onde se licenciou em 2012, no curso de instrumentista de orquestra na classe do professor Aníbal Lima, com a nota final de 19 valores. Ainda em 2012 foi-lhe atribuído o Prémio INATEL.
Teve oportunidade de tocar na Orquestra Académica da Metropolitana, na Orquestra Metropolitana de Lisboa e na Orquestra Sinfónica da Metropolitana.
Participou no Festival HARMOS com o Trio INEDIS, tendo sido o concerto na Casa da Música transmitido em directo. Entre outros concertos de música de câmara, tocou em Cascais com o Quarteto Moscovo. 
Também leccionou violino, coro, educação musical e iniciação musical na Companhia da Música, em Braga.
Emigrou para a Suíça em 2013. Desde então, trabalhou em restauração e como Babysitter.
Actualmente tenta coincidir trabalho e música e arranjou tempo, que eu agradeço, para responder às questões das Simples Entrevistas para o E a Trofa é Minha:



- O que representa para ti a Trofa?
- A Trofa representa para mim basicamente a minha infância e um pouco da adolescência. Até aos meus 11/12 anos, vivi e estudei na Trofa. A partir do momento em que comecei a estudar na Artave, o único tempo livre que tinha era ao fim-de-semana (as aulas eram das 8:30 às 19 ou 20 horas) e como andava sempre cansada da escola, acabava por nunca sair muito de casa. Claro que com a chegada da adolescência, comecei a sair e a explorar mais. Penso que foi entre os meus 16 e 18 anos que comecei a conhecer mais trofenses e melhor a Trofa. Na altura sentia-me bem! Tinha muitos "amigos", saíamos e íamos até algum café. Basicamente era isso o que se fazia (e o que sinto que ainda se faz) na Trofa. Mas por alguma razão, que eu não identificava na altura, isso nunca me deixou cativada por muito tempo. Acho que lá no fundo nunca me identifiquei muito com os trofenses ou com a Trofa. 

- Vivendo actualmente fora da Trofa, como olhas para ela?
- A Trofa é a minha paragem obrigatória quando vou a Portugal, apenas porque grande parte da minha família mora lá. Cada vez que chego à Trofa sinto um vazio. Sinto que fora a minha família, não há nada que me enriqueça ou me encha o coração, ou com a qual eu me identifique. Sempre tentei em cada regresso meu conhecer melhor a Trofa e sentir-me bem nela, mas acabo por nunca o conseguir fazer. 
Estando a viver na Suíça (mais propriamente em Lucerne) penso que poderá ser injusto fazer uma comparação à Trofa, mas estou cá a viver há 2 anos e 9 meses, e sempre que regresso da Trofa ou de Portugal, fico maravilhada com a organização e tudo aquilo que cá tem, apesar de saber que as saudades dos meus vão e a luta por uma vida melhor continuam a existir. 

- Sentes-te Trofense?
- Depois de tudo o que disse nas respostas anteriores penso que a minha resposta é óbvia. Não, não me sinto trofense. Acima de tudo, sinto-me portuguesa. Não quero com isto dizer que sou melhor ou pior do que os trofenses. Apenas penso que a maioria dos trofenses vive muito a falar dos outros e a competir com os outros, e eu tenho vindo a aprender a falar menos dos outros, especialmente se é para falar mal, e a competir comigo mesma. Além disso, sempre dei mais valor ao que as pessoas são e não ao que elas têm. No entanto, conheço algumas pessoas da Trofa pelo qual nutro um carinho especial e tenho muito orgulho. 


- Partiste para o estrangeiro em busca do que não encontravas em Portugal ou era um objectivo concreto?
- Inicialmente parti para o estrangeiro (mais concretamente para a Bélgica) para ficar junto da minha mãe. Infelizmente foi uma má experiência para mim e regressei a Portugal. Quatro meses depois decidi aventurar-me e arriscar na Suíça para fazer vida com o meu namorado. Independentemente destes dois motivos, sempre quis sair de Portugal, para estudar, para trabalhar ou simplesmente para viver uns tempos noutro país. Se conseguisse trabalhar na minha área muito bem, se não conseguisse pelo menos abria-me horizontes. Acho que é importante conhecermos outros países e outras culturas.

- E conseguiste oportunidades na tua área, nomeadamente na música?
- Até hoje ainda não toquei cá. Vim com pouco. Quase sem dinheiro, sem contracto de trabalho, sem falar alemão e com apenas duas malas e o meu violino. Posso dizer que foi uma decisão feita por amor. Era importante para mim continuar na música, mas era mais importante na altura lutar pela relação pessoal em que estava. E em Portugal  as perspectivas que tinha não me pareciam ser boas o suficiente para me fazer ficar. 
No entanto, candidatei-me cá para estágios de orquestra e fui convidada duas vezes para fazer audição. A primeira vez preparei-me sozinha e apenas num mês; ninguém ficou com os lugares. A segunda vez foi em janeiro deste ano. Estudei durante 3 meses, tive aulas com uma violinista da orquestra e apesar de ter ido muito melhor preparada não fui escolhida. Éramos 26 candidatos e eu era a única que não estava a estudar numa escola. O nível é sempre alto e as dificuldades aumentam quando ficas muito tempo sem tocar, por isso acredito que oportunidades irão sempre existir, o que é preciso é estar preparado para elas, e no meu caso, não tenho estado preparada o suficiente, mas ter tocado para uma violinista da Luzerner Sinfonieorchester já foi muito importante para mim. É sempre enriquecedor tocar para músicos experientes e ouvir o que têm a dizer sobre nós como músicos. Aprendi bastante e isso ajudou-me a não perder o foco.


- Mas manténs expectativas em termos de carreira musical?
- Claro que sim! Mas quando estás sozinha, longe da família e amigos e num país que não o teu, tens de dar um passo de cada vez. Vou continuar a sonhar com o dia em que faço parte de uma orquestra, mas sempre com os pés assentes na terra. Até lá, vou estudando nas folgas e continuar a preparar-me para audições futuras.

- No entanto foste atingindo os teus objectivos, quais são os momentos que mais te orgulham na tua carreira?
- No meu percurso musical tive momentos muito bonitos que guardo no meu coração. No entanto, o momento que mais me orgulho foi a minha primeira actuação a solo com orquestra. A Academia Nacional Superior de Orquestra de Lisboa (escola onde fiz a minha licenciatura), tinha e penso que continua a ter, um concurso do Prémio INATEL. O concurso é aberto para todos os alunos da Academia, ou seja, para todos os instrumentos. Em 2012 concorri pela segunda vez e apresentei em audição o meu concerto preferido (Concerto para violino n. 1 - D. Shostakovich). Fiz a audição e fui simplesmente para casa dormir. Acordei com a chamada de uma amiga a dizer que tinha ganho o concurso (juntamente com outra amiga minha)! 
Quatro meses depois iria tocar pela primeira vez a solo com orquestra, e com o meu concerto para violino preferido! 
Em maio de 2012, entrei pela primeira vez em palco como solista. Tinha decidido levar o concerto decorado e tudo começou muito bem. No início do segundo andamento do concerto, o Scherzo, algo estava a correr mal mas eu não consegui detectar o erro. Olhei para o maestro e ele mandou a orquestra parar. Recomeçamos o andamento e uns compassos depois, eu e a orquestra estávamos desfasados novamente. Tive noção de que eu tinha voltado a repetir o mesmo erro mas não estava a conseguir identificá-lo (este andamento é rápido e tramado de decorar). Toda a orquestra parou novamente e o maestro sussurrou-me algo que acho que nunca cheguei a perceber. Recomeçamos o mesmo andamento pela terceira vez! Lembro-me de tentar visualizar mentalmente a partitura e consegui detectar o erro: havia dois (apenas DOIS) compassos que se repetiam e eu não estava a fazer essa repetição. Tenho vídeo desse concerto e consegue ver-se a cara de pânico de alguns colegas meus da orquestra. Já eu, mantive toda a calma do Mundo (até hoje não sei como!) e continuei a tocar como se nada tivesse acontecido! 
Esse é um momento que nunca irei esquecer e do qual me orgulho bastante, porque todos vamos falhar em algum momento das nossas vidas ou das nossas carreiras, mas o importante é como encaramos as nossas falhas, ou como saímos dos momentos difíceis. E tal como eu, tenho a certeza que muitas pessoas que assistiram a esse concerto não se irão esquecer. São momentos que marcam os músicos, o maestro, o solista e o espectador. Porque afinal de contas, acabam todos por sofrer um bocadinho quando algo está a correr mal. Mas o importante é o que a música transmite, e pelo feedback que tive, penso que transmitiu muito daquilo que eu pretendia. 
Foi simplesmente um dia muito intenso e um dos mais importantes da minha vida!


- Se existissem apoios, nem falo especificamente de dinheiro, no Concelho da Trofa ou em Portugal, consideravas regressar?
Para ser sincera, não sei! Eu quero imenso regressar à música e se puder fazê-lo perto dos que amo, melhor ainda! Mas a verdade é que ainda não me sinto pronta para deixar a Suíça. Sinto que ainda estou a lutar pelos meus objectivos e não me iria sentir bem a regressar a Portugal, sem realizar alguns. Investi muito dinheiro em cursos de alemão, trabalhei como Babysitter e empregada de balcão para me sustentar e só este ano é que à partida vou conseguir começar a juntar dinheiro. A música é muito importante para mim, mas eu tenho outros desejos como viajar e formar família. E para isso é preciso dinheiro. Não regressaria a Portugal sem dinheiro (só em último recurso!), ou sem o sentimento de que fiz o que pude cá. Hoje em dia é preciso sobreviver! Posso não ter um palco para tocar ou não estar numa orquestra, mas música vou sempre ter. Como uma amiga me disse uma vez: "Não precisas de um palco para tocares a tua música."
Regressaria a Portugal se tivesse uma oportunidade de trabalho na música que me permitisse ser independente e ter estabilidade financeira.

- Na tua visão, e expriência, o que falta na Trofa em termos de apoio aos músicos locais?
- Sinceramente nunca estive muito a par sobre o apoio aos músicos trofenses. Não estando informada sobre o assunto é um pouco difícil dizer o que está em falta. Tive conhecimento de que existiu ou ainda existe uma orquestra na Trofa. Penso que esse projecto poderia ser desenvolvido. Há muitos músicos da Trofa e arredores por isso acredito que a falta de músicos não seria um problema. Mas a questão aqui seria: tem a Trofa interesse em ter uma orquestra? Uma orquestra vive dos patrocinadores e do público, e na minha opinião a Trofa e os trofenses em geral estão pouco interessados em cultura, em música clássica. No entanto, se a orquestra tocasse um programa mais "acessível" e apelativo talvez resultasse. Algo como bandas sonoras, ou arranjos de músicas conhecidas, dentro do hip-hop, fado, pop, rock! Porque não uma orquestra versátil? Claro que para isso é preciso fazer arranjos, criar. Mas aí já eram incluídos vários estilos musicais e já atraía um maior número de pessoas. 
Penso que uma outra ideia seria disponibilizar a baixo custo um espaço/sala para os músicos trofenses poderem organizar recitais/concertos. A venda de bilhetes poderia ajudar muitos músicos a juntar dinheiro para os estudos ou para a simples manutenção do instrumento/material e tocar para o público é sempre um factor importante na formação de um músico. 
Eu não sei se alguma destas ideias já existe ou existiu e bem sei que sem dinheiro não é possível fazer muito. Poderia sugerir muito mais mas acho que enquanto a Trofa e os trofenses não tiverem interesse pela cultura ou pelas artes, uma orquestra por exemplo nunca será valorizada ou respeitada. E quanto a salas disponíveis para recitais ou concertos, penso que será possível se a ganância por dinheiro não falar mais alto. Poderiam existir também concursos para bolsas de estudo por exemplo. 
Mas como já referi, para tudo isto é preciso quem apoie a ideia e a patrocine; é preciso interesse. E o que na minha opinião mais falta faz na Trofa é interesse pela cultura.

- Alguma mensagem final que gostasses de deixar?
- Esta é sem dúvida a resposta mais difícil!
Acho que cabe a cada um de nós olhar para si mesmo (interiormente) e pensar que marca quer deixar no Mundo. Cada vez mais a vida "obriga-nos" a sermos mais rápidos e eficazes. Vivemos num Mundo competitivo e que não é governado em geral por pessoas de bom coração. Mas cabe a cada um de nós, dar o seu melhor e ser a sua melhor versão. Isso é o que tenho vindo a descobrir e tentado ser, a minha melhor versão. Nos tempos que correm cuidamos muito mal do planeta que nos dá a possibilidade de vida. Damos por garantido a existência do mesmo e não cuidamos devidamente dele. Consumimos muito mais do que o necessitamos e não pensamos nas consequências que isso implica. Fechamos os olhos a tudo isso e continuamos a cometer  os mesmos erros. Mais do que culpar os outros, devemos culpar-nos a nós mesmos e reflectir sobre aquilo que podemos e devemos mudar. É preciso parar e analisar o que andamos a fazer. É necessário fazê-lo! Não podemos ser egoístas e pensar só em nós. Devemos dar mais e sem esperar receber. A seu tempo tudo tem o seu retorno. 
O mundo é governado por "meia dúzia" de pessoas que só tem poder se o povo for atrás, por isso acredito que cada um de nós tem o poder de mudar o mundo. Não é preciso muito de cada um, mas é preciso que cada um aja. Temos de reaprender a amar, a respeitar o próximo. Ouvir mais, pensar mais e melhor. Ter tempo para os que nos amam, e ter tempo para nós. Dar valor aos que as pessoas são e nos podem ensinar e esquecer o que elas têm. 
Acho que só assim seremos mais felizes.

 


Continuo na minha busca, a escarafunchar, a remexer e a esquadrinhar. 

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