A justiça dos poderosos no país dos conformados

por João Mendes 0

A autarca que geriu os destinos do concelho da Trofa entre 2009 e 2013 foi recentemente a tribunal para ouvir a sentença por um crime de participação económica em negócio e dois de abuso de poder. Em todas as três acusações, a socialista Joana Lima foi absolvida. E foi absolvida apesar de ser público e do conhecimento da esmagadora maioria dos trofenses, pelo menos no caso dos dois crimes de abuso de poder de que estava acusada, que a florista propriedade da sua irmã e a oficina propriedade do namorado da sua sobrinha receberam efectivamente vários serviços em modalidade de ajuste directo por parte da autarquia. Apesar da amnésia. Ficamos portanto a saber que, de futuro, qualquer executivo camarário tem total legitimidade e livre-trânsito para entregar quantos ajustes directos quiser aos familiares das suas mais altas patentes. A justiça portuguesa não se importará e nós, pelos vistos, também não.

Gostemos ou não, vivemos num país que é favorável a este tipo de situações. E não são só aqueles que estão em Lisboa, a quem todos tendemos a apontar o dedo quando estamos revoltados com a casta. O problema somos nós, um povo passivo e alheado das suas responsabilidades civis, que prefere partir a boca ao gajo que ousou insultar o jogador do nosso clube do que lutar activamente para que a justiça seja real e não um mero adorno desta democracia de fachada em que vivemos. Temos o que merecemos e aquilo que a maioria quer. E maioria aprecia claramente ser iludida e trapaceada pelas lideranças políticas a quem entrega o poder.

É interessante verificar que muitos dos que explodiram em alegria com esta decisão do tribunal de Matosinhos são os mesmos que atacam o actual executivo PSD/CDS-PP pelo uso e abuso do ajuste directo, ainda que, convenhamos, o actual executivo efectivamente use e abuse mais dele, tal como uma rápida visita ao site base.gov nos poderá comprovar. Os ajustes directos só são maus quando beneficiam outros que não os seus. Em sentido oposto, não menos interessante é assistir à revolta de alguns, os tais que permanecem calados perante situações tão ou mais opacas como o caso Correio da Trofa/Flexisílaba Publicações (e não é que o beneficiário do contrato, Pedro Póvoas, até andava a trabalhar no Be Live?), o caso Paula Cristina Teixeira Moreira ou o caso de Ana Soares, a designer que para além de ter estado na equipa inicial do Correio da Trofa ainda conseguiu uns trocos do Cinetrofa e dois ajustes directos gordinhos. Ser telecomandado tem destas coisas.

No entanto, alguns seres com mais tendência para o terrorismo político devem ter ficado particularmente afectados, algo que se comprova com silêncio ensurdecedor dos que fazem do boato uma arma política, essa gentalha sem outros argumentos que não seja a mentira e a manipulação. Depois do absoluto patético em que caíram com episódios como aquele do Audi Q7 que não existia, ver as suas expectativas de condenação da sua arqui-inimiga frustradas deve custar a passar na garganta. Principalmente quando se avizinha também o julgamento de Bernardino Vasconcelos e de umas quantas outras personalidades social-democratas ligadas ao “antigo regime”. Para quando um panfleto anónimo?

A justiça portuguesa é, na esmagadora maioria dos casos que envolvem figuras mediáticas e poderosas, uma pura e simples nulidade. Não há um banqueiro fraudulento que vá preso, um político corrupto que seja devidamente julgado ou um qualquer traficante de influências que seja punido pelos seus crimes. Nada. Basta haver um bom advogado, muitas vezes pago pelo partido por baixo da mesa, que engula o franzino Ministério Público. Somos uma nação de gente boa mas extremamente mansa, com medo do senhor doutor, com medo da senhora juíza e com medo da porcaria da nossa sombra. Somos o laboratório perfeito para fazer gato-sapato de um povo passivo que não reage mais do que manifestar-se até há hora do jantar quando o rei faz anos. 

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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