A Inocência das Facas

por João Pedro Costa 0

A violência, de uma ou outra forma, faz parte do nosso quotidiano! Trazida a maior parte das vezes pelos telejornais, também se afigura no nosso contacto pessoal, manifestando-se de mil maneiras diferentes.

A Cruz Vermelha da Trofa, empenhada em sensibilizar para a temática da violência, que se transforma mesmo num dos maiores flagelo da sociedade, lançou o livro “A Inocência das Facas”, onde participaram 12 autores e outros tantos ilustradores, de onde se destaca a participação do prémio nobel José Saramago.

Pela diversidade de intervenientes, a violência é assim abordada de várias perspetivas, onde num excelente texto da Marta Bernardes, que deu título ao livro, pelo raciocínio de uma criança, conclui que “as facas não têm culpa nenhuma”, pois diz a criança: “ouço histórias de pessoas que se atacam com facas, chegam mesmo a matar-se, a ferir-se, para roubar, ou porque sentem raiva, ou porque já não têm o amor que queriam, ou então porque precisam de dinheiro. É triste e assusta: pais que matam mães, irmãos que se aleijam em brigas, gente que se corta a si mesma.” (…) Mas acrescenta, “depois vejo o meu pai a descascar uma maçã para mim, com a faca da cozinha, que ainda não posso usar, e é lindo ver como a casca desce em cascata para cima do prato. Ando confuso. Se as coisas perigosas não existissem também haveria muita coisa bonita que não se poderia fazer, como os meus recortes de papel de lustro ou a barba do papá”. E conclui, “Acho que afinal as facas não têm culpa nenhuma. Nem a Gillette do papá. O perigo não está nas coisas, está na forma de mexer nelas.”

Valter Hugo Mãe relata-nos a violência exercida sobre os animais, simbolicamente expressa na domesticação de um animal: “ (…) O cão só não gostava de tomar banho de água fria. E quando o menino chamava, ele fugia, preferia ficar só, assim cheio de pó. Há que apanhá-lo sem ele perceber. Porque sujo não pode ficar, e depois, dar-lhe banho com água quente, como toma toda a gente. (…) ”

Raquel Patriarca mexe profundamente com os nossos sentimentos ao contar-nos a história de um menino que se esconde sempre num cantinho lá de casa para não apanhar mais. “ (…) Recolho ao meu canto a apertar-me para não ocupar espaço nenhum. E fico a mastigar as lágrimas, a cara escondida, inchada e feia. Choro baixinho por cada pedaço de corpo que doí, choro pela revolta que me faz tremer, choro por me sentir incapaz. E choro por entender o mundo como um sítio onde os adultos são pessoas de razão e juízo e saber, e as coisas que fazem hão de ser sempre razoáveis e ajuizadas e sábias. E choro porque, se for assim, então se calhar mereço tudo, tareias e insultos, e choro pelo desgosto de ser estupidamente imprestável e uma desilusão para todos (…) ”

José Saramago deixou-nos um texto: “É certo que existe uma terrível desigualdade entre as forças materiais que proclamam a necessidade da guerra e as forças morais que defendem o direito à paz, mas também é certo, em toda a História, só pela vontade dos homens a vontade de outros homens pôde ser vencida. Não é com forças transcendentes que teremos de confrontar-nos, mas sim, e apenas, com outros homens. Trata-se, portanto, de tornar mais forte a vontade de paz que a vontade de guerra. (…) “

São múltiplas as formas de violência que geram sofrimento e desigualdades na sociedade, mais do que a nossa imaginação possa alcançar, normalmente exercida pelos que supostamente têm mais força e poder, sobre os mais frágeis e isolados. Devem, por isso, ser veemente condenadas e julgadas todas as formas de violência. Violência é violência e ponto final.

Violência é não serem tapados os buracos das estradas de uma freguesia, só porque um presidente de câmara é de partido político diferente de um presidente de junta…! Violência é um automobilista, ao desviar-se de um buraco que deveria estar tapado, atropelar um peão que segue na berma da estrada. Violência é uma família, obrigada a viajar de mota por falta de transportes públicos, cair num desses buracos.

Violência é uma coletividade ser perseguida e prejudicada, por quem deveria defender e promover a sua existência, em prejuízo da sociedade que perde as suas múltiplas ações. Violência é alguém agir com vista à desmobilização de pessoas que trabalham de forma gratuita pelo bem-estar da comunidade, só porque os seus dirigentes exercem a liberdade de opinião.  

Violência é os profissionais da comunicação social serem impedidos do acesso a notícias de âmbito público, violando os direitos de quem trabalha e simultaneamente prejudicando os munícipes que gostam de saber notícias da sua terra.

Violência é alguém que trabalha num organismo ser perseguido no seu posto de trabalho, com prejuízos para o erário público, a que somam a constante humilhação sob a observância e cumplicidade de todos os que são conhecedores de tais atos.

Violência é as pessoas ditas “normais” acharem a violência normal…

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