Vou perguntar ao mestre se não quer levar para o seu jardim, alguns esteios da Trofa…

por João Pedro Costa 0

Alberto Carneiro é um nome incontornável da escultura, de renome mundial, nasceu em S. Mamede do Coronado (Trofa), em 1937. Na sua terra natal, construiu um Jardim-Escultura, contíguo à habitação onde cresceu e tem o seu atelier para desenvolver um vastíssimo trabalho, tendo referido “é em S. Mamede que o homem sonha e a obra nasce”.

Lá está patente a sua maior obra, em dimensão, de acesso permanente ao público, um local incrível que foi “redescoberto” numa das últimas atividades do Clube Slotcar da Trofa, na qual foram promovidas “7 maravilhas da Trofa”, onde, num jardim, o mestre “plantou” 435 esteios de granito e um tronco de castanheiro, criando uma obra invulgar.

O artista contemporâneo referiu que “é a conjugação da Natureza com a natureza do homem”, especial por ser na sua terra natal e “ser constituída com matéria que vem da paisagem”. “O granito e a articulação entre os vários elementos criam uma espécie de labirinto através do qual se passa e se pode ir reconstruindo a imaginação”. É uma alusão à agricultura que marcava a vida das gentes de S. Mamede do Coronado e à infância do escultor, à qual lhes juntou um tronco de castanheiro por ele esculpido vagarosamente e com o carinho com que foi trabalhando toda a matéria que transformou em obras de arte.

Uma obra que resultou do entendimento entre o mestre e a Junta de Freguesia local, que zela pelo espaço, num processo que começou em 2009, com um desafio lançado por José Ferreira, presidente da Junta “para que deixasse um legado às gerações futuras da freguesia”. Num processo que inicialmente foi difícil, segundo declarações públicas de José Ferreira, mas cujo autor acedeu em 2012, tendo concretizado a sua obra entre 2013 e 2014.

Por ineficácia de sucessivos autarcas que tem gerido os destinos da Câmara Municipal da Trofa, grande parte do espólio do mestre foi confiado a Santo Tirso, já em 2015, estando patente na Fábrica de Santo Thyrso, no concelho vizinho!

Alberto Carneiro foi o grande impulsionador da criação do Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso (MIEC), do qual é diretor artístico nacional. Criado oficialmente a 20 de outubro de 1996, o museu tem por base o espólio recebido dos simpósios internacionais de escultura contemporânea ao ar livre, realizados em Santo Tirso desde 1991. Agora, o escultor decidiu doar todo o seu espólio à Câmara Municipal de Santo Tirso, negando o convite à Fundação de Serralves que pretendia receber o espólio do artista. Alberto Carneiro explica que “a afinidade com o concelho tirsense, de onde é natural, e as condições de conservação pesaram na decisão”.

“Quem não estiver bem que vá para Santo Tirso”, alguém com responsabilidade políticas disse recentemente, onde muitas outras obras do mestre podem ser visitadas por todos os que acreditam que a cultura é fundamental para a preservação da identidade de um povo...

Carreira do mestre Alberto Carneiro:

Corria o ano 1947 quando o escultor iniciou a sua aprendizagem artística como imaginário, numa oficina de santeiros, na qual trabalhou durante 11 anos. Fez, entretanto, os estudos liceais, frequentando o ensino noturno na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, no Porto, e na Escola António Arroio, em Lisboa, e já em 1961 voltou ao Porto para estudar Escultura na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Concluída a licenciatura, partiu, em 1968, para Londres, onde frequentou uma pós-graduação na Saint Martin’s School of Art (1968-1970) e foi aluno do escultor britânico Anthony Caro e do seu discípulo, Philip King. Entre 1975 e 1976, anos em que estudou as formas e os procedimentos estéticos resultantes do amanho da terra, foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian.

Estreou-se a expor ainda nos tempos de estudante: coletivamente, em 1963 e a título individual em 1967, na Escultura na Escola Superior de Belas Artes do Porto - ESBAP.

A sua atividade artística teve início na década de 70. Foi professor de Escultura na ESBAP (1972-1976), assumiu a direção pedagógica e artística do Círculo de Artes Plásticas da Universidade de Coimbra (1972-1985) e lecionou na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. É autor e coautor de textos e livros sobre Arte e Pedagogia e participou em cursos, debates e seminários sobre Arte e dinâmica corporal.

Foram-lhe atribuídos variados prémios e distinções, dos quais se destacam o Prémio Nacional de Escultura (1968), o Prémio Nacional de Artes Plásticas da Associação Internacional de Críticos de Arte (1985) e o Prémio de Artes do Casino da Póvoa (2007), galardão composto por uma recompensa pecuniária, pela aquisição de uma escultura do premiado (“Sinais e Sabedoria da Floresta”, de 2000-2001) e ainda pela publicação da monografia “Alberto Carneiro – Lição das Coisas”, com texto de Bernardo Pinto de Almeida e direção artística de Armando Alves. Foi galardoado pela Câmara Municipal de Santo Tirso e pela Câmara Municipal da Trofa com medalhas, como forma de reconhecimento pelo seu trabalho e pela divulgação do nome dos dois concelhos além-fronteiras.

 

 

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