Sobre o boicote do presidente Sérgio Humberto à liberdade de imprensa do Notícias da Trofa

por João Mendes 0

Começo a achar que o presidente Sérgio Humberto tem um sério problema com a comunicação social local por resolver. Ora bem, dizer que o problema é com a comunicação local será um exagero meu, pelo menos a julgar pela aparente boa relação que vai mantendo com o Correio da Trofa, repleto de colunistas de direita e sempre tão simpático para com a sua governação, como de resto já o era no tempo em que Sérgio Humberto era apenas um candidato que surgia nos cartazes de campanha trabalhado com Photoshop para parecer mais “maduro”. Não terá sido à toa que o senhor presidente, com o dinheiro que é de todos os trofenses, lá fez um simpático ajuste directo num valor superior a 24 mil euros aos antigos proprietários do CT

Já o Notícias da Trofa/Trofa TV parece ser, para o autarca, o demónio na terra. É costume os políticos procurarem a figura do inimigo, uma referência contra a qual se podem apontar baterias e endereçar culpas por uma série de males que vêm ao mundo. Sérgio Humberto parece ter escolhido o NT para esse papel e tem dado alguns sinais, inequívocos a meu ver, disso mesmo.

O primeiro deles foi o vergonhoso episódio de absoluta falta de maturidade democrática do autarca quando, resumidamente, afirmou que o NT era uma mentira. Que a única coisa que lá estava que era verdade era a data. Um comportamento que desrespeita os profissionais que fazem o jornal, que não dignifica o lugar que ocupa ou tão pouco a democracia em que vivemos. Um radicalismo primário que não se coaduna com o lugar para o qual foi eleito.

O segundo momento, a meu ver menos grave na medida em que não conhecemos (ainda) todos os factos, apesar do silêncio ensurdecedor dos visados que configura em si uma resposta – ou cuidará o caro leitor que, caso fosse uma mentira dos proprietários do NT, não teria já havido um desmentido? – tem a ver com a denúncia das proprietárias do jornal que acusam os responsáveis da CMT de não informar devidamente o jornal das actividades da câmara e que, segundo elas, têm uma atitude discriminatória face ao NT.

O episódio desta semana, porém, não se prende apenas com faltas de respeito ou discriminações. Estamos a falar de um manifesto atropelo da liberdade de expressão dos jornalistas do NT no local onde se realizou a sessão pública de apresentação da ligação do metro entre o ISMAI e o Muro. O vídeo pode ser visto nesta ligação mas, resumidamente, Sérgio Humberto convidou a comunicação social no local, que se resumia à presença do NT/Trofa TV - estranho que o Correio da Trofa não tenha marcado presença num acto público desta importância, apesar da notificação que, à semelhança do NT, terá recebido -  a abandonar o local, numa atitude de absoluto desprezo pela liberdade de imprensa que é um direito consagrado de qualquer órgão de comunicação social. O autarca afirmou mesmo que "há coisas que é de foro público mas isto não implica que seja da comunicação social" o que, pontapés na gramática à parte, é um perfeito absurdo, digno de figurar numa colectânea de apanhados.

Mas a performance absolutamente incrível do presidente da CM da Trofa não ficou por aqui. Sublinhando a importância de não ser "registada uma reunião pública que se pretende ser aberta e transparente", Sérgio Humberto insistiu na sua cruzada em prol da expulsão da equipa do NT no local. Falar em abertura e transparência ao mesmo tempo em que se recusa o direito à imprensa de fazer o seu trabalho é indiscritível, para não dizer patético, ridículo. E para a anedota ser completa, o autarca conseguiu mesmo comparar o grau de acesso da imprensa a um acto público com a cobertura de uma reunião do Conselho de Ministros. Parece brincadeira mas aconteceu mesmo.

Mas há mais: continuando a insistir no desrespeito total para com a liberdade de imprensa da equipa do NT, Sérgio Humberto cometeu o erro clássico do político que se deixa levar pela arrogância de achar que os seus delírios momentâneos contam com a concordância de toda a população ao reiterar a ordem de expulsão em nome dos trofenses. Eu não sei quem é que o senhor presidente se acha para presumir que fala em nome de todos mas estou certo que existem milhares de trofenses interessados na questão e que não se revêm minimamente neste atropelo à democracia. Até pode funcionar para os seus eleitores mas a Trofa não tem 10092 habitantes. Tem mais de 39 mil.

No meio a birra do autarca, há um habitante do Muro, coberto de coerência e razão, que interrompe a infantilidade para pedir bom senso. Sérgio Humberto engole em seco, agradece o correctivo e regressa ao amuo. O que se segue é uma discussão de gente graúda – já era tempo - entre o presidente da Junta de Freguesia do Muro, Carlos Martins, e o jornalista do NT, Hermano Martins, que termina com o presidente a conseguir o seu intento: silenciar a comunicação social. O resto ficou para quem lá esteve a presenciar. Os restantes trofenses, aparentemente, não são tidos nem achados e não merecem ser informados. É o que depreendo da atitude vergonhosa do presidente da CM da Trofa.

A pessoa que, na passada Segunda-feira, atentou deliberadamente contra um direito fundamental em democracia, ao boicotar o trabalho do NT numa sessão aberta ao público e, por conseguinte, aberta à comunicação social, é o mesmo que, na Assembleia Municipal de Fevereiro, afirmava que “a ditadura aqui na Trofa também já acabou em 28 de Setembro de 2013. Honestamente, nunca senti viver em ditadura na minha terra. Tenho noção do peso histórico do termo e não o uso de forma leviana. Porém, não deixa de ser irónico que seja essa mesma pessoa a brindar-nos agora com tiques anti-democráticos. Para quem tem conseguido tantas vitórias, este nervosismo não deixa de ser curioso. O que leva um autarca que aparentemente transpira confiança a ter uma atitude destas? 

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

Comentários

Deixar um comentário

Faça Login para comentar.