Trofa, e se puxassem o rabo ao _?

por Pedro Amaro Santos 0

(Porque estou num espaço que se pretende educado, cada vez que o fluir do texto me sugerir o uso de um termo menos apreciável vou deixar em branco para que os estimados leitores possam ser os próprios constatadores da _ que é puxar o rabo a bezerros)

Disse há umas longas semanas no meu facebook coisas sobre qualquer tradição ribatejana recreada no território-diamante. Falo da garraiadada da ultra-tradicional, ultra-grandiosa, ultra-dinamizadora, ultra-importante e ultra-antiga Feira Anual da Trofa. Deixei que passasse tempo suficiente para que os estimados leitores não confundam estupidez saloia das garraiadas com a necessidade não-estúpida mas saloia de todos visitarmos feiras de qualquer coisa que nos pareça exótica. (Sim conjuguei na primeira pessoa do plural. Escusam de preparar o comentário. Eu também acabo por, num ou noutro, ter feito aquela visita ridícula de fascinado com vaquinhas numa feira agrícola. Sim ridícula. Saí de lá sem perceber o que é o trabalho daquela gente e com peso na consciência por não lhes dar o devido valor. Só me posso sentir minimamente ridículo.) Além disso, também deixei a coisa passar porque...não conheço a vida sem tempo a escassear. Não tenho grande coisa a acrescentar mas achei que o meu contributo deve constar na lista de artigos deste espaço.

 

Bem, decorreu então a Feira Anual da Trofa e foi um espectáculo a que só faltou o Fernando Mendes. Em suma, pelo destaque dado nas redes sociais: teve a visita de uma ex-ministra como convidada de honra – já devia estar convidada desde o ano passado; teve os DAMA pela segunda vez na Trofa em menos de um ano; teve desfiles de animais criados com uma dedicação completamente louvável; teve desfiles de pessoas que não sabem o quanto marca o sol no campo mascaradas de agricultores ou de campónios com trajes que não são de lado nenhum; teve comida regional de onde calhar porque nesta terra na bacia do Ave, pato, alheira e leitão são pratos da mesa dos nossos bisavós; tem milhares de mirones fascinados com o tamanho de uma vaca - como se morassem na cidade e tivessem de andar mais de 5 minutos a pé para encontrarem os belos campos verdejantes que ladeiam todos os lugares desta terra; e teve um caso de estranhos financiamentos, jogadas políticas e dessas coisas exaustivamente descritas em vários textos deste blog. Enfim, só boas coisas para serem escrutinadas.

Nada disso me intrigou. É só previsível e verdadeiramente tradicional no território diamante que antes era uma folha.

Até aqui estou tranquilo e um pouco impressionado. Mas... reparei que a feira tem uma garraiada. Que classe. Evento se luxo. Desde pequeno que aqui sinto o verdadeiro espirito dos touros e dos vitelos. Sempre fez parte desta identidade local, da tradição e dos costumes. Uma garraiada? Sim! O evento de luxo de qualquer local com parqueamentos cheios. Estava “à pinha” quase que era transmitido em directo pelos órgãos de comunicação trofenses.

Antes de prosseguirmos convido os leitores a pararem e a fazerem uma breve reflexão com base em alguns pontos:

1.Qual é o sentido de juntarmos milhares de pessoas a assistirem a uma dezena delas a puxar o rabo a um vitelo? Se ainda fosse para um mano-a-mano com um bruto touro...Mas nem _ para isso têm.

2. O Feira Anual da Trofa tem um bruto financiamento da CMT. Que investimento cultural e recreativo pode passar por apoiar eventos com energúmenos a puxar o rabo a animais?

3. O que está uma criança a fazer no meio daquele espetáculo?

Dei-me ao trabalho de tirar alguns frames de momentos marcantes de um dos vídeos divulgados. Foi mais ou menos assim o espetáculo:

O tema não merece uma conclusão condigna. Assim sendo tenho só uma coisa a sugerir para o próximo ano: Trofa, e se fosses puxar o rabo ao _?

No mesmo dia, na Freguesia do Muro decorriam vários eventos solidários com o trabalho da Muro de Abrigo. Achei por bem deixar aqui esta nota para que se saiba que não somos todos iguais e nem todos temos uma roupa ridícula para vestir. Só para que conste.

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