Sobre a área florestal no concelho da Trofa

por Silvéria Miranda 0

O texto que se segue é da autoria de Vasco Flores Cruz e vem na sequência de um outro texto do autor já aqui publicado.

A Floresta

Embora mais de metade do território do concelho da Trofa seja área florestal, a floresta há muito que desapareceu! Desapareceu e foi substituída por monoculturas de eucaliptos que degradam muito rapidamente as componentes biológicas e biofísicas dos nossos terrenos. Ou seja, quase não existem animais ou outras plantas que habitem em eucaliptais e o crescimento intensivo destas árvores de folha perene e insaciáveis no consumo de água faz com que os solos se tornem cada vez mais pobres e com uma capacidade de retenção de água muito reduzida. Muitos dos pequenos ribeiros que existiam no concelho desapareceram nos últimos anos e transformaram-se em corgas (cursos de água que só têm algum caudal quando chove), algumas fontes ameaçam secar e seria também importante monitorizar os lençóis freáticos para perceber o impacto que estas plantações possivelmente estarão a causar.

No entanto, grande parte da nossa área florestal está classificada como Reserva Ecológica Nacional (REN). A REN foi criada com o intuito de “salvaguardar, em determinadas áreas, a estrutura biofísica necessária para que se possa realizar a exploração dos recursos e a utilização do território sem que sejam degradadas determinadas circunstâncias e capacidades de que dependem a estabilidade e fertilidade das regiões, bem como a permanência de muitos dos seus valores económicos, sociais e culturais”.

O que se está a fazer é precisamente o contrário!

A gestão (ou não gestão) da nossa área florestal está a permitir a rápida degradação dos nossos recursos (solo, sistema hídrico e biodiversidade) de uma forma que não podemos garantir às gerações vindouras nem o usufruto nem a exploração dos mesmos. Por outras palavras, estamos a transformar este cantinho do vale do Ave num deserto ou, como diz o meu amigo Bruno Inácio, “Estão-nos a vender a mãe por uns trocos!”.

Para agravar a situação, parte desta “gestão anárquica” da nossa área florestal é feita através do fogo. O fogo que serve, por exemplo, para limpar terrenos para a plantação de eucaliptos ou para invadir o mercado de madeira barata, não surge por acaso. Não são acidentes nem loucos que nos levam aos números apresentados pelo ICNF para o nosso concelho que para a década 2001/2010 apresentam médias de 100 fogachos/ano, 16 incêndios/ano e mais do que 2 milhões de metros quadrados/ano de área florestal ardida. O impacto destes fogos é bem conhecido, são vidas postas em risco e avultados danos económicos e ambientais.

Muito embora, no imediato, a produção de eucaliptos seja de facto a cultura mais rentável, a dependência de um só produto e os riscos a isso associados (praticamente toda a nossa área florestal é eucaliptal) e o grande impacto que esta cultura tem nas componentes biológicas e biofísicas (desrespeitando as leis de protecção da natureza, de ordenamento do território e a própria constituição Portuguesa), faz com seja necessário repensar e reordenar a nossa floresta urgentemente.

O que eu penso que deveria ser feito?

Dadas as características do nosso concelho penso que a única solução para um ordenamento florestal justo e sustentável passaria pela gestão da nossa área florestal por perequação. Ou seja, seria necessário criar uma entidade que gerisse a totalidade da área florestal e que periodicamente distribuísse por cada proprietário uma fatia dos rendimentos equivalente à percentagem dos seus terrenos. Desta maneira, podem-se determinar áreas de produção de eucalipto, áreas de produção de folhosas, áreas de protecção, etc. sem que nenhum proprietário fique prejudicado ou beneficiado perante os demais com as afectações da sua parcela.

Seria  necessário um estudo pormenorizado para definir quais os produtos florestais a produzir, qual a área destinada a cada produto e como distribuir as diferentes produções pela área florestal. De uma forma genérica, a solução passaria por um mosaico de diferentes produções florestais que, para além de diferentes tipos de madeiras, incluísse a produção de frutos, mel e carne (ovelhas, cabras, ou vacas autóctones). Passaríamos a ter uma floresta sustentável (com um consumo de água e solo auto-regeneráveis), biodiversa (teríamos habitats capazes de albergar muitas espécies de animais e plantas selvagens) e com capacidade de gerar empregos, pois muitas das produções alternativas ao eucalipto exigem mais mão-de-obra.

Desta forma, resolveríamos também o problema dos incêndios, pois o fogo deixa de ser uma vantagem (numa floresta bem gerida o fogo só atrapalha) e o número de fogachos diminuiria consideravelmente. A criação de gado faria com que a floresta estivesse regularmente mais limpa, o que previne a ocorrência de incêndios ou, caso aconteçam, faz com que se propaguem mais lentamente. A presença de pessoas na área florestal (pastores, apicultores, fruticultores, etc.) limitaria os movimentos de incendiários e diminuiria o tempo de alerta em caso de fogo. E se ao redesenhar os usos do solo florestal forem estrategicamente criadas zonas de pasto que retalhem as manchas de floresta (principalmente as de crescimento rápido) o risco de incêndios de grande dimensão diminui drasticamente.

Esta solução levaria a uma quebra do rendimento imediato da nossa floresta (que seria tanto maior quanto menor a área que fosse destinada à plantação de eucaliptos). No entanto, seria o garante de que no futuro poderemos continuar usufruir destes recursos e acredito mesmo que a longo prazo esta solução seja economicamente muito mais vantajosa do que a que temos neste momento. O que vos parece?

Um abraço,

Vasco Flores Cruz

Silvéria Miranda

Sempre tive como velha máxima que os factos são sagrados e as opiniões livres. Foi com essa premissa que criámos este espaço e é por ela que me rejo em cada palavra que aqui escrevo. Sem qualquer interesse que não o de ajudar a construir uma Trofa melhor, mais justa e apelativa, digo orgulhosamente que sou tanto da Trofa como a Trofa é minha!

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