Presidente Sérgio Humberto apropria-se de recursos públicos para promover a sua imagem

por João Mendes 0

Há momentos em que os responsáveis políticos não sabem separar as suas responsabilidades públicas dos seus projectos e ambições pessoais. A história está cheia de exemplos de altos dirigentes que confundiram a sua pessoa com o cargo que ocupam, esquecendo-se, porventura, que o cargo é eterno mas o titular é efémero. Talvez por isso alguns políticos procurem associar a vigência do seu mandato a obras e inaugurações pomposas. Talvez por isso este executivo, liderado por Sérgio Humberto, se tenha esforçado tão arduamente para conseguir uma festa de arromba nos festejos do 17º aniversário do concelho ao qual associou, a meu ver estrategicamente, a inauguração da obra de união dos parques, que de resto teve um custo exorbitante a rondar os 120 mil euros, uma obscenidade nestes tempos de absoluta escassez, vinda de um executivo composto pelos mesmos partidos que até há poucos dias nos vinham impondo uma narrativa de austeridade além-Troika e de combate ao despesismo. Despesismo? Há freguesias na Trofa com orçamentos anuais inferiores ao custo desta inauguração. Pão e circo.

Estratégias de autopromoção à parte, a ideia de inaugurar a obra no dia do aniversário do concelho faz algum sentido se considerarmos que permitiu juntar ambas as celebrações num só evento. O que não faz sentido é termos um parque mais que pronto há meses e, num passe de mágica, consegue-se desbloquear o processo mesmo para a inauguração bater certo com o dia 19 de Novembro. Mas em política não há coincidências. Nem muita originalidade. Os mesmos que no passado criticaram Joana Lima por ter inaugurado o Parque das Azenhas sem que a obra estivesse concluída são aqueles que agora aplaudem o momento de consagração pública do líder que não se inibiu de inaugurar o Parque Nossa Senhora das Dores/Dr. Lima Carneiro com a concha acústica ainda em construção. Manifestamente atrasada. Mas não faz mal. Viva o partido e que se lixe o resto!

Porém, o grave em todo este processo, a meu ver, é o momento em que o cidadão Sérgio Humberto se apropria de um recurso público, neste caso o vídeo de promoção da inauguração da obra, e o publica na sua página pessoal de Facebook, a partir da qual o próprio Facebook da Câmara Municipal da Trofa, entidade que requereu, aprovou e pagou o referido vídeo, fez a sua partilha. Não devia ser ao contrário? É claro que devia. Já aqui há uns tempos nos deparamos com uma situação em que o Facebook da CMT foi usado para veicular propaganda política da coligação Unidos pela Trofa, um abuso de um recurso público que não está ao serviço do PSD e do CDS-PP mas sim da Câmara Municipal da Trofa. Desta vez, um conteúdo da Câmara Municipal da Trofa, pago com o dinheiro de todos nós, foi usado por Sérgio Humberto na sua página pessoal, que se destina a promover o próprio Sérgio Humberto e não os interesses da Trofa, o que constitui um novo abuso. Alguém tem que explicar a estes senhores que eles não são a autarquia. São escolhidos e pagos para a servir. Orgulho trofense? Eu diria antes vergonha e não lhe associo o "trofense" que os trofenses são um povo respeitável que, acredito, não se revê neste tipo de abuso.

Compreende-se a jogada. Sérgio Humberto tem feito os possíveis por promover a sua imagem junto dos trofenses mas uma parte significativa da população não parece apreciar um autarca que convida quem com ele não concorda a emigrar para Santo Tirso, que desrespeita munícipes de forma gratuita e que tenta silenciar a comunicação social levando a cabo exercícios de violação da liberdade de imprensa. Usar um vídeo emotivo de um dia marcante para fazer uma publicação memorável gera muitos “gostos” e partilhas no Facebook, de resto como nunca tinha acontecido ao autarca nas redes sociais, visto que publicação alguma na sua página pessoal se tinha alguma vez aproximado das 500 partilhas. Nada contra o senhor querer promover a sua imagem, da sua vida pessoal sabe ele. Mas era importante que um conteúdo público e institucional não lhe fosse facultado antecipadamente para que o seu proprietário, a Câmara Municipal da Trofa (leia-se: todos nós), tivesse que o partilhar a partir da sua página pessoal. Ou será que as pessoas que gerem a página pessoal de Sérgio Humberto são as mesmas que gerem a página institucional da autarquia e cometeram um "lapso"? Isso explicaria muita coisa. Muita coisa mesmo.

P.S. Como o caro leitor poderá verificar em baixo, tentei questionar o sucedido na página da autarquia, mas as pessoas que gerem a página da CMT parecem ser bastante selectivas quanto aos municipes a quem respondem, sob as ordens sabe-se lá de quem, e optaram por não me responder quando os questionei sobre os factos aqui relatados, há uma semana atrás. O que, no meu entender, é ilustrativo de toda esta situação.

 

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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