Aquilo que a direita trofense não lhe contou sobre Pedro Passos Coelho

por João Mendes 0

O Correio da Trofa nunca escondeu ao que vinha. É um jornal de direita, apoia a direita e tem todo a legitimidade para o fazer. Afinal, trata-se de um meio de comunicação privado e ninguém tem nada que ver com as suas opções políticas e ideológicas. Não admira, portanto, que ao longo de várias edições, os colunistas deste título – todos de direita – venham elencando rasgados elogios à acção da coligação PSD/CDS-PP, na Trofa como em São Bento, ao mesmo tempo que vão atacando, de todas as formas possíveis, tudo o que mexe à esquerda do espectro, com especial atenção ao PS.

Para aqueles que agora se questionam sobre o facto de eu escrever no outro jornal local, O Notícias da Trofa, conotado com a esquerda, recordo-vos que o colunista que há mais tempo se mantém de pedra e cal é José Maria Moreira da Silva, que vem há alguns meses a escrever vários artigos onde oscila entre o elogio ao trabalho de PSD e CDS-PP e o ataque cerrado ao PS. E com toda a legitimidade, queria apenas deixar uma nota quanto ao pluralismo de um e outro jornal.

Posto isto, queria falar-vos sobre o artigo do senhor Vieira de Araújo - Eleições: emoção ou ponderação -  na mais recente edição do Correio da Trofa. O artigo, relativamente ao qual devo desde já saudar a capacidade rara e verdadeiramente singular de assumir, ainda que de forma tímida, que o trabalho deste governo causou estragos profundos na sociedade portuguesa, nomeadamente a capacidade de assumir que existem variáveis externas que explicam em parte os números que o governo vem apresentando como vitórias, como a questão do impacto da emigração na taxa de desemprego. Alguns senadores da direita trofense, do alto do seu pedestal, deviam pôr os olhos nestas palavras e, por uma vez que fosse, falar verdade às pessoas. Mas isso ia contra a propaganda e há ordens que precisam de ser cumpridas.

Mas existe algo que é verdadeiramente digno de nota neste artigo, e que de resto vem sendo usado com arma de arremesso contra António Costa, que se prende com a forma como tirou o tapete ao António José Seguro. Concordo. Jogou baixo e agora está a pagar o preço dessa jogada. Mas como refere, e bem, o autor, a ética na política portuguesa anda pelas ruas da amargura e não se resume apenas ao PS. Para os mais esquecidos, recordo que, tal como António Costa, também Pedro Passos Coelho jogou baixo com os seus adversários, primeiro com Manuela Ferreira Leite e depois com Paulo Rangel e Aguiar Branco. E quem nos conta esta história, curiosamente, é o próprio proprietário do Correio da Trofa, Fernando Moreira de Sá (FMS), que em Novembro de 2013 deu uma entrevista à revista Visão e colocou a nu a guerrilha sem ética ou escrúpulos que detonou os adversários internos de Pedro Passos Coelho no PSD. Pena que as claques trofenses da coligação, sempre tão incisivas no que toca à forma como Costa detonou Seguro, insistam em esconder-lhe a forma igualmente radical e indigna como Passos detonou todos os que se colocaram entre si e o poder. Infelizmente, os interesses do partido estão sempre à sua frente caro leitor.

Primeiro Manuela Ferreira Leite: segundo FMS, a blogosfera “ajudou a derreter” a então líder do PSD, com jogadas estudadas entre pessoas como António Nogueira Leite, nomeado para o conselho de administração da EDP após Pedro Passos Coelho ter chegado ao governo, ou Carlos Abreu Amorim, deputado próximo do primeiro-ministro. FMS assume, na mesma entrevista, que estes e outros blogueres ou comentadores influentes – grupo do qual FMS fazia parte - eram, nas palavras do próprio, “o braço armado para, dentro do digital, desgastar Manuela Ferreira Leite e os adversários do Passos”. E acrescenta que “Até fizemos de bombeiros do Aguiar Branco. Queríamos que ele fosse até ao fim…”.

Ferreira Leite caiu e vieram as internas. FMS assume que, juntamente com a equipa que suspeita ter sido coordenada por Miguel Relvas, ter condicionado o debate entre Passos, Rangel e Aguiar Branco: 

Antes do debate, já tínhamos tweets preparados para complicar a vida ao Rangel. Nos primeiros minutos, começamos a tuitar como se não houvesse amanhã, dizendo que o Rangel estava nervoso e mais fraco do que o esperado. Criou-se um ambiente negativo que se propagou rapidamente. Ao fim de cinco minutos, ríamos até às lágrimas! Até opinion makers repetiam o que dizíamos! E o debate tinha apenas começado…

Vale a pena ler a entrevista. Abatidos os adversários internos, a máquina de Pedro Passos Coelho nas redes sociais partiu para o assalto ao governo, com tácticas que iam da criação de perfis anónimos no Facebook - onde é que nós já vimos isto? - até à manipulação de espaços de debate como o Fórum TSF. Isto tudo para dizer que, se a Costa falta ética, a Passos Coelho falta-lhe ética, escrúpulos e carácter. Um maquiavélico que não olhou a meios para atingir os seus fins de mera ambição pessoal. Tem a certeza que quer votar neste sujeito?

Foto@O Notícias da Trofa


João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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