Recursos Tímbricos Trofenses - André NO em entrevista

por Francisco Sousa Barros 0

Por ocasião da apresentação da Orquesta Urbana"uma proposta de criação musical, de cariz cultural, social e humano, concebida e dirigida por André NO com o apoio da Câmara Municipal da Trofa. Formada por mais de 60 músicos provenientes de diversos grupos musicais organizados do concelho da Trofa, de diferentes faixas etárias e correntes musicais. O reportório é composto pelo criador, procurando um cruzamento das diferentes linguagens musicais e da exploração dos recursos tímbricos dos vários instrumentos utilizados.", desafiei o André No a responder a umas perguntas para a estreia do "Simples Entrevistas" no EATEM.
 


- O que representa para ti a Trofa?
- Cresci na Trofa e aqui estão todas as minhas raízes. Até aos meus 18 anos, que coincide com o início da minha estadia em Espinho durante 3 anos onde fiz o Curso Profissional de Música em percussão, vivi a Trofa intensamente. Acho que não deixei muito por fazer nessa altura, disfrutei da Trofa e dos amigos que fiz para a vida. Entre brincar na rua, os escuteiros, as bandas de rock e espaços de convívio, fiz os meus amigos, as minhas escolhas, aprendi, partilhei, sonhei, fiz planos e criei laços. Na Trofa dei os meus primeiros passos na música, tempos em que as coisas aconteciam e fazíamos acontecer. Havia muitas bandas de rock e vivia-se um bom ambiente musical. Não que fossem bandas ou músicos excelentes, mas a entrega, a honestidade e o amor com que se fazia música, geravam um ambiente engraçado e muito particular.

-  ... e como vês a Trofa quando estás distante?
- Com a minha saída para estudar e me dedicar a fazer o que mais queria, a Trofa passou a porto de abrigo, onde recarregava energia, entre família e amigos. Profissionalmente precisava de estar fora, os concertos, ensaios e colegas de trabalho não estavam cá. Era a altura ideal para absorver tudo o que tinha ao meu alcance, conhecer gente, culturas, experimentar e vivenciar cada momento. Esta profissão tem-me proporcionado viagens constantes dentro e fora do país. Entre trabalhos de Norte a Sul  do país e estrangeiro, Espanha, França, Alemanha, Suíça, Holanda, Dinamarca, Bélgica e Cabo Verde, olho para a Trofa como a minha casa. Como na minha própria casa, não tenho uma casa grande, não tenho a melhor mobília, o sofá mais confortável, a cama mais aconchegante, nem a cozinha equipada com o ultimo grito da tecnologia, mas é a melhor casa do mundo, nela tenho tudo à minha medida, desde a família que nela habita ao tapete de entrada. E a Trofa para mim é isto mesmo, cá tenho uma vida, com memórias, família, amigos, lugares... mesmo não sendo o sitio mais espectacular do mundo. 

- Sentes-te Trofense?

- Cada vez mais me sinto Trofense e parte do puzzle que a compõe.
 


- A tua área profissional está desenvolvida na Trofa?
- Não muito. A música na Trofa não está mais presente e activa, porque nós trofenses deixamos de acreditar na Trofa, do ponto de vista de quem consome, de quem programa e de quem a executa e compõe. 

- O que se pode fazer mais?
- Primeiro passo, é querer viver a Trofa, porque quem faz a Trofa somos nós, os seus habitantes. Ultimamente tenho vindo a desenvolver actividade no concelho da Trofa, em algumas freguesias, como São Martinho, Muro e Alvarelhos e conheci jovens, como o Pedro Santos, que me fizeram repensar e reaprender a viver a Trofa. São jovens muito activos, criam, programam, são intervenientes e são consumidores. Ao ver este movimento percebi que realmente as coisas só acontecem se quisermos e fizermos para que aconteçam. A minha ausência foi prolongada, mas agora procuro e estou disponível a viver para a Trofa e da Trofa. 
O Projecto Sons Urbanos, onde nasceu a Orquestra Urbana, que tenho vindo a desenvolver com o Município, nasceu na sequência deste meu desejo.

- Sentes que foste reconhecido profissionalmente naquela que consideras ser a tua terra?
- Não lhe quero chamar reconhecimento, mas penso que ultimamente me têm dado crédito. Durante muito tempo as pessoas não compreendiam a minha profissão. Sinto que por vezes as pessoas olhavam para mim como um lunático, que vivia numa ilusão sem objectivos. Era muito frequente... e hoje por vezes ainda surge este diálogo: 
- “O que fazes?”
- “Sou músico.”
- “Sim, mas em que trabalhas?”
- “Música”.
- “Mas não trabalhas?”

...
Parece anedota, mas não é. Existe esta dificuldade em perceber o que faz um músico. Se dás aulas, és professor, se és músico, devias estar numa orquestra. Só não toco numa orquestra... Faço tantas coisas na música, dou aulas, sou baterista/percussionista de bandas, produzo, componho...
Em relação à minha terra, faltava-me voltar para cá e ter esta oportunidade de poder dar a conhecer o trabalho que tenho vindo a desenvolver ao longo destes anos.

- Que mensagem deixas a quem gostaria de seguir uma área semelhante à tua?
- O espectáculo, a adrenalina e a alegria do palco, os aplausos, o calor do público e tudo o que de bom a música nos proporciona, são só o resultado de muito trabalho, estudo, dedicação... desilusões, frustrações... acima de tudo muito amor pela música e persistência, honrado por conseguires viver do que mais gostas de fazer.

O trajecto do Andre No vai desde a mítica banda trofense Acidmass, o Curso de Percussão na Escola Profissional de Música de Espinho, foi baterista na banda residente do programa Portugal no Coração da RTP1, os Glauco, até a actual Orquesta Urbana, entre tantos outros projectos e trabalhos em Portugal e no estrangeiro, que seria necessário apenas um post para destacar convenientemente todo o expediente na sua área profissional. 
O André cruza as ruas do concelho quase sempre como um anónimo, com quase todo o seu percurso incógnito à comunidade local. Talvez a sua evidente (e positiva) humildade não o favoreça numa terra de vaidades simplórias e bacocas.

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