Muito Com Pouco - Carina Silva em entrevista

por Francisco Sousa Barros 0

Nascida longe da Trofa em Morges - Suíça, mas criada na Trofa, a história de vida da Carina Silva é a narrativa de uma mulher positivamente inconformada, que desde cedo percebeu que a apatia e a inercia não eram para ela. Durante a juventude esteve activamente ligada ao Agrupamento 94 dos Escuteiros de São Martinho de Bougado, fez rádio na saudosa Rádio Trofa (assim como na rádio Cidade Hoje em V.N. Famalicão), formou-se em Jornalismo e Ciências da Comunicação e decidiu fazer-se à vida... sem esperar que alguém fizesse por ela aquilo que soube fazer como poucos. Cresceu, lançou-se na assessoria de imprensa e hoje trabalha com artistas de renome do panorama musical português como Dealema, Sam the Kid, Mundo Segundo ou DJ Slimcutz, entre outros, é também responsável pela comunicação e assessoria de imprensa de festivais como o Folk Celta, Noites RitualSons de Vez. Integra ainda o projecto Conta-me Histórias, com o qual tem corrido o país com alguns dos maiores nomes da música portuguesa.
Sempre que pode voa daqui para fora, de mochila às costas e para onde o vento a levar...




- O que representa para ti a Trofa?
 A Trofa neste momento que já não é a minha cidade de residência, significa essencialmente o ponto de encontro com os meus amigos e família. Nunca fui bairrista, talvez por estar habituada a viajar e porque inclusivamente passei os meus primeiros seis anos na Suíça o que me fez nunca ficar agarrada a um sítio, mas a verdade é que infelizmente não sinto que a Trofa me dê nada com exceção dessas maravilhosas pessoas que fazem parte da minha vida.

- Vivendo actualmente fora da Trofa, como olhas para ela?
- Olho para a Trofa como uma incubadora de talentos a quem infelizmente não são dadas oportunidades. É uma cidade que castra quem é pro-cultura, que não se sabe adaptar às necessidades da população e que continua a apostar numa política popularucha e sem nenhuma identidade própria. Custa-me perceber que temos tanta gente de valor na Trofa, nas mais diversas áreas, que faria uma diferença enorme na evolução e notoriedade deste concelho, mas que para se poder exprimir tem de inevitavelmente apostar noutros municípios.

- Sentes-te Trofense?
- Honestamente não. A Trofa é apenas a cidade onde vivi a maioria da minha vida e onde vivem atualmente os meus amigos e a minha família!

- Mas sentes-te de algum lado? Ou nem por isso?
- Sinto-me seguramente Nortenha. Gosto da nossa forma de estar, da paixão que nos move, da garra com que trabalhamos e da nossa genuinidade. 
Hoje que vivo em Gaia penso que o Porto é sem dúvida a melhor cidade do Mundo. Tem tudo o que me fascina!

- Tu és uma pessoa viajada... essas viagens que fazes são por necessidade profissional, são ímpetos, ou outra coisa qualquer? E quando nessas viagens te perguntam "de onde és", como respondes?
- Ahahah! Bom, começo pela segunda parte da pergunta. Quando me perguntam donde sou respondo-lhes Portugal que às vezes já é complexo que chegue identificarem onde fica. E se me perguntarem especificamente "de onde?" respondo "Porto", porque é uma referência mais simples e para todos os efeitos não está longe da verdade...
As viagens que faço em 90% dos casos são por puro prazer. Aprendo mais sobre mim e sobre o que me rodeia a viajar do que em qualquer outra atividade. Mas também não desgosto de viajar por razões profissionais e ultimamente tem sido cada vez mais frequente.

- A tua área profissional está directamente ligada às artes; como analisas o trabalho feito no Concelho quer com os "trofenses" quer com quem vem de fora para, de alguma forma, actuar na Trofa. Vou mesmo mais longe, que conselho gratuito podias deixar se por acaso "quem manda" ler esta entrevista?
-O trabalho que o Executivo tem feito para com os trofenses ligados às artes e até mesmo ao desporto é medíocre. Faltam iniciativas, faltam apoios, mas acima de tudo falta visão e espírito empreendedor. Com pouco faz-se muito, e eu sou exemplo disso, mas para isso é preciso vontade. Para ser sincera vejo mais rapidamente os próprios cidadãos e as coletividades locais a organizarem iniciativas interessantes, com os poucos recursos que dispõem, do que a Câmara, que infelizmente continua a apostar em formatos populares colocando em segundo plano aquele que deveria ser o objectivo maior - a educação cultural.
Se alguém "que manda", como lhe chamaste, ler isto - o que honestamente duvido - o conselho gratuito que posso dar é valorizem a juventude porque é dela que depende este concelho. Criem-lhes condições para fazerem da Trofa algo maior do que um mero dormitório como é nos dias de hoje

- Era possível a MEDIAsounds existir e ter sede na Trofa?
- Duas das pessoas que compõem a MEDIAsounds são da Trofa, portanto não é uma ideia descabida que a nossa sede fosse lá. Contudo não existe um pólo criativo ou uma incubadora artística que nos crie o networking necessário de que dispomos atualmente em Gaia.

- E como corre o projecto MEDIAsounds? Expectativas?
- Corre lindamente. Estamos a todo o gás a trabalhar em várias frentes, e crescemos enquanto equipa sendo agora 4 pessoas em full-time. Temos tido clientes cada vez mais interessantes e com maior notoriedade e é para mim um sinal de grande orgulho perceber que os nossos clientes são os nossos melhores comerciais porque recomendam-nos entusiasticamente a outros por estarem satisfeitos com o trabalho que desempenhamos. Por isso vejo o futuro com bons olhos e sinto-me muito satisfeita com os resultados obtidos. Quando te entregas de alma e coração a uma causa, neste caso a uma empresa - a MEDIAsounds, é muito gratificante ver esta evolução e sentires que as pessoas reconhecem o teu mérito e esforço. Que venham mais e mais trabalhos, até porque somos uma das pouquíssimas empresas de comunicação cultural que se mantém na Invicta e não cedeu à centralização de se mudar para Lisboa onde infelizmente tudo acontece. Nós preferimos continuar a ser guerreiros e portanto sacrificamos a nossa vida pessoal indo regularmente à capital mas mantendo-nos a Norte para estar mais próximas dos nossos clientes.

- Existem mais projectos além da MEDIAsounds?
- Em tempos existiram projectos paralelos com menos expressão mas atualmente a minha prioridade profissional é de facto a MEDIAsounds que atua em diferentes áreas. No meu caso em particular faço road management, produção, gestão de contas e assessoria de imprensa. Mas dá-me gozo ter várias direções, obriga-me a ser polivalente e isso ajuda-me a evoluir.

- E a Carina Silva?
- A Carina Silva é e sempre será uma sonhadora com uma garra e determinação difíceis de demover. Por isso, a nível pessoal pretendo continuar as minhas viagens, sempre que possível, porque são sem dúvida uma importante parte da minha vida. Estou aliás segura de que tenho um grupo de amigos grande espalhado pelo mundo à espera de ser conhecido. Pretendo continuar a aproveitar o pouco tempo livre que tenho para estar com as pessoas de quem gosto e que me fazem feliz, e se possível contrariar essa rotina para ter sempre alguma aventura e emoção. Sou carneiro e isto da constante insatisfação não é fácil (risos).
E de resto quero continuar a crescer como indivíduo tentando deixar o mundo um pouquinho melhor do que o encontrei. Parece cliché mas se todos fizermos isso estou certa de que o futuro será bem mais risonho.
Aproveito para agradecer o vosso convite e o facto de acharem que por alguma razão mereço ser evidenciada no E a Trofa é Minha. É para mim sinal de grande orgulho e satisfação porque de facto reconheço o excelente trabalho que os colaboradores do blog em questão têm feito. Houvesse mais meios independentes como este, mantenham-se no ativo por muitos e bons anos!

- Muito obrigado Carina! Gostava que desenvolvesses mais o tema das tuas "viagens"... e perguntar se já começaste a planear a próxima?
-  As viagens acompanham-me há muitos anos e são de facto uma parte muito importante para o meu bem-estar e para o meu crescimento. Sinto que é algo que já faz parte da minha rotina e honestamente sinto-me muito feliz quando pego na mochila e vou em direção ao aeroporto.
Não o vejo como um custo, mas como um investimento. Já conheci pessoas maravilhosas que se tornaram minhas amigas nas viagens que fiz, aprendi a falar outros idiomas, tornei-me mais tolerante e paciente, mas penso que o exercício de relativização dos problemas face aos contextos que encontro nos destinos que escolho é talvez o que mais salta à vista.
Sim, como é lógico já estou a pensar nas próximas. Não em viagens de trabalho que tenho algumas nos próximos meses, mas em viagens de lazer e aí no meu top 3 estão a Islândia, a Tailândia e o Japão.
Vamos ver para onde aponta a bússola primeiro :) 

- Por ultimo... durante a entrevista foste deixando algumas "mensagens" muito pertinentes a respeito do Concelho da Trofa, há mais alguma mensagem que queiras passar?
- Gostava que quem de direito entendesse que a educação e a cultura são fundamentais para termos uma cidade atrativa para a sua população e são pilares imprescindíveis para formarmos com integridade e visão a juventude que um dia assumirá os comandos da Trofa. Chega de apostas popularuchas para cumprir calendário, chega de eventos feitos em cima do joelho para conquistar votos, e acima de tudo chega de brincar com os dinheiros públicos quando os mesmos poderiam de facto estar a ser canalizados para algo com interesse. 
Com isto quero frisar que não estou a puxar a sardinha à minha brasa, até porque infelizmente a única vez que fui chamada à Câmara da Trofa para apresentar uma proposta de programação fui lá perder o meu tempo porque a adjudicação foi feita aos mesmos parceiros de sempre. Mas existe gente de muito valor e com muita criatividade neste concelho, só precisam é de uma oportunidade para brilhar e essa oportunidade nem sempre significa dar um budget.
Para concluir, espero que a Trofa venha a transformar-se num concelho que trabalha para a sua população e não o contrário. 
Obrigada uma vez mais pela oportunidade de me exprimir.



Nas minhas deambulações pessoais e profissionais fui e vou-me cruzando com a Carina Silva, não posso escrever que é minha amiga, nem sequer a conhecia tão bem como fiquei a conhecer com esta entrevista, mas sempre vi nela carácter e temperamento robusto, moderado por uma simpatia natural e uma delicadeza que certamente vem desde o berço. Facilmente se percebe que a Carina Silva não é formada com meias-palavras nem com superficialidades, que agarra a vida, a sua e às vezes as dos outros, com a certeza que ela, a vida, não espera e que vale a pena usufruir, dispor, gozar e desfrutar até ao último sopro.
Foi a primeira Mulher que entrevistei nestas "Simples Entrevistas" para idiossincrasia do EATEM e não poderia ser outra.

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