Pluri-Pan-Multi - Paulo Acácio Ramos em entrevista

por Francisco Sousa Barros 0

Fotógrafo, Pintor, Desenhista, Escritor e outras "mumunhas da área estética". Pensador. Já expôs trabalhos em Lisboa, Setúbal, Trofa, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo. Discurso directo, demasiado directo para uma sociedade normalmente habituada a cuidados exagerados e a panos quentes. Axiomático. Licenciaturas em Ciências Biológicas e Educação Artística. Formação superior em diversas áreas, que vai, entre outras, desde a criação de Camarões até Psicologia da Arte. Sensitivo. Residiu em Lisboa, Rio de Janeiro e Trofa, entre outros locais "de passagem". Foi amigo e professor de diversos artistas brasileiros de várias áreas do "fazer artístico".



Descobri, na Trofa, há cerca de 20 anos, o Paulo Acácio Ramos. Rapidamente percebi que ele não fazia parte da plástica comunidade em evolução onde eu também me tentava inserir. Era de um outro tipo de puzzle. Passei com ele, muitas vezes, longas deliciosas horas de conversa entre muita música. Conversas quase nunca sobre a Trofa.
Faltava essa... :

- O que representa para ti a Trofa?
- Representa o lugar onde nasci, o lugar onde habito actualmente e onde vou vivendo conforme me é dado viver. Tenho uma certa mágoa com os lugares que não dão atenção aos seus habitantes e autóctones, a Trofa não sabe tirar proveito dos seus cidadãos, como fosse uma micrografia esbatida de Portugal.

- Quando fora da Trofa como olhas para ela... o que representa para ti?
- Não olho para ela, não a levo na bagagem, lembro-me da minha casa e das minhas coisas, que poderiam estar em qualquer lugar do planeta. Não sou um ser bairrista ou patriótico, considero-me uma entidade terrestre, logo não tenho de enraizar-me nem na Trofa nem em lugar algum... Quando olho para a Trofa, seja de longe ou seja de perto, penso e concluo que é um lugar conflituoso, complicado e com pessoas difíceis, a Trofa e seus habitantes têm de aprender muito, ainda, e crescer nas suas mentalidades e comportamentos, não se pode querer ser do século XXI com cabeças do XVI...

- Sentes-te Trofense?
- Creio que a resposta anterior apontou para o "não sentir-me" mas de forma não absoluta e muito menos concreta, sim, sinto-me trofense, sinto-me como um ser que pode fazer muito pela Trofa se a Trofa quiser e pedir que eu faça por ela. Já tentei de um tudo para e pela Trofa. Quando tive uma loja de decoração, por exemplo, os trofenses que lá iam faziam-no de forma "cusca" (um tipo de um para saber "quem é" e o "que anda a fazer" e depois virar as costas e ir dar à língua com outros como eles, as melhores e mais interessantes coisas que aconteceram foram sempre com clientes extra-Trofa que descobriram a loja por um acaso do destino. Por outro lado, nas diversas exposições do meu trabalho artístico que aconteceram em área trofense, Seja No Salão Nobre da AHBVT ou na Casa da Cultura e, ainda, no Espaço T... vieram pessoas da Maia, do Porto, de Famalicão etc, mas trofenses foram os usuais políticos de ocasião e familiares próximos, os outros, por assim dizer, nem vê-los ou, sequer, sabê-los! Em suma, sinto-me trofense com relação à Trofa e não-trofense com relação aos trofenses.


- Com tão diversificadas áreas de formação, como e onde as aplicaste profissionalmente?
Sempre fui professor, sempre quis ser professor, sempre adorei explicar, facilitar acessos, vencer obstáculos, ensinar sempre foi um desafio fascinante para mim, principalmente por que tive professores maravilhosos em todos os estágios do ensino, desde a minha mãe, que me ensinou a ler e escrever e a fazer contas até ao mais alto dos gabaritos de mestres na formação superior. Na área da Biologia estive envolvido com vários projectos de pesquisa, na das Artes passei por tudo, incluindo o Teatro, tendo estado inclusive em cartaz por duas vezes. O Turismo surgiu como consequência dessa minha sede de conhecimento, pois concluí que para saber não basta ouvir o que os outros tem a dizer, é preciso ir e ver, tirar conclusões, fazer ilação, perguntar-se e responder-se.

- ... Com uma vida tão rica em experiências e vivências, como é para ti viver hoje na Trofa?
- Chato e complicado, a vida por cá é mais acessível, mais calma, mais pacata... vim do Rio para Lisboa com um contrato de trabalho que ao fim de um ano não vingou, então mudei-me para a Trofa e trabalhei para operadoras de turismo durante muito tempo, mas o facto de ter ficado desempregado há 7 anos e ter de andar a ouvir que possuo "formação a mais" conhecimento a mais" "idade a mais""sotaque de brasileiro a mais" para que me contratem tem feito as coisas serem muito estranhas e difíceis... o que me mantém é o amor que tenho pela pessoa com quem divido a minha vida há 21 anos, completados neste Fevereiro 2016... Além do mais, os portugueses acham que toda a gente tem de ter uma carta de condução... até para empregos que não obriguem a estar a conduzir de um lado para o outro... mania de carros e de que todos têm de estar disponíveis para fazer "favorzinhos" caso algo se apresente;portugueses em geral e trofenses especificamente...

- De que forma analisas o facto de, com currículo e experiência substancial em diferentes áreas, não conseguir um simples emprego na terra que te viu nascer e onde vives?
- Como já disse, não compreendo a dificuldade em conseguir um emprego (ou trabalho, se assim o preferirem) pois sou muito bem preparado para qualquer posto a que me candidate... creio que o medo das pessoas em contratar alguém que "lhes parece melhor do que elas" é o grande responsável. Tenho quase 53 anos, assim torno-me difícil de dobrar, tenho um vasto leque de conhecimentos específicos e gerais, assim sou difícil de humilhar, tenho uma capacidade intelectual acima do normal, assim não posso ser visto como um simples normal. Isso assusta e põe na defensiva a maior parte dos empregadores.

- E como é ter uma assumida relação pluri-pan-multi-sexuadada nesta cidade "que quer ser do século XXI com cabeças do século XVI..."?
- A relação que tenho neste momento é com um indivíduo do mesmo sexo que o meu. Não estou muito preocupado em divulgá-la ou fazer dela um carro alegórico, é assumida para todos os que considero amigos e famílias dos dois envolvidos. Mas não andamos por aí a hastear bandeiras ou a fazer algazarra do que amamos ou deixamos de amar, o Trofense é, via de regra, retrógrado e conservador, não devia mas é, logo, mesmo que saiba, finge que não sabe e depois põe-se a falar pelas costas.
Não perguntei, nem perguntarei, à Trofa a sua opinião sobre a minha relação e comportamento sexuais, só a mim cabe julgar o que é melhor para o meu corpo e o meu prazer... carnal ou espiritual. Não preciso de autorização para ser ateu, sexualmente activo ou apolítico...
Sou o que sou, e isso basta-me... por enquanto!

- Que mensagem gostarias de passar, tendo em conta o teu percurso e vivências, aos jovens e aos menos jovens do concelho?
- Que não se prendam nem se deixem prender, que viagem, que aprendam, que tenham ideias e que as ponham em prática. O mundo está cada vez mais difícil, a todos os níveis. Digo que sejam felizes, que se respeitem e respeitem os outros, que aceitem as diferenças como forma de crescer e não uma "maneira de derrubar" os outros. Que amem, amar é tudo, amor é a abstracção mais concreta que um ser humano pode querer. amem e deixem-se amar. Amem pessoas, amem lugares, amem a língua que falam, amem animais e plantas, amem o planeta e acima de tudo e de todos amem a eles próprios, sem egoísmo ou egocentrismo, apenas como forma de ser sempre melhor num segundo seguinte do que se foi melhor num segundo anterior.


Sempre pensei entrevistar o meu Amigo Paulo Acácio Ramos. Sei que tem muito para dizer sobre diferentes temáticas, já o tinha convidado anteriormente numa circunstância que ainda não se concretizou. Quando a ideia das "Simples Entrevistas" para o EATEM surgiu, senti logo que as primeiras respostas públicas que ia conseguir dele seriam para este desafio, mas certamente que nos vamos encontrar nestes mesmos papéis noutro momento.
Aqui o ponto, o foco, é a Trofa, e o Paulo deixou uma visão com gradações vindas de diferentes degraus. Era um dos propósitos.
Outro intuito era dar a conhecer à Trofa o Paulo...




 

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