Terá sido este o motivo que levou o presidente Sérgio Humberto a tentar censurar a Trofa TV?

por João Mendes 0

Já muita tinta correu sobre o episódio de opressão da liberdade de imprensa da Trofa TV/Notícias da Trofa protagonizado pelo presidente da Câmara Municipal da Trofa e pouco haverá a acrescentar. Foi um dia triste para a democracia no nosso concelho e o autarca, fechado sobre si mesmo e sobre o silêncio dos seus apoiantes, continua a agir como se nada se tivesse passado e nem humildade para pedir desculpas pelo sucedido teve.

Contudo, e para além dos factos, há algo neste episódio que me continua a suscitar algumas dúvidas: o que levou Sérgio Humberto a tomar tal atitude? Sendo o autarca é uma pessoa inteligente, assumo que terá noção das consequências dos seus actos e como tal percebe, de forma cristalina, que aquilo que fez foi muito grave e que teria repercussões que afectariam uma imagem que, aos olhos de parte significativa dos seus munícipes, é credível. Porque motivo terá então insistido neste caminho, que nada de bom lhe poderia trazer?

Tenho um palpite. E o meu palpite diz-me que a postura nervosa e inconsequente do presidente da CM da Trofa poderá ter derivado da história mal contada da vinda do metro para a Trofa. Não sendo minha intenção colocar em causa que a obra irá mesmo avançar – fiz questão de a saudar neste espaço, poucos dias depois do seu anúncio – a verdade é que os trofenses foram alvo de informações algo distanciadas da realidade. Refiro-me à publicação do dia 5 de Outubro no Facebook da CM da Trofa, onde se podia ler “Metro do Porto estende Linha Verde ao Concelho da Trofa. Quem lê um título garrafal desta envergadura, fica com a sensação que se trata e algo consumado.

Mas a publicação não ficava por aqui. E no texto que muitos não leram, ficando-se apenas pelo slogan ao qual se quis dar destaque, podemos ler que se trata da “homologação de um Protocolo de Cooperação”, firmado entre a CM da Trofa, a CM da Maia e a CCDR-N e homologada pela Secretaria de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações e pela Secretaria de Estado do Tesouro e Finanças. Quer isto dizer que não existe uma decisão final sobre o tema, apesar do anúncio que refere, sem reservas, a extensão da linha até ao nosso concelho? Não.

A 15 de Outubro, três dias após o já referido momento de violação da liberdade de imprensa da comunicação social local, surgia no Porto Canal uma notícia que parecia contrariar aquilo que havia sido anunciado. A peça refere que o protocolo é afinal “um memorando de trabalho” e que demonstra apenas interesse na obra, não garantindo a sua execução. Questionado pelo Porto Canal, Carlos Neves, vice-presidente da CCDR-N, afirma não existirem garantias de que a obra avance, apesar da vontade dos envolvidos e fazê-la avançar. No entanto, e tal como era já sabido, a Comissão Europeia não considera a obra prioritária. Carlos Neves reafirma o interesse regional da obra mas assume, no final da peça, que não pode garantir que o projecto seja mesmo para avançar, até porque nem o modelo de financiamento está ainda estabelecido. Significa portanto que continuamos no campo das intenções.

Posto isto, assumo que esta incerteza quanto ao avanço da obra poderá ter estado na origem do comportamento antidemocrático do presidente Sérgio Humberto. Porque depois de um anúncio tão pomposo, que foi inclusive disseminado por várias figuras ligadas aos partidos no poder, explicar aos habitantes do Muro presentes na sessão pública de 12 de Outubro que a história afinal não tinha sido bem contada, perante a objectiva da comunicação social, poderia gerar a habitual desilusão a que os trofenses se vêm habituando no que ao dossier do metro diz respeito. Porém, o tiro saiu pela culatra e não só assistimos a um episódio negro na história democrática do concelho, como sabemos hoje que fomos manipulados por publicidade enganosa. Quererá isto dizer que o metro afinal não vem? Com certeza que não. A Trofa precisa desta obra e todos a devemos saudar. Porém, na prática, ainda não há extensão nenhuma da linha do metro. Apenas propaganda.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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