O caso da agricultura no concelho da Trofa

por Silvéria Miranda 0

O texto que se segue é da autoria de Vasco Flores Cruz.

Olá amigos, com o objectivo de contribuir para a discussão dos problemas do concelho, resolvi escrever três textos sobre a agricultura, a floresta e a conservação da biodiversidade. Três temas que não parecem constar da agenda política de nenhum dos partidos, mas cuja discussão me parece urgente.

Aqui vai o primeiro:

A Agricultura

A agricultura no nosso concelho vive uma situação que me parece preocupante. Quase todos os agricultores produzem um só produto e todos eles produzem o mesmo: o leite. Mesmo que a produção de leite fosse altamente rentável, não prejudicasse o ambiente e respeitasse os direitos dos animais, qualquer alteração a este sistema (por exemplo, uma doença que atinja as vacas, um contaminante no leite, uma praga que afecte o milho ou a erva ou, ainda mais provável, uma mudança nas leis que regem o sistema de cotas e subsídios) poderá fazer com que toda a agricultura do concelho entre em colapso com graves consequências económicas e sociais.

A Feira Anual da Trofa (muito provavelmente por “interferência” das empresas de sementes, químicos e maquinaria) continua ano após ano a promover e a refinar este esquema como se não houvessem alternativas.  E neste mercado muito volátil, cheio de falsas oportunidades e manipulado por lobby’s, os agricultores sentem enorme dificuldade em encontrar culturas alternativas ou formas de escoar os seus produtos.

Para além do mais, o método de produção utilizado pelos agricultores Trofenses para produção de leite traz graves consequências ambientais.

Praticamente toda a área agrícola do concelho está ocupada pelo cultivo alternado de milho e erva para alimento das vacas leiteiras. O milho plantado no nosso concelho é milho híbrido e, ao contrário do que possam pensar, não é amarelo, pode ser cor-de-rosa, verde, azul, vermelho ou lilás conforme a marca ou o modelo. Qual a característica especial desta planta? É resistente a herbicida! E, portanto, algum tempo depois de plantar o milho, os agricultores despejam herbicida por todo o campo de forma a que morra tudo… menos o milho. Claro que parte destes químicos acabam nos lençóis freáticos e na rede hidrográfica contaminando os poços, os ribeiros e o rio Ave.

Para além de super resistente, este milho cresce desmedidamente, mas também bebe desmedidamente. Para saciar esta sede, os agricultores usam bombas que  roubam praticamente todo o caudal da ribeira das aldeias e da ribeira de Covelas, que nos meses mais secos quase não desaguam no Ave.

As vacas que vivem presas em armazéns produzem uma grande quantidade de excrementos (mais do que a que é necessária para adubar os campos de milho e  erva) e por diversos caminhos muito deste excesso de nutrientes acaba nos nossos  poços e linhas de água, contribuindo para a sua poluição e eutrofização.

Não sendo eu um especialista em agricultura, o que propunha seria a criação de um gabinete de apoio à agricultura, onde os agricultores pudessem pedir aconselhamento gratuito e não comprometido sobre métodos de produção, estratégias de mercado, acesso a financiamentos e subsídios, etc.

Os objectivos deste gabinete seriam, por exemplo:

– promover a produção de uma variedade de culturas rentáveis e alternativas ao leite (e, sempre que possível, ambientalmente sustentáveis);

– valorizar os produtos tradicionais (como, por exemplo, o melão ou as raças de gado autóctones);

– procurar que se estabeleçam protocolos entre os agricultores e o comércio  trofense de forma a que possam escoar localmente os seus produtos.

Certamente existirão outras ideias (porventura até mais válidas) sobre como desviar a agricultura do concelho desta situação de risco económico, social e ambiental, mas alguma coisa tem de ser feita! O que vos parece?

Um abraço,

Vasco Flores Cruz





Silvéria Miranda

Sempre tive como velha máxima que os factos são sagrados e as opiniões livres. Foi com essa premissa que criámos este espaço e é por ela que me rejo em cada palavra que aqui escrevo. Sem qualquer interesse que não o de ajudar a construir uma Trofa melhor, mais justa e apelativa, digo orgulhosamente que sou tanto da Trofa como a Trofa é minha!

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