Sobre a preservação da biodiversidade na Trofa… ou falta dela!

por Silvéria Miranda 0

O texto que se segue é da autoria de Vasco Flores Cruz e vem na sequência de dois outros do mesmo autor já publicados aqui e aqui.

A conservação da biodiversidade há muito que deixou de ser apenas uma preocupação de naturalistas e amantes da natureza. Há já algumas décadas que a comunidade cientifica provou que o bem estar e a própria sobrevivência da nossa espécie depende de ecossistemas saudáveis e ricos em outras espécies. Por outro lado, comissões politicas e de ética reconheceram aos outros animais direitos que defendem a sua conservação e a dos seus habitats de forma a que o nosso desenvolvimento não comprometa a sua existência ou bem estar.

Estas considerações fizeram com que os legisladores tornassem a conservação da natureza e da biodiversidade uma prioridade, e neste momento as leis vigentes no nosso país são das mais avançadas do mundo no que diz respeito à conservação da natureza. No entanto, grande parte destas leis não passa do papel. Quem tem responsabilidades na administração pública raramente tem sensibilidade para pôr em prática estas determinações. Não existem mecanismos eficientes de policiamento e fiscalização ambiental, e a população não está sensibilizada e prescinde de direitos fundamentais, assistindo à degradação do ecossistema em que vive sem se manifestar.

O território a que hoje chamamos Trofa tem um potencial incrível para que tenha uma grande biodiversidade. Estamos situados numa zona de transição entre o clima atlântico do extremo norte da Península Ibérica e o clima mediterrânico do centro e sul (estas zonas de transição são extremamente ricas, pois normalmente agregam espécies típicas das duas áreas climáticas que dividem). Por outro lado, estamos no cruzamento de dois importantes corredores ecológicos: o rio Ave com orientação este-oeste e uma cadeia de montanhas de pequena altitude paralela à costa atlântica (norte-sul) que atravessa o nosso concelho e que corresponde aos montes de S. Gens, Santa Eufémia e Monte Grande (a arquitecta Teresa Andressen na Estrutura Regional de Protecção e Valorização Ambiental Norte chamou a esta cadeia montanhosa de “Corredor das Brisas”).

Nesta localização extraordinária e num ambiente pristino teríamos bosques onde dominavam carvalhos, sobreiros, medronheiros e azevinhos nas zonas mais declivosas, bosques de salgueiros, amieiros, freixos e sabugueiros nas zonas mais planas. Nestes bosques existiam clareiras criadas por manadas de mamíferos herbívoros como veados e corços. Existiam charcos e lagos um pouco por todo o concelho, alguns de grandes dimensões que ficariam onde hoje chamamos Lagoa e Pateiras (pateiras são lagos com patos). Nestes locais poderiam juntar-se milhares de aves migratórias que sobrevoam o “Corredor das brisas” durante as suas migrações sazonais. Os nossos ribeiros correriam com águas cristalinas e sáveis e salmões subiriam o rio Ave para desovar.

É claro que não seria possível preservar muita desta riqueza com a densidade populacional que temos, mas também não era necessário termos degradado todos os habitats a um ponto que quase todas as espécies tenham desaparecido.

Praticamente toda a floresta desapareceu e foi substituída por eucaliptais. Os lagos, charcos e pateiras foram drenados. Com as práticas e culturas actuais, a área dedicada à agricultura é praticamente estéril. O nosso sistema hídrico foi reduzido a meia dúzia de corgas e um rio, todos eles bastante poluídos e infestados por espécies exóticas. As indústrias estão aleatoriamente distribuídas pelo concelho sem que um ordenamento as aglomere e optimize a redução dos seus impactos. As redes viárias fragmentam os nossos habitats e interrompem os corredores ecológicos. E a Trofa que conhecemos hoje é um fantasma do que foi um dia, de tal forma que os trofenses nem conseguem imaginar a beleza extraordinária que já teve o local onde vivem!

É absolutamente urgente que se crie uma estrutura ecológica do concelho que articule um plano de gestão florestal, uma estratégia sustentável para a agricultura do concelho e uma rede de espaços verdes e corredores ecológicos. Esta estrutura deve, por um lado, procurar ajustar as actividades que exercemos e o uso que damos ao solo de forma proteger os habitats de que dependem as  nossas espécies autóctones e, por outro lado, tentar criar conectividade entre estes habitats de forma a que a sua conservação seja eficaz.

Por outro lado, seria importante a criação de um centro de interpretação e monitorização ambiental que, como o nome indica, procurasse trabalhar a divulgação e a educação ambiental no concelho, bem como monitorizar a qualidade das componentes biológicas e biofísicas para que quem administre o concelho possa conhecer em tempo real a situação ambiental do concelho e tomar decisões factuais e fundamentadas.

Uma medida inteligente seria a criação de um parque urbano com um lago de grandes dimensões entre a zona da Lagoa e a recta das Pateiras.  Devolveríamos aos anfíbios, às aves migratórias e a uma grande variedade de outras espécies um habitat que hà muito lhes roubamos e, por outro lado, resolveríamos o problema da drenagem dos terrenos circundantes que é recorrente nessa zona em tempo de chuva (e que não acontece aí por acaso).

É sempre mais fácil empurrar com a barriga e continuar a fingir que não vemos os nossos habitats a degradar-se e as nossas espécies a desaparecer. Podemos continuar a encolher os ombros e a dizer que pela dimensão do problema e pelos múltiplos responsáveis que é impossível de resolver. A questão é que se esta situação não sofrer uma reviravolta num curto espaço de tempo pode tornar-se de facto irremediável.

Quando é que a administração local vai compreender que ambiente não é recolha de lixo, nem reciclagem, nem saneamento público? Ambiente é compreender que somos uma comunidade de animais que dependemos do ecossistema onde vivemos e que este ecossistema depende de populações de outros animais e plantas para que seja equilibrado e viável a longo prazo. Ambiente é ordenamento do território. A recolha do lixo, a reciclagem e o saneamento são necessários para que o impacto das nossas actividades seja mínimo, mas se não tentarmos compreender, monitorizar e preservar este ecossistema em todas as suas dimensões então estamos condenados ao fracasso…

Um abraço,

Vasco Flores Cruz



Silvéria Miranda

Sempre tive como velha máxima que os factos são sagrados e as opiniões livres. Foi com essa premissa que criámos este espaço e é por ela que me rejo em cada palavra que aqui escrevo. Sem qualquer interesse que não o de ajudar a construir uma Trofa melhor, mais justa e apelativa, digo orgulhosamente que sou tanto da Trofa como a Trofa é minha!

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