Amor tem hora

por José Calheiros 0

Acredito que se possa amar uma pessoa para toda a vida, mas desconfio que se ame sempre, a todo o momento!

Obviamente, esta minha postura não é transmitida pelas estórias lidas em que se morre por este sentimento, mas pelo Lopes, meu vizinho imaginário com uma vida real, bem menos aventureira, muitas vezes pachorrenta, que começa de forma enfadonha com um toque de despertador.

Se o toque lhe provoca desconforto por trinta segundos, enquanto não desperta, já à sua mulher, provoca-lhe um ódio ao mundo e à pessoa que estiver próximo dela durante meia hora. De amado à hora de deitar, Lopes é odiado na hora de despertar… e durante o pequeno almoço, em que nunca faz perguntas, apenas respondendo se algo lhe for perguntado e nunca dá a sua opinião sincera, mas sim o que a sua esposa quer ouvir.

Lopes sai sempre de casa a questionar-se, “Porque raio casou ela comigo?!”.

Se Filomena não lhe demonstra amor pela manhã e não sendo rico, ele nunca encontrou resposta à pergunta, não se acreditando que ser jeitoso e uma jóia de rapaz entre na equação! Apenas vale para a sua mãe “babar-se” de orgulho!

Fora de casa sem coragem para telefonar para o “inimigo”, espera por um sinal, que geralmente surge em forma de telefonema ou mensagem, pleno de alegria e “amor”.

Se não fosse um rapaz fiel, Lopes juraria que se relaciona com duas mulheres, parecidas apenas no aspecto físico, mas como é, juraria que a sua mulher por vezes é possuída por um espírito que a apoquenta e a ele ainda mais! Em vez de dormir com uma cruz na mão e um colar de alhos, prefere acreditar que é feitio!

Lopes sem nenhum medidor de sentimentos, que o mantenha actualizado sobre os batimentos românticos de Filomena, é nas suas expressões que tenta adivinhar! Como homem, que é homem, estes actos de adivinhação provam porque Lopes nunca fez “linha” no Bingo.

De homem rijo nas futeboladas com os amigos, arruaceiro nas ruas e desrespeitador dos sinais de STOP, sente-se frágil ao pé de Filomena, sentindo que a ama mais vezes durante o dia do que ela a ele.

Como o apetite aguça o engenho, sonha na criação da derradeira geringonça, “O parquímetro do amor”, instalado em casa, onde por vinte cêntimos aparca seguro no coração de Filó, abandonando os exercícios de adivinhação.

 

Porque o Lopes sabe que se pode amar alguém para toda a vida, mas não em todos os momentos!

Comentários

Deixar um comentário

Faça Login para comentar.