Isto conta como ser do contra senhor presidente?

por João Mendes 0

Com a campanha eleitoral para as Autárquicas de 2013, a coligação PSD/CDS-PP inaugurou uma nova era na comunicação digital, até então extremamente amadora no que ao espectro político trofense dizia respeito. A campanha nas redes sociais foi avassaladora, massiva e extremamente calculista, o que demonstrou uma articulação sem precedentes. Os militantes mais destacados estavam sintonizados, as jotas estavam sintonizadas (e particularmente silenciosas para não armar mais bandalheira) e os apoiantes mais entusiastas não perdiam a oportunidade de partilhar as juras de amor que o recém-fabricado orgulho trofense nos ia fazendo. Parte dessas eleições foi ganha nesta arena com uma eficiência assinalável.

Desde então, o presidente Sérgio Humberto tem sido particularmente activo no Facebook. As pessoas encarregues de gerir a sua página pessoal, regra geral coordenada com a da autarquia que, à semelhança dos seus pares por esse Portugal fora, também as usam em benefício das suas estratégias políticas e não apenas numa óptica de comunicação objectiva e imparcial, tem sido incansáveis. O presidente acompanhou os idosos a Fátima? O Facebook mostra-nos tudo. O presidente inaugurou um fontanário em Alvarelhos? A rede social esteve lá. O presidente anda pela Festa de Rua no Muro? As fotografias da visita estão quase instantaneamente na sua página pessoal. A lista é interminável e, a meu ver, nada contra. Sérgio Humberto usa a sua página pessoal como bem entende e ninguém tem nada a ver com isso. Contudo, existem incoerências dignas de nota. E incoerência foi o termo mais simpático e cordial que consegui arranjar para categorizar este triste episódio.

Integrada num roteiro da Secretaria de Estado do Desporto e da Juventude, o Clube Slotcar da Trofa, a cuja direcção pertenço, recebeu a visita do Secretário de Estado Emídio Guerreio às suas instalações. Com ele, uma comitiva de peso que incluiu técnicos e dirigentes do Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), representantes de diferentes estruturas associativas e alguns responsáveis políticos locais: o autarca Sérgio Humberto, o seu vice António Azevedo e o vereador Renato Pinto Ribeiro. A visita, que infelizmente não pude acompanhar, foi um sucesso, com a presença da nossa direcção em peso, os 61 a cantar o hino do Clube, a imprensa local e nacional presente e uma série de elogios dos responsáveis da Secretaria de Estado e do IPDJ. Uma honra e um orgulho para uma associação que representa e leva a Trofa aos quatro cantos do país, nomeadamente através das enormes prestações da nossa equipa de Slotcar ou da nossa equipa de Bilhar, actualmente a competir ao mais alto nível na primeira divisão nacional, mas que tem também desenvolvido uma série de actividades em várias áreas, do desporto ao voluntariado, e que continua a alargar o seu raio de acção a outras vertentes, procurando sempre envolver a Trofa e os trofenses. Um reconhecimento, perdoem-me a falta de modéstia, mais do que devido.

No entanto, ficou a sensação de que nem todos os presentes reconhecem igual valor do Clube Slotcar da Trofa. O presidente Sérgio Humberto, que usa e abusa da sua página de Facebook para publicar fotografias de quase tudo quanto faz, e que não perdeu a oportunidade para protagonizar mais um momento de propaganda, dando primazia à acção do seu executivo em detrimento do associativismo, não sentiu a necessidade de ser coerente com a sua própria linha de acção neste caso específico. Uma alta patente do governo, que por acaso até é da sua cor e estava cá pela primeira vez como o próprio Sérgio Humberto referiu, visita uma associação trofense, tecendo rasgados elogios ao seu trabalho, e nem uma fotografia, uma palavra que fosse na sua tão movimentada página na rede social. Para quem tanto abanou a bandeira do associativismo em campanha, parece-me haver aqui alguma hipocrisia. O que, lamentavelmente, já não me admira.

Será que o Clube Slotcar da Trofa não é digno do orgulho trofense de figurar na página do presidente Sérgio Humberto? Serão a actividade desta associação e o acontecimento em si tão irrelevantes para o autarca que não lhe mereçam a mínima nota de rodapé? Ele que, aquando da inauguração da nossa sede em Setembro de 2014, tecia também rasgados elogios à actividade do Clube e à acção do nosso presidente João Pedro Costa e que, no meio de circulares e referências ao apoio financeiro da CMT à associação lá conseguiu balbuciar meia-dúzia de palavras bonitas sobre o Clube? Será que, no exercício da sua liberdade de expressão e através da sua coluna de opinião no jornal que Sérgio Humberto acusou de mentiroso (com excepção da data de publicação, vá), o facto de João Pedro Costa ter expressado opiniões que não vão de encontro aos mais altos interesses da coligação que dirige o levou a descriminar a nossa associação, desprezando a sua importância ao não fazer uma simples referência, por mais fria ou hipócrita que fosse? Seria muito mau. Seria revelador de um dirigente político manifestamente incapaz de separar as suas funções institucionais dos calculismos políticos de quem indicia enormes dificuldades em lidar com uma sociedade civil interventiva e independente que, aqui como em qualquer ponto do mundo democrático, nem sempre coincide com a vontade do poder político. Seria, em linguagem mais corriqueira, uma enorme demonstração de azia, indigna de um autarca que se preze. Será que isto conta como ser do contra senhor presidente? 

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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